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AM do 25 de Abril: “A indiferença é um luxo a que não nos podemos dar”

Tiago Mendes Dias
Política \ quinta-feira, abril 25, 2024
© Direitos reservados
Em tempo de “aborrecimento e tédio”, com sociedades a enfrentarem “o próprio desânimo”, José João Torrinha pede “determinação e alegria” para salvaguardar liberdade.

O combate ao “desânimo e à descrença” exige “alegria e determinação”, não indiferença, a principal ideia à qual o presidente da Assembleia Municipal de Guimarães se opôs, no último dos discursos da sessão solene do 25 de Abril, nos 50 anos da Revolução dos Cravos. Ele mencionou “A peste”, livro de Albert Camus publicado em 1947: “A indiferença é um luxo a que não nos podemos dar”, resumiu, durante a sessão decorrida no Teatro Jordão.

Como alguém que ainda cresceu já depois do 25 de Abril e ainda em contexto de Guerra Fria, o tempo que se seguiu à queda do Muro de Berlim, em 09 de novembro de 1989, e o 11 de setembro de 2001, no fundo o “limbo” entre o fim do século XX e o início do século XXI, prometia a “ilusão de que o processo histórico era um progresso imparável rumo a dias melhores” e levanta a questão sobre se esse foi “um momento anormalmente feliz” de uma humanidade que se prepara para "regressar a um velho novo normal”, perante os retrocessos civilizacionais que grassam “um pouco por todo o mundo” e ao regresso de ideologias que pareciam confinadas aos livros de história.

“Estamos na era do tédio. Do alto do conforto de uma sociedade que, do alto dos seus problemas, vive tempos melhores, há quem responda ao aborrecimento com gestos que podem colocar tudo em causa. Esses gestos são vistos como indiferença”, disse.

Para o presidente da AM, há em curso uma tendência para o “abastardamento” do conceito liberdade, confundindo‐o com o mero individualismo, onde, “sob a aparência de liberdade”, as pessoas constroem “prisões para si próprias”, fechando‐se nelas. José João Torrinha criticou, por isso, a meritocracia como ideal político, por levar as pessoas mais pobres e desfavorecidas a acreditarem que o facto de assim serem é “culpa sua” e a apoiarem propostas que “pouco os ajudam”.

José João Torrinha elogiou, por isso, os homens e mulheres que, em 25 de Abril de 1974, “pensaram mais nos outros do que em si”, lutando para mudar o regime político português, e disse que 2024 não é “tempo para inação”. “Não se pode ceder um milímetro aos que querem colocar em causa as conquistas do 25 de Abril. É preciso sacudir o pessimismo e arregaçar as mangas. Ao desânimo e à descrença, respondemos com alegria e com determinação”, reiterou.

 

Forças políticas enaltecem 25 de Abril, mas divergem no que se seguiu

Numa sessão que começou e terminou com o músico Rui Souza, autor de uma ampla investigação sobre as canções tradicionais e de trabalho do Baixo Minho, traduzida em três canções que versavam sobre isso, mas também sobre liberdade sexual ou emancipação feminina nas entrelinhas, as sete forças políticas representadas na AM saudaram os 50 anos da revolução desencadeada pelo Movimento das Forças Armadas, mas divergiram na interpretação do tempo que se seguiu. À esquerda, pediu‐se a recuperação dos valores de Abril, diminuídos pelas políticas seguidas por vários Governos. À direita, mencionou‐se o 25 de Novembro como data de conclusão do processo desencadeado pela Revolução dos Cravos. representadas no órgão:

 

António Mota‐Prego, PS

“Nos 30 anos que levava de vida de um Portugal em ditadura, tive 15 co uma perceção mais nítidam quando ia progredindo em idade, da tristeza e da angústia num Portugal folcloricamente sorridente. Vivíamos tempos assentes em silenciamento que muitos não suportaram, só porque expressaram o desejo de liberdade individual e coletiva. Os autores morais desse silenciamento foram António Salazar e Marcello Caetano. Sobrevivi à guerra, à prisão e tive a felicidade de viver o florido e irrepetível dia 25, no Abril de há 50 anos. Abril terá de ser sempre, porque no dia em que deixar de ser, perecerá a alma do povo que a plantou. Que vivam sempre a democracia e a liberdade”

