
Tiago Soares: Hoje assistimos à banalização do mal
Bisneto do prestigiado médico vimaranense Mário Dias, foi Presidente do Conselho Nacional da Juventude, adjunto da Secretária de Estado da Igualdade (Elza Pais) e dirigente da Federação de Andebol de Portugal. Inconfessável admirador de Mandela, Ghandi, ou Luther King, o vimaranense Tiago Luís Rodrigues de Castro Soares deu expressão à sua curiosidade histórica sobre o papel dos afroamericanos numa tese de doutoramento defendida recentemente na Universidade de Coimbra. Aos 47 anos, o natural de Azurém não esquece as influências do avô Paulo Dias de Castro que o levaram à sua obra “Os afroamericanos e a política externa EUA para África – Uma Análise Comparada dos Mandatos de George W.Bush e Barack Obama (2001-2017)”. Nesta entrevista, Tiago Soares, explica o papel e o lugar dos negros tanto na sociedade americana como em Portugal.
ENTREVISTA: Esser Jorge Silva e José Luís Ribeiro
A sua tese de doutoramento, defendida recentemente na Universidade de Coimbra, mostra que os negros só chegaram à cúpula da política americana com George W.Bush e Barack Obama. Quais as principais razões para esse longo afastamento?
As razões do afastamento dos afroamericanos da liderança política nos E.U.A remontam à escravatura e ao impacto que a mesma teve na construção política dos Estados Unidos. A escravatura foi o principal motivo que originou a Guerra Civil Americana que terminou em 1865. No final da guerra de secessão, alguns Estados adotaram Leis que se baseavam na segregação racial. As Leis de Jim Crow, como eram conhecidas, só foram abolidas em alguns Estados com a histórica decisão de 1964 conhecida como Civil Rigths act adotada pelo Presidente Lyndon Johnson depois de um hercúleo trabalho da comunidade afroamericana liderada por Martin Luther King para fazer face à discriminação na Lei e no quotidiano dos afroamericanos. Este aspeto foi decisivo para a ausência de afroamericanos nos cargos de decisão ao longo da história.
Frantz Fanon e o seu “freudianismo paternal” (“é preciso matar o homem branco”) – faz sentido ainda hoje ou há uma realidade no qual Fanon já está ultrapassado?
Bom em relação a essa questão, eu não diria que é preciso matar, eu diria que é preciso fazer renascer o homem branco. No sentido em que é preciso que as novas intersubjetividades, ou seja as realidades resultantes de uma maior interação entre seres humanos, brancos e negros, faça com que se renasça numa nova condição humana assente naquilo que a filosofia Ubuntu chama de alteridade, ou seja, “eu ser o outro”, e para isso é preciso que as fórmulas antigas de construções identitárias baseadas na distinção entre o eu e o outro se construam na base do “eu ser o outro” e isso significa na realidade que se faça renascer um novo homem branco da mesma maneira que se deve fazer renascer um novo homem negro. Em certa medida advogo por uma nova pedagogia da alteridade, e por uma forma de estar na vida e no mundo baseada na empatia.
Portanto, Frantz Fanon já não é para estes tempos…
Não é filosoficamente necessário fazer ninguém “morrer”, ou matar fórmulas antigas de ser, ou de estar, é preciso fazer renascer a humanidade que todos os dias tem vindo a fugir da essência das pessoas. É realmente interessante poder compreender como é que a humanidade gritou no período pós-segunda guerra mundial “never again” e hoje assistimos à banalização do mal, como tão bem referia a filósofa Hanna Arendt. É exatamente esse homem branco que assistiu a essa mortandade e que disse nunca mais, que hoje queremos que renasça no sentido da vivencia da humanidade do outro.
Sessenta anos após os Direitos Civis podemos afirmar que a política é menos forte do que as leis de ferro da separação racial ou estamos perante uma grande verdade: as sociedades mudam muito lentamente.
