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Câmara vê Alto como primeiro passo para acolher “economia do espaço”

Tiago Mendes Dias
Economia \ terça-feira, março 31, 2026
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Contrato de comodato de 25 anos, renovável, com o CEiiA abre porta à instalação de centro de testes e de produção de satélites óticos em Pevidém. Objetivo é criar setor espacial em Guimarães.

Aprovado o contrato de comodato com o Centro de Engenharia e Desenvolvimento de Produto (CEiiA) para a instalação de um centro de testes e de uma unidade de produção de satélites óticos no imóvel da antiga Fábrica do Alto, em Pevidém, o presidente da Câmara Municipal de Guimarães crê que está dado um primeiro passo para a criação de uma futura zona de acolhimento empresarial no setor espacial.

"Para mim, é uma prioridade atrair para Guimarães investimento nesta dimensão aeroespacial. Este é o primeiro investimento claro em termos de indústria de produção de satélites. É uma indústria de ponta, com grande potencial no presente e no futuro, daí destacar a disponibilização da Fábrica do Alto para este investimento de requalificação da fábrica”, vincou Ricardo Araújo, após a reunião de Câmara desta segunda-feira, na qual a proposta mereceu aprovação unânime da vereação.

Depois de aberto o curso de engenharia aeroespacial na Universidade do Minho (UMinho) e da requalificação – ainda em curso – da antiga Fábrica do Arquinho para a instalação dos laboratórios associados à investigação aeroespacial, faltava incluir o “terceiro vértice” do triângulo – aproveitar o “potencial da economia do espaço” – até na sequência da criação do Guimarães Space Hub, que envolve precisamente autarquia, UMinho e CEiiA, organização sediada em Matosinhos.

“Foi um grande trabalho criar as condições e aproveitar esta oportunidade. Com uma série de parceiros, estivemos a tentar encontrar soluções. Estamos a falar de investimentos muito relevantes na tecnologia mais avançada que existe. Espero que se venha a concretizar nos próximos meses", disse, a propósito da instalação do centro de satélites óticos, sem querer adiantar mais pormenores.

O autarca realçou ainda que Guimarães deve preservar os setores industriais tradicionais – têxtil, calçado e metalomecânica -, mas também diversificar a sua economia a partir dos “seus centros de conhecimento em tecnologias de ponta”, posicionando-se, desde já, na economia do espaço a nível da União Europeia.

O contrato de comodato com o CEiiA é válido por 25 anos, sendo automaticamente renovado por períodos de um ano. O organismo dedicado à investigação tem a responsabilidade de requalificar o edifício e de adquirir os futuros equipamentos, cabendo ao município a manutenção dos espaços verdes envolventes e a remoção da cobertura de fibrocimento do edifício industrial.

Em representação do PS, o vereador Ricardo Costa disse concordar com a proposta “na substância”, perspetivando um futuro onde se vai “assistir à democratização do espaço”, ao qual as pessoas terão acesso, assim como têm hoje vários países, com recurso ao avião.

Convencido de que é preciso “reposicionar o tecido industrial de Guimarães para proporcionar mais e melhores salários, mais e melhor emprego”, o vereador socialista sugeriu a criação de um ecossistema empresarial ligado ao espaço e à defesa em São Jorge de Selho, território com tradição e vocação industrial, e pediu a inclusão desse tecido industrial no European Defence Fund, plataforma que apoia o desenvolvimento de projetos colaborativos de defesa entre estados-membros da União Europeia, com um orçamento de 7,3 mil milhões de euros para o período entre 2021 e 2027.

“A defesa não é só aviões e drones. A defesa também é têxtil e calçado. É todo um conjunto de atividades económicas. Temos de ter um ecossistema dinâmico. Para isso, temos de preparar o nosso tecido empresarial do projeto Guimarães Marca para fazer parte do European Defence Funding (EDF). Só as empresas que estiverem certificadas pelas entidades competentes podem ser fornecedoras nesta nova economia”, sugeriu.

 

Projeto anterior “não estava em fase de maturidade” para avançar

Ricardo Costa pediu, no entanto, ao presidente da Câmara Municipal para não abandonar o projeto anteriormente previsto para a Fábrica do Alto. O contrato de comodato com o CEiiA é um volte-face no processo de requalificação daquela unidade industrial criada em 1928.

A proposta votada nesta segunda-feira exigiu, aliás, a revogação do contrato de comodato assinado em 9 de outubro de 2025, entre autarquia e as entidades participadas da UMinho - Associação Laboratório Colaborativo em Transformação Digital (DTx), Centro de Computação Gráfica (CCG), Polo de Inovação em Engenharia de Polímeros (PIEP) e Centro para a Valorização de Resíduos (CVR) -, com vista à instalação da designada Plataforma Digital do Futuro.

A instalação de uma academia da indústria, como foi anunciado em 2019, ou de uma academia de transformação digital, termo regularmente utilizado desde 2020, teimava em não sair do papel. A Câmara Municipal adquiriu, logo em 2020, dois dos prédios correspondentes ao complexo de edifícios da antiga fábrica têxtil João Ribeiro da Cunha (Fábrica do Alto), correspondentes à antiga tecelagem e à antiga tinturaria, numa área de 1.056 metros quadrados, por 820 mil euros. A área total do complexo é de 5.768 metros quadrados.

A Câmara avançou com o projeto, apresentado na reunião descentralizada de 14 de outubro de 2024, decorrida precisamente em Pevidém. Na ocasião, o arquiteto Miguel Melo vincou que não tinha sido “fácil conjugar as vontades e as necessidades das estruturas a instalar” naquele local.

Quase ano e meio depois, Ricardo Araújo vinca que ainda não seria possível avançar com o projeto anteriormente previsto para Pevidém. “Não estava numa fase de maturidade que estivesse em condições de avançar de imediato. Falava-se há seis anos e nada aconteceu. Fez-se o projeto de arquitetura”, lembrou.

O presidente da Câmara realça também que o facto de a requalificação estar orçada em 10 milhões de euros, com apenas um milhão de euros de comparticipação de fundos comunitários, também atrasou a implantação do projeto. “A Câmara de Guimarães não vai investir mais dinheiro e encontrou parceiros que vão reabilitar o espaço, ainda por cima num setor de grande futuro", disse, numa referência à opção pelo centro de satélites óticos.

O autarca vinca, porém, que “não vai desistir” do projeto anteriormente previsto para a Fábrica do Alto. "Os parceiros são centros de investigação e laboratórios colaborativos. Estamos a trabalhar na densificação do conteúdo para esse projeto. Na altura certa, encontraremos a solução de localização no espaço físico para instalar esse outro projeto”, prometeu.

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