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No gesto de uma criança cabem todos os horizontes e obstáculos do mundo

Tiago Mendes Dias
Diversidade & Inclusão \ terça-feira, junho 27, 2023
© Direitos reservados
Espaço público precário ou ansiedade por desempenho são problemas num tempo em que também surgem oportunidades para aflorar o espírito crítico, a criatividade, o brincar, a saúde e o bem-estar.

Bishow Rai olha em volta e aponta, de imediato, o que mudava. “Gostava de um parque infantil. Queria que, no parque, houvesse uma zona para se fazer obstáculos”, revela ao Jornal de Guimarães a criança de 10 anos, sem esquecer um outro desejo. “Gostava também de fazer parkour. Deve ser um bocado complicado. Não sei se todos iam gostar. Eu gosto”.

O parque infantil em causa é o do Bairro Social da Emboladoura, lar de Bishow e das restantes crianças e adolescentes com que brinca debaixo de um sol de fim de tarde: Inês Máximo e Filipa Oliveira, em plena adolescência, contemplam as escondidas e as correrias de Lara Gomes, Beatriz Rai, Luna Aguiar, José Afonso Fernandes, Mariana Vaz, Lucas Couto e Bela Safira Rodrigues. Da mesma idade de Bishow, Bela fala igualmente do parque: “Está muito sujo. Devia mudar. Gostava que estivesse limpo, que tivesse mais baloiços para brincar”.

Neste momento, a infraestrutura em ferro que os suporta até está vazia, com ar gasto. Ao lado, o colorido escorrega infantil na superfície de areia remete-se ao silêncio. E o mesmo cenário aplica-se ao campo de jogos logo acima, sem balizas. Atenta às correrias dos mais novos, Filipa Oliveira acumula memórias suficientes para vincar que esses recantos já foram melhores. “Era um bom sítio para toda a gente estar lá a conviver. Lembro-me que, no meu tempo, estávamos todos cá fora à noite, a brincar, a jogar ao esconde, a jogar à bola. Agora não vejo isso nas crianças. Isso faz muita falta no bairro”, frisa a moradora de 17 anos.

Mas Filipa também vê mudanças para melhor naquele bairro de Gondar, propriedade do Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana (IHRU), cuja requalificação está em curso desde outubro de 2022 – já se veem novas fachadas aqui e ali. Um desses exemplos é o Palácio da Imaginação. Orçado em 52.500 euros, no âmbito do programa Bairros Saudáveis – o Governo lançou-o com vista à “melhoria das condições de saúde, bem-estar e qualidade de vida em territórios vulneráveis” -, o projeto da cooperativa Fraterna começou a ganhar forma em 2021, a partir dos questionários entregues pelos moradores mais novos do bairro; Filipa, Bela e Bishow entre eles. “Pusemo-los em várias caixas de correio para os adultos responderem”, detalha Filipa.

Mais de um ano depois, já se brinca nas duas infraestruturas que encarnam o projeto: uma peça designada Imaginário, epicentro de atividades, depósito de arrumos ou mera espreguiçadeira da qual se contempla o Ave – depende do que o utilizador quiser - e uma estrutura pré-fabricada com um toldo. “Identificou-se, nos questionários, a necessidade de um espaço coberto da intempérie, da chuva e do sol para a realização de atividades ao ar livre, sejam elas de desporto, mais artísticas ou de convívio”, esclarece Mariana Carvalho, arquiteta ligada ao ProChild CoLab Against Poverty and Social Exclusion (ProChild CoLAB), uma das entidades parceiras do Palácio da Imaginação, inaugurado a 16 de junho.

Epicentro de um projeto que incluiu, por exemplo, a criação de boxes de madeira para estudo ao ar livre, as infraestruturas sobranceiras ao vale, concretizadas por alunos da Escola de Arquitetura, Arte e Design da Universidade do Minho, sob coordenação científica de Cidália Silva, investigadora da unidade Lab2Pt, albergam cozinha com banca, mesas, bancos e dispositivos lúdicos, “uns labirintos e uns túneis que as crianças podem usar". Está, no fundo, preparada para ser o que a “comunidade quiser”, sublinha Rita Magalhães, coordenadora da Fraterna para o projeto Porta7. E não esquece o papel das crianças. “Quer aqui, quer nas escolas, quando achamos que temos boas ideias para elas, de repente vem uma criança e traz uma sugestão de que não nos lembramos”, admite. Mariana Carvalho corrobora: "As crianças têm conhecimento para transmitir. É muito valioso”.

 

“Nota-se uma grande dificuldade de coordenação motora e a falta de motricidade fina, que se ganha a pegar num lápis. Escrever nestas idades é necessário, porque que vai mexer com toda a coordenação”, Maria José Pinto, coordenadora da EB1/JI de Nossa Senhora da Conceição

 

Sem o espaço público, resta a “riqueza” do recreio

Sediado no Centro Avançado de Formação Pós-Graduada, em Couros, o ProChild CoLAB é uma associação privada sem fins lucrativos, reconhecida pela Fundação para a Ciência e Tecnologia como Laboratório Colaborativo desde novembro de 2018, que reúne seis eixos de investigação. Mariana Carvalho trabalha a participação social e afirma que as “crianças não estão habituadas a serem ouvidas”. “Até podem falar, mas não têm o retorno que gostariam”, resume. A outra investigadora desse eixo, Gabriela Trevisan, reforça essa convicção. “A participação das crianças nos processos de tomada de decisão em espaço público não é a desejável, sobretudo no respeito pelos direitos de audição”, aponta a socióloga, doutorada em estudos da criança.

