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Três anos de diálogo intergeracional vão-se “Fazer presente” na cidade

Tiago Mendes Dias
Cultura \ terça-feira, novembro 21, 2023
© Direitos reservados
Trabalho nas CSIF Sul Nascente e Montanha da Penha, reunindo cidadãos mais velhos e alunos de teatro da UMinho, traduz-se em espetáculo, exposição e seminário no Vila Flor e na Garagem Avenida.

O epílogo de três anos a cruzar gerações no “Fazer Presente”, plataforma de partilha de experiências e de afetos através das artes performativas, dar-se-á entre 28 de novembro e 02 de dezembro. Nesse período, o espetáculo “Mesa Cheia” sobe ao palco do Centro Cultural Vila Flor (CCVF) às 15h00 e às 21h30 de 28 de novembro, depois de apresentado no Centro Escutista da Penha, em julho, a exposição “(Re)Fazendo” estará patente na Garagem Avenida entre 28 de novembro e 02 de dezembro, e o seminário “Configurações II”, em jeito de exercício de reflexão, realiza-se em 29 de novembro, também no CCVF.

Numa retrospetiva ao projeto lançado pela Associação para o Desenvolvimento das Comunidades Locais (ADCL) em 2021, a encenadora e dramaturga Manuela Ferreira diz que os sucessivos cruzamentos entre as pessoas mais velhas das Comissões Sociais Inter-Freguesias Sul-Nascente (sudoeste de Guimarães) e Montanha da Penha (sudeste) com cerca de 75 alunos da licenciatura em Teatro da Universidade do Minho (UMinho) foram surpreendentes e comoventes por “contrariarem o que é expectável ou os imaginários do que é uma geração e o que é outra”.

“Fico surpreendida como é que pessoas com mais idade se têm disponibilizado de forma generosa, não censurada, porque usam o corpo de forma bem mais livre, menos codificada. Muitas vezes, os mais jovens têm mais dificuldades na relação com o corpo, na relação com o outro, na relação com os seus sentimentos e as suas emoções”, realça, em declarações ao Jornal de Guimarães. Ter uma vida mais longa pode “retirar muitos filtros” que, às vezes, impedem as pessoas “de viver de forma mais plena, com mais prazer e alegria”, acrescenta.

O projeto reúne de forma permanente dois grupos seniores que perfazem 30 pessoas em ambas as CSIF – envolvem a freguesia de Pinheiro, a União de Freguesias (UF) de Abação e Gémeos, a UF de Serzedo e Calvos e a UF de São Faustino e Tabuadelo, bem como Guardizela, Moreira de Cónegos, Lordelo, Serzedelo e UF de Conde e Gandarela. Mas o “Mesa Cheia” reúne 40 atores, mais os jovens da licenciatura em Teatro, para uma performance que transmite o “prazer de um grande grupo estar junto”, “num quotidiano comum”, “numa convivência comum”, espelho do próprio curso do “Fazer Presente”. “Foram três anos que passaram a voar. Reúne este prazer de sabermos que, todas as semanas, teremos um momento de encontro onde vamos partilhar emoções, histórias, quotidianos”, prossegue Manuela Ferreira.

Ao descrever um percurso de três anos, o presidente da ADCL recorda a “luta difícil” para a aprovação de uma candidatura que “nasceu num período difícil”, o da pandemia de covid-19, em resposta às necessidades do público sénior, quer a nível cultural e social. “Queríamos que as pessoas se animassem, fossem buscar memórias do seu passado. Vi muito daquilo que os meus avós passaram em tempos idos. Foi um desafio ver a alegria com que partilhavam muitas experiências do passado. Muitas dessas experiências devem ter sido difíceis de partilhar, porque não tínhamos a liberdade de expressão de hoje”, realça Sérgio Gonçalves, admitindo a dificuldade de movimentar a estrutura de São Torcato para as duas CSIF.

Aprovado ao abrigo do programa Partis & Art for Change, financiado pela Fundação Calouste Gulbenkian e pela Fundação La Caixa, o “Fazer Presente” foi uma mais-valia pelo “diálogo intergeracional” através da intervenção social e das artes, que enriqueceu o dia a dia de jovens e mais velhos em “freguesias mais dispersas” do concelho de Guimarães, com as suas idiossincrasias, vinca a diretora técnica da ADCL, Gabriela Nunes. “Foi uma mais-valia este trabalho em rede, valorizando o local, a identidade e as pessoas, e combatendo de facto o isolamento social a que estão sujeitos muitos idosos nas nossas comunidades e nestas freguesias”, diz. Para ilustrar os efeitos da iniciativa, a responsável citou uma das pessoas mais velhas do projeto: “Ela dizia que sentia a juventude a voar sobre ela outra vez”.

 

Grupo do "Fazer Presente" em visita ao CCVF, onde atua em 28 de novembro © ADCL

Grupo do "Fazer Presente" em visita ao CCVF, onde atua em 28 de novembro © ADCL

 

“Se o diálogo entre estas gerações não se estabelece, há algo que se perde”

O contingente jovem proveio das três turmas que frequentaram a disciplina de Teatro e Comunidades, lecionada no primeiro semestre do terceiro ano da licenciatura da UMinho; o “Fazer Presente” reuniu, por isso, 20 alunos de cada turma e outros estudantes recrutados numa fase em que não tinham a disciplina; a academia esteve ali representada por 75 artistas em potência, sob a coordenação do professor Tiago Porteiro. Além de criarem, as pessoas com estudos de teatro podem ainda trabalhar na área da formação ou no seio das comunidades, na ação social, vinca.

“Quis contribuir com formação e sensibilização de artistas interessados para liderarem este projeto no futuro. Este projeto tem uma dimensão de criação, uma dimensão de formação. Num dos semestres, integrava-se no trabalho de campo o contacto com os grupos”, frisa.

Apesar de “nem tudo ser rosas” nos três anos de projeto, nomeadamente no enquadramento da dimensão artística às necessidades do terreno, o professor e artista enaltece as “questões interessantes” levantadas pelo trabalho em comunidade, na relação com um dado território, numa época de tendência para o isolamento das gerações.

“Há uma tendência das nossas sociedades contemporâneas para se isolarem por gerações, com dificuldades de comunicação e partilha de legados entre pessoas de mais idade, com um universo mais rural, sem que nada de pejorativo aí se conecte, e jovens de hoje, com outros universos. Se o diálogo entre estas gerações não se estabelece, há algo que se perde no ponto de vista da memória, da convivência, da coexistência, dos legados e das aprendizagens conjuntas”, considera.

O “Fazer Presente” foi então, para Tiago Porteiro, o “desafio de encontrar e dialogar”, num esforço que potencia não só a criação e a formação, mas também a investigação e a documentação de vivências e de hábitos das comunidades. O projeto termina oficialmente em dezembro, mas a ADCL espera dar-lhe continuidade, possivelmente noutros moldes.

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