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ENTREVISTA | O “caminho sem fim” da sustentabilidade ambiental

Bruno José Ferreira
Ambiente \ sábado, outubro 21, 2023
© Direitos reservados
Dois dos principais rostos da candidatura vimaranense abordam, poucos dias depois de conhecido o resultado que coroou Vilnius como Capital Verde Europeia 2025, todo esse processo.

Adelina Pinto é vice-presidente da Câmara Municipal de Guimarães e presidente do Laboratório da Paisagem. Liderou o segundo processo de candidatura de Guimarães a Capital Verde Europeia. Isabel Loureiro é coordenadora executiva da Estrutura de Missão Guimarães 2030. 

Numa corrida em que Guimarães foi “ultrapassada num milímetro”, já foi assumida nova candidatura para 2026. “Estamos mais fortes e mais capazes”, sendo Guimarães “uma cidade inspiradora” a nível europeu, creem. O território passa a integrar uma rede de cidade finalistas para partilha de experiências.

 

 

Guimarães candidatou-se pela segunda vez a Capital Verde Europeia, tendo conseguido ser finalista, mas sem o sucesso pretendido no que à distinção diz respeito. O que sobra deste processo de candidatura e qual o sentimento final?

Adelina Pinto (AP) – Penso que fomos muito conscientes à segunda vez. O facto de termos sido finalistas provou também que entre a outra candidatura, de 2017, e esta, de 2023, há um avanço qualitativo, que é óbvio até por todo o trabalho que a cidade faz e toda a maturidade que hoje temos nas questões ambientais. Fizemos uma candidatura excelente, houve um trabalho muito grande que foi feito, muito evidente e muito reforçado a todos os níveis da candidatura. Depois, na fase final, fomos ultrapassados por um milímetro, segundo o júri. Ficámos um milímetro atrás de Vilnius, mas vimos mais fortes e mais capazes de apostar numa nova candidatura.

 

Entre a primeira candidatura e a segunda houve um hiato de cinco anos. Desta vez assume-se uma nova candidatura de imediato. Sentem que Guimarães está preparado e que, na próxima vez, esse milímetro pode ser ao contrário?   

AP – A próxima terá outros fatores. Temos de ter consciência, e sempre dissemos isto, que vamos a jogo com candidaturas que não conhecemos e com cidades que concorrem. Esta é uma realidade. A segunda realidade é que todo o trabalho evidenciado na candidatura é um trabalho efetivamente feito; isto é, não fazemos nada para a candidatura, fazemos todo um trabalho para a sustentabilidade ambiental e para continuar a colocá-la no centro das nossas preocupações. Não há aqui perda de tempo, o que houve foi o trabalho de escrever uma candidatura, obviamente com toda a complexidade que é escrever em 700 carateres um mundo de questões que são feitas. A candidatura de 2017 permitiu monitorizar e ter um conhecimento de dados que não tínhamos. Entre 2017 e 2023, os dados que temos hoje são muito mais longitudinais e muito mais precisos, quer para evidenciar uma candidatura, como o fizemos, quer na ajuda à tomada de decisão política que é, obviamente, estabelecer os pontos fortes, os pontos fracos e o caminho. Entre 2017 e 2023, há um caminho imenso que é feito, quer ao nível das medidas que tomadas localmente, a nível de todo o território para todos estes indicadores estarem melhores e termos um concelho com uma sustentabilidade ambiental muito melhor, quer da capacidade que temos hoje para olhar com maturidade para tudo isto. O trabalho feito hoje tem muita qualidade, fomos finalistas a um milímetro. Já não precisamos de ter este tempo novamente de maturidade da candidatura. Vamos melhorar certamente. É mais um ano. Muitas coisas que aprendemos agora e que vimos ajudam-nos a melhorar.

 

O processo continuará a ser liderado por Adelina Pinto?

AP – Enquanto presidente da Câmara Municipal de Guimarães [Domingos Bragança] assim o entender, poderei liderar. Não acho que seja crucial eu liderar o processo. Temos uma equipa já muito válida e capaz. Importante é que o presidente continue com o seu discurso habitual em que o foco é o ambiente e o bem-estar. É isso que nos deve motivar. A candidatura vai aparecer naturalmente com estes dados.

