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De Arosa, uma poetisa. Eis a história de "luta" de Amélia Fernandes

Pedro C. Esteves
Cultura \ domingo, dezembro 26, 2021
© Direitos reservados
A Poetisa de Arosa está a preparar o 20.º livro. A obra poética estende-se por mais de três décadas. Está lá plasmada a “entrega fácil de quem ama tudo e todos”.

Havia uma pergunta que Maria Amélia Fernandes fazia muitas vezes. Rodeada de gente que lhe batia palmas e a elogiava, em homenagens ou apresentações de um novo livro, uma suspeita crepitava, assolava: “Será que mereço tanto este aconchego, estas palavras, este carinho?”. Diziam-lhe: “Ninguém dá se não receber e a Amélia dá muito”. Eram vozes como a de Luís Caldas ou Barroso da Fonte que a impeliam a “ter confiança” no que escrevia. Confiou. Agora, mais de 35 anos depois da primeira obra, a poetisa está prestes a lançar o 20.º livro.

Esta é uma história gizada com muita luta e abnegação: palavras-chave no percurso de Maria Amélia, “batizada” pela imprensa como a “Poetisa de Arosa”. Começou em 1985, quando jornalistas acorrem à pequena freguesia de Arosa no extremo nordeste do concelho, uma espécie de enclave vimaranense que intervala os concelhos da Póvoa de Lanhoso e Fafe. Chovem pedidos de entrevistas. “Quando lancei o Onda das Palavras, as pessoas começaram a ficar mais curiosas. Talvez fosse curiosidade para saber o que é que a fulana lá da aldeia que fica muito distante escrevia”, recorda.

 

“Quando era muito nova percebi que se os meus pais fossem de uma família de poder, tinha ido muito mais longe. Chorei com os meus pais quando não pude continuar na escola. Eu amava os livros”, Maria Amélia Fernandes, poetisa

 

Amélia Fernandes tinha 29 anos, a 4.ª classe, trabalhava como operária têxtil na fábrica de fiação da Abelheira – onde se manteve até à reforma – e rapidamente os 1.000 exemplares impressos na Tipografia do Carvalhido, no Porto, esgotaram – “as pessoas começaram a divulgar a minha obra, pegavam nos livros e vendiam, levavam para amigos”, pontua.

Com marido, filho, grávida, labuta diária na fábrica, “casa para cuidar e a tirar a carta de condução” começa a segunda obra poética. “Pego nestes livros antigos e penso sempre como é consegui escrever isto tudo”, diz a escritora com 65 anos. Lembra os problemas de saúde, a incompreensão por parte das colegas de trabalho que não entendiam como (e por que razão) é que uma operária escrevia livros; não entendiam o poder de “libertação" que é "o sonho, a idealização”; não entendiam a “entrega fácil de quem ama tudo e todos”; não entendiam o “amor pelos livros” e a necessidade de cultivo contínuo da poetisa que também se aventurou várias vezes pela literatura infantil.

 

“Chegava às aulas ainda cheia de cotão”

Passaram mais de 35 anos desde aqueles primeiros 1000 exemplares conseguidos a partir de conhecimentos travados com professores através de familiares. Os livros chegaram ainda sem estudos para além da 4.ª classe e a conquista do Prémio Martins Sarmento. O percurso escolar começou tarde e culminou com a licenciatura. Um momento “de felicidade imensa”: “Quando era muito nova percebi que se os meus pais fossem de uma família de poder, tinha ido muito mais longe, chorei com os meus pais quando não pude continuar na escola. Eu amava os livros”.

Retomou a escola na década de 90. Depois dos exames autopropostos – passados com distinção –, o Ensino Recorrente Noturno. Três dias por semana, à noite, conjugava trabalho e família para não faltar – não raras vezes ia direta da fábrica e “chegava às aulas cheia de cotão”. “Para uma pessoa com a sua idade, assoberbada, com as canseiras diárias inerentes do trabalho e o cuidado a prestar à família é digno de registo a motivação e paixão”, lê-se numa dedicatória escrita por uma das “muitas pessoas cultas” com quem teve “a sorte” de se cruzar.

Foram muitas horas roubadas ao ócio e ao lazer. Depois de estar reformada, completou o ensino secundário e foi incentivada a ingressar na universidade. Licenciou-se em Estudos Artísticos e Culturais na Católica de Braga. Tinha acabado de entrar para a faculdade quando recebe a notícia: no 24 de junho de 2005 iria ser agraciada com a Medalha de Mérito Cultural, em prata.

Mas não só em Guimarães se reconhece o mérito da “poetisa de Arosa”. Também o fazem concelhos limítrofes, como Póvoa de Lanhoso – onde vive agora, na freguesia de Taíde, a poucos quilómetros do concelho de Guimarães – ou Fafe. “Acham que eu mereço”, refere, a propósito das homenagens e daqueles momentos em que muitos se juntam para bater palmas ao seu trabalho. “Só tenho pena de não ter saúde para continuar a evoluir, a estudar. Eu faria uma nova licenciatura só para continuar a aprender”.

 

Sempre o amor

Naquele dia em que foi ao Porto buscar os 1.000 exemplares de Onda das Palavras, pairava a dúvida, a que a acompanhou sempre nos primeiros anos. “Eu perguntava para quê, para que é que me incentivaram a publicar o que tinha guardado”. Quando viu a materialização do que só guardava para si não hesitou e perguntou, em confidência, a quem a recebeu na tipografia: “Acha que isto tem algum valor?”; na resposta a confirmação do que ouviria a ser repetido anos mais tarde: “Menina, confie em si, já publiquei obra de autores com nome feito que não têm metade deste valor”.

Nos escritos que resgatou no Porto, nos cadernos que guarda ainda com poemas por publicar, na obra extensa que acumula, há uma constante: o amor. “Está em tudo: na vida, nas pessoas, e acho que tenho uma facilidade enorme em cativar as pessoas. Sou uma sonhadora, uma romântica. Gosto de ser assim”. O poema foi sempre uma lente pela qual a vimaranense olha o mundo. Ensinou uma operária a desenlaçar o entorno – o de uma terra pequena, que toldou horizontes. Ensinou a cair e a levantar. 

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