A promoção dos direitos das crianças – “o direito ao território, o direito a brincar, o direito a uma vida saudável” – é o cerne desse trabalho. E o eixo de participação social do ProChild escolheu um território específico do concelho de Guimarães para os cultivar: o do Agrupamento de Escolas de Pevidém. A decisão advém, em parte, “de questões socioeconómicas, de ser um território sujeito a crises cíclicas, muito associadas à indústria têxtil, ao desemprego e à emigração”. “Esses fatores podem afetar o bem-estar das crianças”, justifica Gabriela Trevisan.

Através de projetos como o “Cidadania+: Sem muros nem fronteiras”, vocacionado para o espaço público e a mobilidade ou “O Extraordinário do Ordinário”, o ProChild trabalha com as cinco escolas do 1.º Ciclo – São Cristóvão de Selho, São Martinho de Candoso, Barreiro (Pevidém), Gondar e Eirinha (Serzedelo) -, para dar às crianças o estatuto de “elementos centrais” no dia a dia das escolas, frisa a investigadora.

Habituada a pensar o espaço público, Mariana Carvalho aponta o “Escola de Pernas para o Ar” como um desses exemplos: os alunos têm de elaborar “o diagnóstico do recreio, das brincadeiras, do património do brincar” a partir do desenho ou da escrita. Feito esse registo, parte-se para a intervenção. Em 2022, os desenhos das crianças da Eirinha originaram uma instalação bordada nas redes da escola. Em 2023, o projeto desenrola-se no Barreiro. Com os telemóveis proibidos no recreio do 1.º Ciclo, emergem as brincadeiras “intemporais”: o esconde-esconde ou “as caçadinhas”. “Quando vemos uma criança a brincar no recreio, quase não nos apercebemos da riqueza que isto tem a nível de imaginário e relação com as outras. Queremos dar-lhes mais voz e representatividade”, reitera.

 

Maria José Pinto ensina há mais de 40 anos e coordena a EB1 Nossa Senhora da Conceição

Maria José Pinto ensina há mais de 40 anos e coordena a EB1 Nossa Senhora da Conceição

 

A ligação entre pais e filhos em tempos de ansiedade e hiperatividade

O atraso do desenvolvimento psicomotor – as “questões da psicomotricidade fina e grossa” – é fenómeno que merece a atenção dos profissionais do Hospital Senhora da Oliveira – Guimarães (HSOG). Outros são os de crianças e jovens com queixas de humor, ansiedade e alterações comportamentais, atesta Sara Flores, psicóloga clínica e da saúde que trabalha no Serviço de Pedopsiquiatria, responsável por acompanhar uma população desde os bebés aos 18 anos, em articulação com médicos de família e outras especialidades internas ao HSOG.

O mais prevalente é a perturbação de hiperatividade e défice de atenção com alterações do comportamento – afeta cerca de 60% das crianças encaminhada para o serviço, estima a profissional. O HSOG disponibiliza, aliás, uma consulta específica para esse fenómeno, fazendo uma avaliação clínica global, apoiada por informações adicionais dos pais, da escola e do médico de família. “Não é um problema a criança ser agitada e irrequieta. Justifica-se o diagnóstico de perturbação de hiperatividade e deficit de atenção quando têm dificuldades nas interações sociais, dificuldades com os pares, dificuldades de comportamento na escola, comprometimento no seu rendimento escolar e funcionamento global”, esclarece Sara Flores.

Entre os restantes casos que justificam o recurso ao HSOG, a psicóloga menciona a ansiedade no geral, com particular incidência para ansiedade de desempenho e de performance”de desempenho e de performance” – “aquela ansiedade incapacitante que as crianças e os adolescentes sentem em momentos de avaliação” -, as perturbações obsessivo-compulsivas, principalmente após a pandemia de covid-19, e alguns “estados depressivos”.

Problemas como bullying e cyberbullying no contexto escolar podem instigar tais perturbações, admite. E o ambiente familiar é crucial para o desenvolvimento saudável de uma criança. “As nossas crianças são como esponjas. Elas absorvem toda a ansiedade por parte dos seus cuidadores. Elas absorvem e reproduzem alguns comportamentos”, ilustra. A pedopsiquiatria está, por isso, “cada vez mais atenta à saúde mental” do pai, da mãe ou do cuidador, porque, sem ela, não estão na “posse de todas as competências necessárias para oferecerem um ambiente seguro e estimulante”.

