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Dos 100 anos de Coelima, uma exposição no CAAA para a reimaginar

Tiago Mendes Dias
Cultura \ sexta-feira, maio 06, 2022
© Direitos reservados
Mostra a inaugurar no sábado busca hipóteses de futuro após a exploração dos arquivos da centenária têxtil de Pevidém e os testemunhos orais dos trabalhadores com que Fernando P. Ferreira contactou.

Desde que Albano Martins Coelho Lima começou a sua empresa “quase como um espaço produtivo doméstico”, há 100 anos de trabalho, de palavras, de afetos, de crises que cabem nas paredes do Centro para os Assuntos de Arte e Arquitetura. O projeto de doutoramento na Bartlett School of Architecture, em Londres, foi o veículo para, em 2019, Fernando P. Ferreira iniciar uma viagem prestes a materializar-se numa exposição que se entrelaça na história da Coelima, “vasta, riquíssima, com múltiplas camadas”, evitando, contudo, a tentação “nostálgica”, bem viva em antigos trabalhadores que contactou.

“A exposição pretende alertar para estas histórias como potencialidades”, sugere o arquiteto ao Jornal de Guimarães. “O que podemos aqui ver é todo este trabalho de arquivo, levantado e aqui presente. Por outro lado, é uma série de histórias orais levantadas, opiniões de diversos agentes – trabalhadores, um político local, o próprio sindicato têxtil”, completa, a propósito de Fábrica de Histórias: Encontrar, texere e confabular 100 anos da Coelima, mostra com inauguração agendada para as 17h00 de sábado, que ficará patente até 18 de junho.

O trabalho de Fernando P. Ferreira emerge como tentativa de “um início de um diálogo”, de “baixo para cima e não de cima para baixo”, para “reimaginar” uma fábrica sem “plano original”, que teve um “crescimento progressivo” até se tornar numa unidade “vertical” – integração de todas as etapas da cadeia produtiva – e que deixou um “legado social” não só à “comunidade têxtil da Coelima”, como à “comunidade de Pevidém”, graças a elementos como a “cooperativa de consumo”, o centro de formação, o pavilhão gimnodesportivo ou os “bairros sociais”.

Num percurso que tem 1991 como o ano da “grande crise”, o ano em que a família Coelho Lima perde “todo o legado patrimonial”, há um antes, que corresponde à “história mais consolidada”, digna de um “estudo imersivo” por um mês no centro de documentação da Coelima; baseia-se narrado pelas 299 edições do boletim mensal da empresa – O Miral entre 1963 e 1972, tornando-se depois o Boletim Coelima, que viria a ser trimestral “nos anos tardios”, até ao encerramento em 1989.

O depois corresponde aos “últimos 30 anos”, marcados pelas mudanças administrativas e pela falta de “documentação escrita”, que obriga a uma construção oral da história, com entrevistas a membros da comunidade. Nesses “exercícios”, o mestre pela Escola de Arquitetura da Universidade do Minho apercebeu-se que a relação entre a comunidade e esse “cosmos fabril”, de “peso muito preponderante” em Pevidém, está “fraturada”.

“Por toda a minha experiência dos últimos três anos a lidar com a comunidade de Pevidém, isto está fraturado. Então é realmente importante fazer primeiro o processo de união para imaginar um futuro diferente”, vinca.

 

Antiga cooperativa de consumo da Coelima, uma das memórias da ação social da empresa

Antiga cooperativa de consumo da Coelima, uma das memórias da ação social da empresa

 

Evitar os “clichés”, se possível

A “escavação histórica”, crê Fernando P. Ferreira, é necessária para se perceber como o “património edificado” tem sido, nos últimos 30 anos, “tratado”, “destratado” e “desmantelado” aos poucos. Para o arquiteto, é a melhor forma de “reimaginar novos usos ou novas formas de ocupação para a fábrica, que fomente um uso público para a comunidade”, ainda que a empresa de têxteis-lar se mantenha em funcionamento; depois de um auge de cerca de 3.500 trabalhadores no início da década de 80, tinha cerca de 250 aquando do processo de insolvência do ano passado, que levou à sua compra pela Mabera, em assembleia de credores, a 25 de junho.

O investigador crê ainda que a exposição pode “despertar o interesse” dos antigos trabalhadores, até pela “imagem nostálgica, de amor à fábrica” que lhe transmitiram, mas também as “gerações mais novas”, que são o “futuro” e podem vir a explorar “novas possibilidades para a fábrica”. Essas possibilidades, realça, devem ter em conta as “especificidades” da comunidade de Pevidém e do Vale do Ave, em geral, sem embarcarem em clichés de recuperações tidas noutros pontos da Europa, como Manchester, o epicentro têxtil da Revolução Industrial.

“A inspiração é importante, até para vermos como resolveram questões mais técnicas, de pormenor, de detalhe, mas temos de responder de forma específica. Em processos de regeneração industrial, por exemplo em Manchester, tende-se a cair quase em clichés programáticos, como o de transformar a fábrica num museu ou num hub cultural”, avisa.

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