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A vibração do Terra cessou ao som dos montes Golã. Um ano antes do previsto

Tiago Mendes Dias
Cultura \ segunda-feira, outubro 17, 2022
© Direitos reservados
O concerto dos sírios TootArd encerrou quatro anos de músicas do mundo com selo da Capivara Azul. Era para ser cinco, mas as dificuldades de diálogo com a coordenadora do CIAJG precipitaram o fim.

Oriundos da região por vezes designada por Levante, os TootArd aterraram em Guimarães a 07 de outubro para assinalarem o ocaso do Terra, com sintetizadores e aparatos eletrónicos que representam a música de dança do Médio Oriente. Criados nos montes Golã, território reconhecido pela comunidade internacional como parte da Síria, mas ocupado por Israel desde 1967, os irmãos Hasan e Rami Nakhleh protagonizaram o último dos 14 concertos do ciclo de músicas do mundo com o selo da Capivara Azul, uma das associações culturais da cidade-berço.

O palco foi sempre o mesmo: a black box do Centro Internacional das Artes José de Guimarães (CIAJG). Para Samuel Silva, um dos dirigentes da Capivara, não havia melhor espaço para um “projeto artístico e político” do que um museu que suscita a “reflexão sobre questões coloniais, questões ecológicas, questões de género”. Até no logotipo criado para o Terra, se via a marca do artista vimaranense. “Este ciclo nasceu para ser feito no CIAJG. Fora do CIAJG, não faria sentido”, esclarece.

E “nunca foi pensado para ser eterno”, sequer; a organização previa, ao início, que o Terra girasse até 2023, mas decidiu interromper essa rotação um ano mais cedo. As crescentes dificuldades de comunicação com a curadora-geral do CIAJG, Marta Mestre, foram um dos motivos para a decisão tomada; a Capivara Azul crê mesmo que a responsável “não entendeu bem o projeto”. “A curadora-geral do CIAJG não percebeu o que estávamos ali a fazer. Este último ano foi bastante difícil, bastante frustrante, porque tínhamos uma facilidade de diálogo com o CIAJG que deixou de haver. Sentíamo-nos um bocadinho a mais ali”, lamenta Samuel Silva.

Alguma da “responsabilidade” na deterioração da comunicação pode também pertencer à Capivara, uma vez que, em quatro anos de Terra, lidou com cinco diferentes responsáveis da Oficina, a começar por Nuno Faria, o ex-diretor do CIAJG. “A cada três concertos, tínhamos de lidar com um novo responsável da Oficina e explicar que provocação queríamos fazer ao centro. Se calhar, à quinta pessoa, podemos não ter explicado bem o que estávamos a fazer”, realça.

Mesmo sem o crescimento almejado, que explica com a pandemia – “a programação de 2020 e de 2021 apanha a covid-19 em força” -, Samuel Silva faz um “balanço bastante bom” de um projeto que começou com Aline Frazão, nome maior da música de Angola, precisamente o território em que José de Guimarães “se fez artista”, e tocou outras coordenadas geográficas, seguindo rotas da lusofonia ou do colonialismo.

A programação de 2022 tocou “velhas formas de colonização”, dando o palco a Mário Lúcio, de Cabo Verde, a Mateus Aleluia, representante de “um Brasil negro”, e aos já referidos TootArd. A viagem até ao último acorde do Terra contemplou ainda incursões por Moçambique e por outro recanto da lusofonia não tantas vezes mencionado: a Galiza, com Baiuca, um dos artistas mais requisitados em Espanha, que “hoje seria inacessível” ao Terra.

“Foi o concerto que mais me marcou. Foi a nossa primeira lotação esgotada, com muito público galego. Era provavelmente 50% da lotação. Tínhamos feito um investimento muito grande em promoção na Galiza no ano anterior. Trouxemo-lo no momento certo”, diz Samuel Silva, a propósito do concerto de 02 de outubro de 2020.

 

 

“Construiu-se um público para uma área que não existia em Guimarães”

A partir de 2021, a música caminhou de mãos dadas com o cinema, também ele de várias latitudes. Com os filmes, a Capivara Azul quis acentuar “a dimensão política” do Terra e exibir obras “nunca antes passadas em Portugal”, que escapam ao peso das distribuidoras. Nasceu daí um “cruzamento de públicos interessante”, com o “público do cinema a assistir aos concertos e o público da música a ver filmes por curiosidade”.

Samuel Silva enaltece, aliás, a “boa receção do público” ao Terra, assente na ideia de que Guimarães se projeta como “bom sítio para se ver concertos”. “Temos público do Porto, de Braga, de outras zonas do norte e também da Galiza para ver algumas das propostas na cidade”, refere.

A cidade já tivera música de outras latitudes em concertos ocasionais no Centro Cultural Vila Flor e no Encontro de Música de Tradição Europeia, mas a experiência dos últimos quatro anos pode lançar as bases para eventos de “músicas do mundo” que sucedam ao Terra. “Nestes quatro anos, construiu-se um público para uma área que não existia em Guimarães. Talvez outras entidades possam pegar na ideia de que é possível trazer música de outras latitudes, que não as da música anglófona, que domina os meios mediáticos”, perspetiva.

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