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Professor, político,"homem de palavra”:quase 100 anos de Fernando Conceição

Pedro C. Esteves
Sociedade \ segunda-feira, novembro 28, 2022
© Direitos reservados
Na cidade desde 1960, o antigo deputado de 99 anos lembra tempos em que Guimarães era “uma aldeia grande”, a transição para a democracia, a educação, o património, com a Muralha, e o "associativismo".

Na manhã de 04 de dezembro de 1970, o reitor do Liceu de Guimarães e deputado na Assembleia Nacional, Fernando Dias de Carvalho Conceição, estava em Balazar. Ali, na freguesia limite a noroeste do concelho, a poucos metros de Braga, espera, com uma comitiva de gente ligada ao ensino, a chegada do Ministro da Educação Nacional, José Veiga Simão, que fazia um périplo pelo norte em visita a estabelecimentos de ensino. Mais tarde, no salão-ginásio do Liceu, com o ministro a poucos metros, discursa para vincar problemas concretos do sistema de ensino vimaranense: a falta de médicos escolares, a necessidade de valorizar a profissão de professor, a pouca oferta de transportes. O episódio é descrito no livro Nascimento da Unidade Vimaranense, de Esser Jorge Silva. A exposição crua da realidade “teve um impacto fundamental”, recorda o quase centenário professor.

Nasce em Braga, licencia-se em Lisboa e, antes de Guimarães, tem a primeira experiência da carreira de docente em Bragança. Fernando Conceição foi muita coisa: deputado, professor, reitor – sem esquecer o papel no associativismo vimaranense. Aquando da intervenção naquele dia de dezembro, era deputado na Assembleia Nacional e reitor do Liceu. Agora, com 99 anos, lembra uma carreira em que a capacidade de oratória foi trunfo. Se na forma se destacava pela desenvoltura, no conteúdo, a educação e o património dominavam os temas das intervenções. “Ganhei fama de ser um homem de palavra e comecei a ser convidado por várias instituições para dar palestras”, afirma.

Fernando Conceição fala com o Jornal de Guimarães na sua casa, perto da escola que conhece há décadas, na companhia da mulher, Manuela de Alcântara Santos, que foi também professora e diretora do Museu de Alberto Sampaio entre 1993 e 1999. Começam ambos a dar aulas em território vimaranense em 1960 e viram uma “aldeia grande”, em que uma “senhora não ia a um café sozinha”, transformar-se em cidade.

 

Os esquecidos, mas indispensáveis

A carreira política começa “algum tempo depois”. “Foi sendo convidado para falar”, lembra Manuela de Alcântara Santos. “Fiz conferências e fiquei sinalizado como pessoa capaz de dizer umas coisas”, afirma Fernando Conceição. Foi vereador na Câmara Municipal de Guimarães em 1968 e, um ano depois, deputado à Assembleia Nacional pelo círculo de Braga. Na altura da primeira intervenção, escolhe um tema que “causa impacto”: os “esquecidos, mas indispensáveis” reformados.

Mas era quando trazia assuntos relacionados com a educação que a sua voz era mais amplificada. Manuela Alcântara ressalva que os discursos do marido “iam parar à mesa do ministro” e Veiga Simão sublinhava “algumas coisas”. “Uma das intervenções mais importantes que fez foi a propósito das secções femininas dos liceus. Aqui em Guimarães, era um liceu com alunos e alunas, mas as professoras não se podiam efetivar cá, só os homens. Depois foi criada uma secção feminina”, acrescenta.

 

“Senhor reitor, demita-se”

O percurso é linear até abril de 74. Segue-se um período de contestação. “Houve um processo de saneamento ao meu marido”, diz Manuela de Alcântara Santos. A professora aposentada lembra um período em que “pessoas entravam pelo Liceu adentro como se o reitor não existisse” para as Reuniões Gerais de Alunos (RGA), Na rua, “passavam para o passeio do lado” quando vislumbravam Fernando Conceição. Os jornais apontavam o dedo a figuras ligadas ao regime.

“Houve iniciativas para eu sair do Liceu”, atalha Fernando Conceição, “e a contestação pública chegou aos jornais, onde se escrevia: ‘senhor reitor, demita-se’”. “Eu disse que não me demitia. Quem quisesse que me pusesse fora”, frisa. Apesar de tudo, o verão passou-se com “serenidade”, pautado por uma “certa efervescência”. Tudo acaba pacificamente.

Segue-se um período de afastamento dos palcos políticos – com a democracia, figuras com ligação ao antigo regime são “colocadas em estante”. Mas mais tarde há sondagens de vários partidos e acaba por ingressar no PSD. Surge o convite, Fernando Conceição aceita e acaba por ser eleito para a Assembleia da República nos governos de Cavaco Silva. Deixa legado ao participar na elaboração da Lei de Bases da Educação, documento estrutural para o desenvolvimento do ensino. Fez papel de conciliador, recorda. Numa comissão pequena, com presença de todos os partidos, a discussão “era acesa”. “Deu muito trabalho fazer e conciliar posições partidárias. Dei-me bem com uns, não me dei com outros”, reitera.

 

Sempre o património

Há um Fernando Conceição da política de parlamento, mas houve um sempre preocupado em “arrastar para Guimarães” o espírito de associativismo. Faz parte do grupo de fundadores da Muralha, associação de defesa do património vimaranense. Empreende visitas de estudo e recorda a árdua tarefa de “recuperação de clichês fotográficos”. “Fiz o levantamento de um espólio fotográfico que estava encaixotado. A importância dele obrigava a que mudasse de sítio para que fosse aproveitada a sua reprodução”, recorda, a propósito da inventariação que obrigou à transferência do espólio do sótão da Câmara Municipal para o Arquivo Municipal Alfredo Pimenta. “Sempre achou que o património era muito importante”, complementa Maria de Alcântara Santos, e este primeiro levantamento dos clichês foi um trabalho “moroso”.

O interesse pela educação de adultos leva-o ainda a estar na criação da UNAGUI – Universidade do Autodidacta e da Terceira Idade de Guimarães, da qual foi professor e primeiro presidente. Esteve ainda na Sociedade Martins Sarmento como presidente da mesa da assembleia geral. E a pegada associativa estende-se a instituições como o Vitória Sport Clube ou a Casa dos Pobres.

E ficou alguma coisa por fazer desde 1923? Fernando Conceição dá resposta rápida: “Fiz sempre aquilo que sentia que era necessário fazer; e o resto vinha por acréscimo”.

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