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Guimarães marcha: "O poder local faz dos temas LGBTQI um não assunto"

Pedro C. Esteves
Diversidade & Inclusão \ terça-feira, junho 28, 2022
© Direitos reservados
A última Marcha do Orgulho em Guimarães foi há quatro anos. Este sábado, as cores do arco-íris voltam à rua. A luta faz-se todo o ano e marchar é "momento de reconhecimento de que já se andou muito".

Este sábado, em frente ao Tribunal de Guimarães, vai ser lido um manifesto em que se pede a “criação de um centro municipal LGBTI+” para ajudar pessoas vítimas de violência e que preste cuidados de saúde e apoio a pessoas transgénero. Isto porque sai à rua a Marcha do Orgulho LGBTI+ – mais de quatro anos depois das cores do arco-íris terem serpenteado Guimarães – e urge-se o poder local a "agir". "É necessário garantir que nenhum membro da comunidade LGBTQI+ seja perseguido, maltratado, agredido por amar", refere a declaração.

Sob a égide “Guimarães Conquistando Direitos”, a Marcha tem início na Plataforma das Artes e foi convocada pelo Grupo de Apoio a Pessoas Queer (GAPQ), que coordena a Comissão Organizadora “composta por uma dezena de movimentos e associações vimaranenses e arredores”. O porta-voz, Diogo Barros, explica ao Jornal de Guimarães que a iniciativa “tem um critério de manifestação política e social”. “É um grito de desespero e cansaço”, sintetiza. 

“Em Guimarães, o poder local faz deste tema um não assunto”, refere o manifesto a ser lido no sábado, “no entanto, são necessárias políticas de inclusão e de proteção”. O GAPQ – que em breve será oficialmente uma associação chamada Humanamente sediada em Guimarães – pede à autarquia para “começar a trabalhar” nestas questões que são, reitera Diogo Barros, “de direitos humanos.”

A organização entende que o melhor local para ler o texto é mesmo em frente à Casa da Justiça. “Normalmente as marchas passam pelas câmaras municipais e é lá que as reivindicações se fazem ouvir. Nós criticamos o poder local, mas gostaríamos de visar outra instituição: o tribunal. Não estamos só a falar da comunidade LGBTQI+.A justiça tem vindo a falhar na proteção às várias vítimas”, sublinha.

“Gente com vontade de agitar e falar"

Espera-se que apareça muita gente jovem. O movimento prestes a fazer-se associação tem passado por escolas em sessões de esclarecimento e denota interesse. Mas nem só o GAPQ faz esse trabalho junto de instituições de ensino. Se é verdade que Guimarães não vê uma marcha sair à rua há quatro anos, o último ano foi fértil no campo do ativismo. “Há gente com vontade de agitar e falar deste tema”, assinala Carlos Oliveira, psicólogo da Casa do Povo de Fermentões (CPF) que gizou o projeto Bússola, um gabinete de apoio à comunidade LGBTQI que surgiu “por interesse e pela necessidade”.

Mas a luta não se faz num mês e continua a haver “um problema”: a perceção das “outras pessoas” – e isso não é inerente ao concelho ou à região.

“As pessoas da comunidade podem querer manifestar-se, mas perguntam-se: ‘O que é que vai acontecer se me afirmar como pessoa LGBTQI+, o que é que vai acontecer com a minha família se descobrir que sou uma pessoa que não corresponde ao que seria expetável?’. Todos estes receios são castradores. As pessoas sentem medo de sair. Ainda há pouco tempo vimos notícias de pessoas que são homossexuais ou trans e que são agredidas brutalmente nas ruas em Portugal”, refere o psicólogo.

E continuam a persistir “situações de bullying nas escolas, no contexto laboral e na saúde”, vinca o criador do Bússola. É também nestes locais que o projeto intervém. Com cerca de um ano, este gabinete único no concelho viu o seu trabalho reconhecido recentemente: foi um dos vencedores das Bolsas de Cidadania de 2022 pela resposta “às situações de vulnerabilidade social, emocional e económica de pessoas LGBTI+”.

Marchara para reivindicar, mas também para "reconhecer" 

A partir do gabinete em Fermentões, o Bússola faz “acompanhamento psicológico” – presencial ou à distância – “e também salvaguarda situações básicas e urgentes”. Carlos exemplifica: “Se há uma pessoa LGBTI+ na rua devido a um companheiro violento ou foi expulsa pela família, asseguramos que tem dinheiro para pagar alojamento por uma ou duas noites”. A ajuda do Bússola também pode passar por auxiliar alguém da comunidade a viajar até à Unidade Reconstrutiva Génito-Urinária e Sexual (URGUS), em Coimbra, por exemplo.

A procura por atendimento presencial em Fermentões ainda é reduzida, mas o responsável nota que depois de o projeto receber a bolsa já contactaram o Bússola mais duas pessoas. E como toda a visibilidade é importante, as marchas “fazem todo o sentido”. “Foi um percurso longo em Portugal, mas as marchas, para além de ser serem um momento de reivindicação, também têm de ser um momento de reconhecimento de que já se andou muito.”

Guimarães sem arco-íris

O aparecimento de um novo movimento em Guimarães cimenta esse caminho percorrido. O Guimarães LGBTQIA+ apresentou-se formalmente no Convívio no último fim de semana de junho. Eduardo Costa, um dos membros, explica que a ideia de idealizar o movimento prendeu-se com “a necessidade de uma resposta fora do espectro político”. “É sempre bom termos mais um espaço para que as pessoas se sintam seguras. O nosso propósito é dar visibilidade às pessoas LGBTQIA+. Acharmos que os partidos não fizeram o seu trabalho, ou fizeram muito pouco”, refere.

Eduardo conhece o movimento associativo de outras lutas. “Quando comecei com a greve climática estudantil, senti precisamente o que estou a sentir agora”. E que sentimento é esse? “O de alguma reticência das pessoas expressarem a sua opinião”, diz. “Quero acreditar que, com a marcha, este comece a ser um tema mais falado. Reparamos por exemplo que nenhuma instituição municipal hasteou uma bandeira, por exemplo”, atira.

Para lá do 28

Depois do Dia do Orgulho, mas antes da marcha, o Bússola vai promover uma conversa com a psicóloga Sara Malcato. Às 18h00 de dia 29 – esta quarta-feira – haverá tempo para falar sobre coming out no ambiente familiar – e “como ou se devemos fazê-lo” – e para responder a perguntas e dúvidas. A conversa vai acontecer no Instagram da Casa do Povo de Fermentões.

Um ABC para não ficar às escuras

Alguma dúvida depois da leitura deste texto? A Associação ILGA Portugal disponibilizou, num projeto recente, o significado de 37 palavras em vários formatos. Conceitos como coming out, identidade de género ou misgendering estão facilmente acessíveis aqui.

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