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Há Portas Abertas para um recomeço de quem está em situação de sem-abrigo

Tiago Mendes Dias
Sociedade \ domingo, fevereiro 05, 2023
© Direitos reservados
Há causas várias para o centro de acolhimento de Guimarães identificar 91 pessoas desde março de 2020: insuficiência económica, problemas de saúde, passando por dependências ou roturas familiares.

Em resposta, há um projeto que sugere o regresso sequencial à sociedade, através da cantina social, apartamentos de autonomização e atividades. A prioridade é trabalhar as competências sociais e pessoais desses cidadãos e dar-lhes motivos para firmarem um projeto de vida.

Paulo acumulou 25 anos de experiência em hotelaria até 2019, quando a empresa fechou. Recorreu ao fundo de desemprego. “O período não era o melhor e, atendendo à pandemia, nunca mais arranjei trabalho na área”, conta ao Jornal de Guimarães. Em 2023, é um dos 91 cidadãos que já passou pelo Centro de Acolhimento e Emergência Social (CAES) de Guimarães desde março de 2020, mês em que foi criado; hoje está instalado na antiga EB1 Chã de Bouça, em Atães, dando apoio a pessoas em condição de sem-abrigo.

Falante de inglês, francês e espanhol, Paulo Dinis “derrapou” para o consumo de “drogas duras”, algo que mantinha afastado desde a década de 90, e frequentou um centro terapêutico em Leça do Balio, entre setembro de 2021 e abril de 2022. O pai “abriu-lhe a porta”, mas está agora em cuidados continuados. A mãe está em “estado vegetativo”. Os laços familiares perderam-se, os amigos também e esteve quase a “cair na rua”, mas dirigiu-se ao Serviço de Ação Social para pedir ajuda.

Ao entrar para o CAES, a 01 de setembro de 2022, ficou ao abrigo do Portas Abertas, programa financiado pelo Norte 2020 que envolve a Câmara Municipal de Guimarães, a delegação de Guimarães da Cruz Vermelha Portuguesa, a Sol do Ave e o Lar de Santo António no objetivo de reintegrar na sociedade pessoas em condição de sem-abrigo. “Uma pessoa em condição de sem-abrigo é uma pessoa sem habitação própria. Há pessoas sem teto, as que dormem na rua, e aquelas com teto, como as que dormem no CAES”, esclarece Elisabete Mendes, técnica de ação social da Câmara.

Esse programa desenrola-se como “um movimento circular” que se ativa “quando alguém fica em situação de sem-abrigo” – “o objetivo é que a pessoa fique o mínimo de tempo possível nessa condição”, vinca a responsável – e prossegue com a ida para o CAES, espaço com três quartos – antigas salas de aula – para cinco pessoas onde se trabalha “as competências pessoais e sociais” eventualmente perdidas.

O número de entradas em Atães tem crescido, até porque há “cada vez mais pessoas a viverem sós” perante a “conjuntura económica”. E os motivos que atiram as pessoas para aquele contexto são vários: há dependências de álcool e de drogas, sim, mas também problemas de saúde física e mental, divórcios ou “insuficiência económica”.

“Basta uma pessoa que sempre teve uma vida normal cair numa depressão profunda, sem o acompanhamento devido. Se se der um efeito bola de neve, a pessoa perde competências para a atividade profissional, cai no desemprego e entra em rotura familiar”, dá conta Elisabete. A maioria dos cidadãos abrangidos são homens, entre eles dois migrantes, mas também cada vez mais mulheres – algumas são vítimas de violência doméstica, revela Vanessa Pereira, técnica da Cruz Vermelha.

 

Mais de 70% com passo em frente

No Portas Abertas, cada pessoa sinalizada “sobe de intervenção à medida que dá um passo” até ao “objetivo final de habitação e trabalho próprios”, completa Elisabete Mendes. Até ao fim de 2022, 71% dos utentes que passaram pelo CAES deram algum passo em frente: quase 11% conseguiu emprego, 12,5% garantiu “integração sociofamiliar”, mas uma em cada quatro (25%) está nos apartamentos partilhados de autonomização: há um do Portas Abertas, para quatro pessoas, e dois para cinco habitantes, do Novo Rumo, outro projeto social.