Um dos caminhos para uma maior segurança na criança em desenvolvimento é educar pelo exemplo: “Os pais não podem proibir as crianças de estarem no telemóvel e, depois, quando elas chegam à sala, estarem no telemóvel”, sugere. O tempo para se falar de sentimentos e emoções em família ou até para se “brincar” deve ser também estimulado. A psicóloga estabelece, aliás, uma comparação com as atividades desenvolvidas a solo. “Quando chegarem à adolescência, as crianças vão lembrar mais um momento com os pais ou uma brincadeira familiar do que se terem divertido imenso a passar oito níveis num jogo, sozinhas”, indica. E embora os ocasionais “nãos” ajudem a gerir a tolerância à frustração, é também preciso felicitá-las quando superam um desafio. “Se não congratulamos as nossas crianças por ultrapassarem um desafio, por ultrapassarem um medo, como queremos que, depois, não haja ansiedade de desempenho? O desafio vai existir sempre nas nossas vidas”, observa.

 

“Quando chegarem à adolescência, as crianças vão lembrar mais um momento com os pais ou uma brincadeira familiar do que se terem divertido imenso a passar oito níveis num jogo, sozinhas”, Sara Flores, psicóloga do Serviço de Pedopsiquiatria do HSOG

 

Mais de mil rastreios com vista à saúde mental

A saúde das crianças é outro dos focos de investigação do ProChild CoLAB. Doutorada em Saúde Pública, Inês Dias conduz o projeto CoAction Against Covid-19, que já leva três edições. Em articulação com a Câmara Municipal de Guimarães, com o Centro de Investigação em Psicologia da Universidade do Minho e com a Associação de Psicologia da Universidade do Minho, o ProChild disponibiliza um formulário para crianças do três aos 10 anos, com vista a um rastreio de saúde mental, a “uma avaliação mais aprofundada” e, se necessário, uma intervenção junto da criança, para “identificar de forma precoce problemas que possam existir para não evoluírem para situações mais graves”. A primeira edição contabilizou 1.094 rastreios e 81 intervenções, o número mais elevado até agora. A terceira, iniciada em março de 2023, totaliza até agora 150 rastreios. “É um projeto pioneiro. Não temos projeto tão estruturado no país para a saúde mental das crianças”, afirma.

A investigadora alia o trabalho na saúde mental a um outro projeto, de combate à insegurança alimentar, termo que deriva da eventual incapacidade das famílias para acederem aos “alimentos mais saudáveis” para as suas crianças. “A questão económica tem um grande impacto no acesso a alimentos mais saudáveis. E a alimentação pode ter um impacto na saúde das crianças, ao nível, por exemplo, da obesidade infantil – segundo os dados mais recentes em Portugal, de 2019, quase 30% das crianças tinham excesso de peso -, ou da imagem corporal, com o impacto que ela tem hoje, com aquela pressão para sermos todos perfeitos”, constata.

O projeto desenrola-se em articulação com a Fraterna nos bairros da Emboladoura e da Atouguia, junto das crianças entre os seis e os 12 anos, com um objetivo em mente: “Envolver a criança e a família adulta para criar um livro eletrónico de receitas”.

 

“É preciso acreditar que têm capacidades”

As parcerias entre instituições estendem-se a outros projetos de intervenção social infantil. A 26 de maio, o Porta7 e o ProChild CoLab organizaram mais uma edição do Habitar o Brincar: houve hora do conto, oficina de skate e oficina da natureza com as parcerias de Área 4800, Cemtelhas, Carlo Giovani e da cooperativa Flor - Mercado Azul. “Gostei de andar de skate e de estar na oficina da natureza. Tínhamos um saco, usávamos um cartão no meio, pegávamos numa flor, metíamo-la dentro de um saco, usávamos um martelo e, depois, tás tás tás”, recorda Bishow Hang Rai.

Quaisquer que sejam as instituições envolvidas, a prioridade é sempre a de envolver as crianças o mais possível, até “para exigirem um mundo melhor para elas e para os outros”, realça Gabriela Trevisan. No entender da investigadora do ProChild CoLAB, isso aconteceu no Palácio da Imaginação, com os mais novos a demonstrarem preocupação com bebés, para pessoas mais velhas, para pessoas com dificuldade de locomoção, num “processo muito intergeracional”. “Esta visão do espaço público em que habitam não é fechada sobre eles próprios. É uma visão muito aberta”.

Defende, por isso, que os adultos em tomada de decisão devem garantir “o tempo necessário para estar com as crianças e ouvi-las”. “Dentro do que dizem, haverá coisas que não são possíveis, mas a maioria é. É preciso acreditar que têm capacidades”, afirma.

A outra investigadora do eixo de participação social realça, contudo, que “a participação só faz sentido se houver retorno”. Por isso, há um “caderno de desejos” para intervir no parque infantil e no campo de jogos da Emboladoura. Na antecâmara da idade adulta, Filipa Oliveira gostava de ver melhorado um espaço onde brincou como criança. “As crianças estão mais ligadas aos telemóveis, mas, se as condições fossem melhores, as crianças passariam mais tempo cá fora, a conviverem umas com as outras”, assinala. Bishow também quer mais. “Se todos quisessem, poderíamos ter um parque melhor, com segurança. Não gosto que o parque esteja em ruínas. Gostava que ele estivesse mais em ordem, que estivesse como novo”.

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