 

Coloca-se a mesma questão, Isabel Loureiro. Mais na vertente técnica, no terreno, o que sobra desta candidatura? Que sentimento fica?

Isabel Loureiro (IL) – O sentimento com que fico é o sentimento generalizado de toda a equipa. O processo de candidatura durou sensivelmente um ano, desde que foi lançado o formulário de candidatura, de janeiro até outubro, sendo que já estávamos a trabalhar no outro formulário anterior. Este acabou por ser bastante diferente e trouxe muitos desafios num curto espaço de tempo. Lançaram em janeiro o formulário, tivemos de submeter em abril com indicadores novos e variáveis novas. Não há garantias de que este será o formulário do próximo ano. Guimarães só chegou à final porque passou um processo de avaliação técnica na primeira fase cujo resultado saiu em julho e revelou as três cidades finalistas. A equipa está preparada e cada vez mais preparada, dentro deste ecossistema de governança, para responder a qualquer desafio.

 

O que foi possível aprender com as outras candidaturas finalistas, Graz e Vilnius, a cidade que será Capital Verde Europeia em 2025?

IL – Não tivemos acesso às candidaturas. O relatório final, que é diferente este ano, sairá nas próximas semanas, julgamos nós. Sabemos que a primeira fase valia 70 pontos e a segunda fase 50 pontos num total de 120. Não conhecemos as candidaturas deles, não tivemos oportunidade de ver as apresentações – foram fechadas. Cada cidade fez a apresentação completamente fechada e, por isso, a única coisa que sabíamos era que Graz iria fazer a primeira apresentação, nós a segunda e Vilnius a terceira, por ordem alfabética. O espírito das três cidades era muito positivo no fim da apresentação das candidaturas. Entretanto na sexta-feira houve a primeira reunião, porque Guimarães sendo finalista passou a integrar uma rede de cidades finalistas e vencedoras, e isso é muito bom, porque a partir de agora podemos partilhar e perceber o que outras cidades estão a fazer. Esse é um dos motivos pelo qual existe esta candidatura, criar esta rede de cidades para que possa haver esta partilha. Pelo estudo que fizemos quando soubemos que os finalistas com Guimarães eram Graz e Vílnius, percebemos que, pelo posicionamento geográfico deles, teríamos mais envolvimento, algo que para eles é uma questão cultural e acaba por ser mais difícil. Têm desafios, dada a tipologias das cidades, que não temos e nós temos outros que eles não têm.

AP – Graz tem 300 mil habitantes, Vilnius tem 600 mil e é capital. Pesou? Não pesou? São pontos de interrogação que colocamos. O facto de em 2024 a Capital Verde Europeia ser Valência, na Península Ibérica, são questões que pesamos neste sistema ecopolítico. Depois, este ano foi muito atípico para nós; para Graz e Vilnius não foi, porque fizeram a primeira candidatura. Não estávamos a contar com a mudança do formulário, mantido ao longo dos anos e alterado completamente num mês. Também não tivemos nenhum acesso. Sabemos que eram três finalistas, há uma avaliação qualitativa das três candidaturas – que nos foi entregue pouco tempo antes – e que é uma avaliação em que percebemos, tal como o júri disse, que as três cidades estavam absolutamente equilibradas. Na avaliação, não havia nenhuma das três cidades a destacar-se. Quando concorremos pela primeira vez, tínhamos uma avaliação indicador a indicador, sabíamos qual era a cidade que estava mais bem posicionada, e isso ajudava a construir a fase seguinte. Fomos todos um pouco às cegas. Esta questão da envolvência foi engraçada. Estivemos em Talin – que é a Capital Verde Europeia este ano, conseguida à quarta candidatura – e, ao andar na rua, ninguém sabia isso, que Talin é a Capital Verde Europeia. São cidades com grandes dificuldades no envolvimento das pessoas e nós tínhamos esse ponto forte.

 

A perceção que têm dos pontos mais fortes e menos fortes da candidatura de Guimarães é a perceção tinham à partida, ainda sem dados que suportem essa realidade…

AP – Não temos dados nenhuns. Temos uma avaliação qualitativa dos indicadores das três cidades finalistas, que é muito técnica à volta do formulário, e depois em relação à cidade vencedora sabemos o que foi público: foi muito difícil, o júri teve muita dificuldade em escolher a cidade vencedora, que as outras cidades ficaram a milímetros, expressando que havia três boas candidaturas.             