 

César Teixeira, PSD

“No dia 25 de Abril de 1974, os portugueses iniciaram a caminhada coletiva rumo à construção de um estado de direito democrático. Foi possível derrubar um regime autocrático. Quando chamados pela primeira vez às urnas, os portugueses marcaram presença de forma massiva. Fomos construindo um poder local sólido e participado, que muito tem contribuído para a melhoria da qualidade de vida dos portugueses. Mas Portugal é também o país dos impostos altos e dos serviços públicos no mínimo (…9 Podemos não viver no mundo ideal, mas podemos dizer que, antes, era bem pior. Portugal é hoje uma democracia consolidada, liberal, de tipo ocidental”.

 

Paulo Peixoto, CDS‐PP

“Quando celebramos o 25 de Abril, pretendemos solenizar um acontecimento digno de grande importância. Estamos perante um evento que mudou radicalmente o quotidiano dos portugueses, principalmente para melhor: o direito à liberdade e o direito à democracia. Associar Abril e os seus princípios a um setor partidário é castrar a sua génese, a dos três D: democracia, descolonização e desenvolvimento. E temos o 25 de Novembro, sem o qual teríamos o regime como hoje o conhecemos, que vai ser assinalado pelo Governo da AD. (…) A nossa geração não soube melhorar os valores de Abril nem tampouco passá‐los aos mais novos”.

 

Torcato Ribeiro, CDU

“Foi no dia 25 de Abril de 1974, que o povo português emergiu de um dos períodos mais negros da sua história, marcados pela tortura, pela miséria, pelo analfabetismo, desigualdades sociais, pela guerra, pela alta corrupção e pelo isolamento internacional, em contraste com a fortuna de uma opulenta maioria. Para a juventude, significou o fim a guerra, que tantas vidas ceifou (…) Há uma imperiosa necessidade de por fim ao ciclo de ofensiva contra Abril para dar resposta aos anseios e ambições dos portugueses. Abril vive e viverá. O povo estará por todo o país a afirmar que Abril é e será mais futuro”.

 

Pedro Pinto, Chega

“Os capitães de Abril lideraram um golpe pacífico que derrubou um regime que vigorou por 41 anos. Esse regime controlava a liberdade de expressão. Mas 50 anos depois, continuamos iguais ou piores, para não falar no controlo da imprensa que acontece em tempos atuais. (…) Esta revolução não trouxe só mudanças sociais, políticas e económicas, como abriu caminho às eleições livres. No 25 de Novembro, com sangue, suor e lágrimas, houve o fim da tentativa de radicalização de Portugal. (…) Foi essa liberdade que permitiu ao Chega acabar com o bipartidarismo de Portugal”.

 

Sónia Ribeiro, BE

“Neste ano, celebramos os 50 anos do 25 de Abril de 1974. O aniversário não é mais relevante do que foi no ano anterior e do que será no próximo. O volume, a intensidade e o fervor das celebrações aparecem em doses redobradas. (…) A deturpação da história por quem nunca se conformou com ela fomenta alguns equívocos que grassam em meios propagandísticos. Possibilitamos que se culpe Abril pela promiscuidade entre poder político e poder económico, pela habitação, pela inflação, pelo descalabro dos serviços públicos e que se culpe Abril pela angústia da população. Por muito que isso não seja abril, há uma distorção histórica que se volta para regimes que negam abril e se guiam pelas parangonas do regime anterior”.

 

Pedro Teixeira Santos, IL

“Para nós, jovens, é difícil sentir a angústia da censura, a falta de livre pensamento e de oportunidades antes da revolução. O 25 de Abril foi triunfo da esperança sobre o medo, da coragem sobre a submissão. Alcançámos progressos, estado de direito forte, economia aberta, sociedade mais justa e tolerante, entrámos na União Europeia. “Na celebração desta data, basta de resignação. Todos os dias acordo com a missão de dar voz aos jovens que podemos ter um país onde a meritocracia reina (…). Podemos construir um Portugal onde a justiça se impõe à injustiça, onde o futuro se molda pelos sonhos e não pelas limitações”

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