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A virar para a quarta década, o Guimarães Jazz procura outras vozes

Tiago Mendes Dias
Cultura \ quarta-feira, outubro 26, 2022
© Direitos reservados
Mais luso (e vimaranense) do que nunca, o festival aventura-se pelo jazz cantado a abrir, com Diane Reeves, mas também pela palavra dita, pela eletrónica, pelos ritmos africanos, sem esquecer Chicago.

Concluída a 30.ª edição de um dos maiores eventos de jazz do país, urgia pensar nos caminhos a seguir para o “festival não se cristalizar num modelo e se tornar num aborrecimento, em vez de um acontecimento”, admitiu o diretor artístico, Ivo Martins, ao apresentar o cartaz de 2022 naquele que é talvez o lugar mais emblemático daquela expressão artística em Guimarães: a sala das jam sessions do Convívio. “Precisávamos de novas ideias, novas experimentações, novas integrações”, vincou.

A partir daí, discorreu pelas nuances que dão um timbre distintivo ao próximo Guimarães Jazz, um ensemble de 12 concertos que se prolonga de 10 a 19 de novembro, com epicentro no Centro Cultural Vila Flor (CCVF)

Sobressai desde logo o “lado experimentalista” de Hamid Drake’s Turiya, coletivo de homenagem ao legado musical de Alice Coltrane, uma das raras harpistas da história do jazz, com a dança e a spoken word de Ndoho Ange, a eletrónica de Jan Bang, e o guembri, instrumento de cordas africano nas mãos de Joshua Abrams, reunidos com a trompete, a bateria, o contrabaixo, o piano e duas vozes: as de Sheila Maurice-Grey e de Hamid Drake, na atuação marcada para 12 de novembro.

A polifonia vocal da 31.ª edição manifesta-se, porém, da abertura ao encerramento: uma das vozes mais proeminentes do jazz norte-americano contemporâneo, Diane Reeves, protagoniza o concerto inaugural, a 10 de novembro, no Grande Auditório Francisca Abreu, e precede a subida de Archie Shepp ao mesmo palco. Esse saxofonista de referência, precursor do free jazz, atua a 11 de novembro, com um quarteto que inclui a voz da marselhesa Marion Rampal. No último dia, o concerto do Victor Garcia Group, a face desta edição para a viagem pelo jazz de Chicago, têm em Jill Katona a sua voz. Antes, a 13 de novembro, o projeto Porta-Jazz não se coíbe de exprimir aquilo de que o instrumento humano é capaz: serão cinco as vozes.

“Há muito jazz cantado nesta edição, o que é raro. Sempre fomos muito céticos em relação a vozes no jazz. Não é qualquer cantor que nos convence. Às vezes, andam na fronteira entre a música de casino e o jazz, e esses cantores não nos agradam muito”, descreve Ivo Martins.

Para o diretor artístico, justifica-se um festival “multidisciplinar”. Afinal, o jazz sempre foi uma forma de “música popular” na “fronteira” com outras expressões artísticas.

“Andou sempre na fronteira com a música clássica, e mais recentemente com o rap, o hip hop, a eletrónica, o experimentalismo. Os sons do quotidiano são introduzidos de forma hábil no jazz. Isto vem do passado, desde o século XIX até ao século XX”, realçou.

O vereador municipal para a cultura valorizou igualmente a tentativa do festival “arriscar novos horizontes”, ao invés de se limitar a “consolidar o património” edificado em 30 anos. “Esta não é mais uma edição do Guimarães Jazz. É uma nova página. Não se limita a ir consolidando uma ideia. Foi-se reinventando e apontando novas direções para consolidar públicos com que trabalhou e encontrar novos públicos”, referiu.

 

Guimarães na era da criação. Portugal na “era espacial”

No meio de reconfigurações, há marcas de outras edições que persistem. A de Chicago permanece viva enquanto paradigma da diversidade norte-americana numa só cidade.

“Se Nova Iorque e Los Angeles têm músicos de todo o mudo, em Chicago confluem uma série de músicos incríveis do jazz e do blues, vindos do sul, das terras da exploração esclavagista. Principalmente desde os anos 40, a cidade funciona como espécie de cadinho onde confluem músicos de várias influências, muita africanidade”, frisou Ivo Martins.

O jazz europeu, mais vincado em edições anteriores, deixa rasto com um trio dinamarquês que atua a 12 de novembro, no Pequeno Auditório do CCVF: Benjamin Koppel (saxofone), Anders Koppel (órgão Hammond) e Martin Andersen (bateria).

A influência portuguesa expande-se, contudo. Metade dos concertos terão interpretação lusa, fruto das parcerias do Guimarães Jazz, que, neste ano, se alargam: à Big Band da ESMAE, ao projeto Porta-Jazz e ao projeto Sonoscopia, juntam-se o Centro de Estudos de Jazz da Universidade de Aveiro, com o trio Themanus (15 de novembro), e a Orquestra de Jazz de Matosinhos, no encerramento do festival (19 de novembro, às 21h30), com a interpretação de uma “peça fundamental da história do jazz”: Jazz in the space age, lançada por George Russell em 1960.

Dois dias antes, a Orquestra de Guimarães regressa ao palco para mais uma incursão pelo jazz. Ao contrário do ano passado, não será, porém, o único representante de Guimarães no concerto: o guitarrista Manuel de Oliveira subirá ao palco com os espanhóis Jorge Pardo e Carles Benavente, guitarristas que se aventuraram pela fusão do jazz com a música tradicional peninsular, para a interpretação de Ibéria.

Financiado pelo IMPACTA, regulamento de apoio à criação artística da Câmara Municipal de Guimarães, esse concerto pode ser exemplo de Guimarães enquanto cidade cada vez mais de criação.  “Este espetáculo foi criado através do IMPACTA. Queremos que Guimarães seja cada vez mais uma cidade onde se pode criar”, disse.

O programa inclui as tradicionais oficinas de jazz, com Victor Garcia, e as tradicionais jam sessions, no Convívio e no café-concerto do CCVF. Até agora, estão vendidos 335 bilhetes para o festival e 130 assinaturas, em três modalidades: passe geral, a 90 euros, acesso a quatro concertos, a 45, e acesso a três concertos, a 35. “A mais vendida até agora é a de 35 euros: cerca de 80”, disse Helena Pereira, diretora executiva da Oficina. Os bilhetes individuais custam de 7,50 euros, com desconto, até aos 15.

 

Programa oficial do Guimarães Jazz

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