 

Esta é uma candidatura que, para lá da componente técnica, envolve questões políticas. Não sendo um dos sete tópicos em avaliação, a mobilidade é algo tido em conta. Esse é um dos aspetos negativos da candidatura de Guimarães?

AP – A mobilidade é um calcanhar d’Aquiles em todo o sul da Europa. Há muito a separar-nos entre o que é o sul e o norte da Europa. Não há o indicador mobilidade, que existia no anterior formulário, mas, de qualquer forma, esteve sempre nos nossos indicadores. Não sabemos como foi distribuída a pontuação da parte técnica – 70 pontos. Mas temos feito um grande caminho na mobilidade e acreditamos que o caminho deve ser valorizado. Não acho que fosse particularmente isso, mas não sabemos. Não há um indicador de mobilidade a ser avaliado, apesar de estar patente na energia, na qualidade do ar, no ruído. Se há área em que efetivamente melhorámos de 2017 para 2023 foi na mobilidade.

 

A utilização dos solos é um dos tópicos em avaliação. Neste momento está a ser feito uma revisão do PDM (Plano Diretor Municipal). Isso pode ser uma mais-valia para Guimarães? Pode ter impacto na próxima candidatura?

IL – O facto de termos nesta candidatura multidisciplinar, que eu gostava novamente de enaltecer – a equipa mais técnica da primeira fase e depois numa segunda a delegação toda de Guimarães que foi defender a candidatura – pessoas ligadas ao urbanismo e ao planeamento trouxe esse aspeto para cima da mesa nas nossas discussões de trabalho. Isso foi integrado na própria candidatura. O uso sustentável do solo tem três indicadores dentro do mesmo indicador, que é o uso sustentável do solo, a natureza e a biodiversidade. Tem de se fazer a relação das três componentes relacionadas com o solo. Uma das grandes vantagens da candidatura é o facto deste trabalho multidisciplinar resultar precisamente na interação destes indicadores, o que é extremamente positivo, porque as pessoas que trabalham com o planeamento já têm uma perceção diferente do que é a natureza e a biodiversidade. As pessoas que trabalham com os resíduos sabem muito mais sobre economia circular. Por isso, esta equipa sai reforçada, porque este trabalho trouxe um caráter multidisciplinar e hoje olhamos para as coisas de uma forma muito mais holística, o que é fabuloso.

AP – Reforço que em 2017 usámos académicos em várias áreas, como pilotos da escrita, e neste momento usámos pessoal interno. Tivemos este cuidado com esta equipa multidisciplinar e com a capacitação dos nossos técnicos. Estão muito melhores hoje para continuar o trabalho, não só de uma próxima candidatura, mas essencialmente de olhar para o território e ajudar a tomar as decisões certas.

 

A questão da água é também importante, neste caso com foco no desperdício de água que ainda se verifica no nosso território. Esta equipa pode ser reforçada com a Vimágua?

AP – A Vimágua está sempre presente.

IL – Fez parte da equipa da primeira fase, tivemos um elemento da Vimágua nessa componente, mas depois como o formulário também tinha uma parte muito importante relacionada com as Águas no Norte, houve reuniões no sentido de os envolver e de facultarem os dados necessários. Portanto, a gestão da água deixa de ter uma dimensão, passando a ter várias dimensões, incluindo a gestão da água para consumo, a gestão de águas residuais, a parte dos recursos hídricos e o próprio envolvimento da população. Penso que nesta candidatura se conseguiram demonstrar todas estas dimensões. Obviamente que todas as empresas municipais facultaram informação que depois foi tratada por nós.

AP – Informação que lá foi colocada. Efetivamente as perdas de água estão lá.

IL – Obviamente que Vilnius e Graz terão outro tipo de gestão da água, tal como têm de gestão de resíduos, e portanto, é necessária essa explicação numa fase inicial.       