“Os apartamentos de autonomização têm função transitória. É objetivo que as pessoas tenham mais autonomia na gestão das tarefas domésticas e na gestão económica para voarem sozinhas”, refere Elisabete Mendes; nesse processo, os utilizadores com rendimentos – inclui Rendimento Social de Inserção, Prestação Social para a Inclusão ou qualquer reforma – disponibilizam 20% do valor mensal disponível para renda, água e luz, acrescenta.

Mas esse dinheiro raramente chega para refeições, pelo que a cantina social da Câmara Municipal, contígua à feira semanal, entra em cena. Em média, o equipamento serve 75 a 80 almoços diários, não só ao público do Portas Abertas, mas também a cidadãos com “vulnerabilidades económicas”, adianta Manuela Silveira, técnica da Sol do Ave que coordena aquele espaço desde abril de 2022, a par de Nuno Godinho.

O trabalho da dupla é fazer com que os utentes se sintam em “casa”: dispõem de pequeno-almoço, almoço, lanche e jantar, bem como horário para ganho e lavandaria para a roupa. Pelo meio, há “atividades de desenvolvimento” à terça-feira, com debates em parceria com a Cruz Vermelha, atividade física às quartas, em parceria com a Tempo Livre, e auxílio no cuidado com a imagem e na elaboração de currículos para candidaturas a emprego, realça Nuno Godinho.

Paulo Dinis é inquilino do apartamento e utente da cantina social. Nas atividades, compreende a “importância da imagem” e os erros que, no passado, a denegriram para um dia, quem sabe, voltar a “uma profissão agradável, bonita” na receção de um hotel – é “extremamente complicado”, admite - e ter casa própria, outra dificuldade. “Hoje uma pessoa pode ser sem-abrigo tendo trabalho. Temos um problema enorme com a habitação”, aponta.

 

A memória dos cavalos é luz no meio da depressão

Outra das pessoas em apartamento de autonomização é Fátima Costa. Tem 30 anos e debate-se pelo menos há nove com uma depressão. O relacionamento de uma década com o ex-companheiro terminou recentemente. Os recorrentes insultos verbais que testemunha fizeram-na deixar a casa onde vivia. Passou depois por um centro de acolhimento em Braga e pelo CAES de Guimarães até ao apartamento.

Acompanhada por uma psicóloga e pelo médico de família, a cidadã lembra-se da quinta com cavalos em que trabalhou quando equaciona um futuro emprego. Na vida adulta, foi operária de uma fábrica de embalagem e esteve nas limpezas, mas o tratamento dos cavalos é a memória que mais lhe alumia o quotidiano. “Ajudava os treinadores a escovar os cavalos. Enquanto treinava, fazia também as camas dos cavalos. Depois ajudava também a dar-lhes de comer”, recorda.

Técnica envolvida no Portas Abertas, Vanessa Pereira refere que a ausência de “projeto de vida” é um dos motivos para a condição de sem-abrigo se perpetuar. É, por isso, essencial ajudar as pessoas a “descobrirem as suas potencialidades” e consequentemente motivação para afinarem “competências sociais e pessoais”. “O mais importante no projeto é as competências pessoais e sociais. Enquanto uma pessoa não desenvolve competências pessoais e sociais, não desenvolve propósito de vida. Se não desenvolve propósito de vida, não vai avançar no seu percurso”, realça.

Fátima Costa encontra campos com cavalos à beira do apartamento e admite que uma realidade assim como futuro lhe agrada. “Gostaria de voltar a um hipódromo. Admito que até tenho já saudades de ir visitar as pessoas e de as ajudar”.

[ndr] Artigo originalmente publicado na edição de janeiro do Jornal de Guimarães. 

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