AP – Sentimos dificuldades, na parte técnica, a explicar que a Vimágua é uma empresa municipal, mas as águas do Norte não. A Europa não percebe muito bem estes conceitos. O que vamos mostrando, por exemplo nas questões do lixo, é que tudo que é competência do município estamos em valores muito acima do que é esperado a nível europeu, mas depois no que não depende de nós estamos abaixo. Mas, de qualquer forma, conta para nós, porque faz parte do nosso território. Há dados fracos da Resinorte, mas não é o município que consegue ter intervenção sobre eles. É complicado explicar isso.

 

Ainda a quente, poucos dias depois da decisão final, já se conseguiu mudar o chip e apontar a uma nova candidatura?

AP – O presidente da Câmara fez logo questão de anunciar a nova candidatura, porque efetivamente ficamos com a sensação de morrer na praia, quase de injustiça dada a qualidade da candidatura. Ainda não tivemos tempo para respirar. Parece que estive fora um mês tal foi a intensidade dessa semana, mas é para lançar a candidatura e vamos ver. Talin é capital e tentou quatro vezes. Gent é uma cidade maravilhosa, já tentou três vezes e desistiu. Temos de estar sujeitos a isso, mas estamos conscientes de que temos um caminho trilhado desde 2013. Hoje qualquer cidade já tem a sustentabilidade na ordem do dia, mas Guimarães tem esse caminho trilhado há dez anos e continuará a querer este título, porque achamos que merecemos.

O facto de ser amplamente apoiada uma nova candidatura, por parte também da oposição, a própria forma como as pessoas reagiram, reforça esta convicção?

AP – Acho que as pessoas estavam todas muito confiantes, porque, naquilo que fomos mostrando, toda a gente percebeu a solidez da candidatura. Evidenciava Guimarães, uma cidade com 156 mil habitantes, portuguesa, cá em baixo no fundo da Europa, e o trabalho que é preciso fazer. Mostrámos que Guimarães é uma cidade inspiradora. As pessoas não imaginam o que é estarmos nas redes europeias com as maiores cidades, como Munique, e como eles ficam encantados com o trabalho feito em Guimarães. Tudo isto nos reforça. E também nos agrada que a oposição acredite que este é um trabalho sério, que o fazemos com rigor, levando mais longe o nome de Guimarães, tentando aprender sempre num processo dinâmico. Estão reunidas condições para, agora repousar, daqui a uns dias fazer um ponto da situação e começar a delinear um novo caminho.

 

Tendo estado mais no terreno, na parte técnica, que mensagem deixa aos vimaranenses?

IL – Só posso deixar uma mensagem de agradecimento pelo envolvimento de todos ao longo do processo. Deixo uma palavra de agradecimento à equipa que fez a candidatura, foram extraordinários, com uma dedicação extraordinária, assim como as várias instituições que participaram. Gostaria de destacar também o Laboratório da Paisagem. A sua participação foi crucial, assim como de toda a equipa da Câmara Municipal de Guimarães. Para mim foi um orgulho estar nesta coordenação. A mensagem que gostaria de deixar para Guimarães é que hoje, de facto, tem uma equipa muito mais preparada para os desafios do presente e do futuro.

AP – Acrescento o envolvimento das pessoas, que sentimos muito. O facto de sermos finalistas teve impacto. As pessoas manifestaram-se; havia um orgulho enorme nas pessoas. Recebemos muitas mensagens de variadas pessoas, de vários quadrantes políticos, técnicos, de todo o lado, cidades europeias que nos conhecem das várias redes, a dizer que merecíamos. Conseguimos passar a ideia de que Guimarães é uma cidade que se compromete, que vive as coisas com intensidade e que, apesar de não ser o paraíso, faz um trabalho que não é equiparável a cidades médias, como nós. Foi positivo ter Guimarães como cidade finalista. Esta candidatura foi de uma grande complexidade, com uma equipa grande. Fizemos uma apresentação com 10 pessoas em campo. Exigiu uma grande coordenação.

Temos a consciência de que não podíamos ter feito mais. Estivemos lá perto; um dia se calhar alguém nos saberá explicar o que nos tirou daquele milímetro. O caminho está feito, agora é continuar a fazer esse caminho da sustentabilidade ambiental. É um caminho que nunca vai estar terminado, é um caminho sem fim, mas é o caminho e continuará a ser feito.

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