Na realidade, há uma diferença muito grande entre o país legal e o país real. Para que a realidade mude é preciso que as leis mudem, mas para que a realidade se altere o tempo representa uma enorme ditadura. Se por um lado o alcance de igualdade racial na lei foi em 1964, hoje continua a haver uma enorme disparidade entre negros e brancos no que diz respeito ao rendimento, aos cargos de tomada de decisão e em todos os aspetos da vida quotidiana dos Estados Unidos da América.
Ainda que seja uma minoria, pode-se falar em falta de interesse histórico dos negros americanos em aproximar-se das áreas de disputa do poder?
Não é propriamente uma falta de interesse histórico, ao longo dos anos houve sempre uma participação muito efetiva em assuntos muito particulares de interesse direto dos afroamericanos. A marcha de Washington é um exemplo dessa participação. Se olharmos ao longo dos anos houve sempre uma participação muito ativa de afroamericanos, desde logo, na própria guerra da secessão onde os famosos Buffalo soldiers participaram ativamente ao lado de Abraham Lincoln. O papel central de Frederick Douglas no movimento de Abolição da Escravatura. O papel desempenhado por vários afroamericanos em movimentos culturais e cívicos e desportivos. Daqui podemos destacar o papel nevrálgico do movimento Harlem Renaissance, de onde se destacam os escritores Langston Hughes. Paul Robeson, Thurgood Marshal, que viria mais tarde a ser o primeiro juiz afroamericano do supremo tribunal, o movimento associativo, National Association for the advanced of colored people, do movimento desportivo, com particular destaque do famoso atleta Jesse Owens, o papel central do cinema com os famosos Sidney Poitier ou Harry Belafonte. Tudo isto resultaram em afirmações afroamericanas no espaço publico que redundaram em dinâmicas políticas em que da periferia se foi, de forma progressiva, ocupando o centro político e a vida cultural e política dos EUA.
Afirma que “quanto mais a agenda pessoal se aproxima da agenda dominante, maior é a probabilidade de serem aceites pelo eleitorado”. Trata-se de uma “normalização” ou de uma “submissão” da negritude, que já não quer ter uma agenda?
Esta questão resulta maioritariamente do facto de quando as agendas são coincidentes é mais fácil atingir resultados políticos efetivos do que quando a agenda política é divergente. A agenda política manteve-se ao longo dos anos mas como estava muito centrada em aspetos que colidiam com a agenda do capitalismo, esta agenda, protagonizada por movimentos mais radicais como a UNIA de Marcus Garvey e mais tarde movimentos como os Black panthers, a Nação do islão ou o movimento de Malcom X, faziam com que a agenda fosse vista como radical. Aliás estes movimentos foram considerados, nas palavras de J. Edgar Hoover, antigo diretor do FBI , como tão perigosos como o comunismo para os EUA. Este facto fez com que a agenda não fosse coincidente com o mainstreaming. Quando o debate político e a agenda passou a ser uma agenda mais coincidente com os princípios e “valores” dos Estados Unidos, o sucesso foi maior em termos de alcance da agenda.
Os estudos mostram que nas últimas eleições duplicaram os negros a votar nos republicanos. Como podemos interpretar esse dado?
A evolução do voto afroamericano nos Estados Unidos foi mudando ao longo da história. Se, por um lado, no século XIX até quase F. D. Roosevelt o voto foi maioritariamente republicano - uma vez que Abraham Lincoln foi quem conseguiu abolir a escravatura em toda a União - a evolução no sentido de voto afroamericano passou de republicano para democrata sobretudo com o New Deal que trouxe novas condições sociais aos afroamericanos. Para ilustrar esta afirmação é importante ter a noção de que o Congresso do partido democrático que elegeu o Presidente Woodrow Wilson teve cerca de 300 representantes da Ku Klux Klan. Contrariamente às perceções que hoje existem, o famoso polícia Bull Connor era do partido democrata.
Mas o sentido de voto foi variando …
Foi variando de acordo com as condições alcançadas pelos afroamericanos ao longo da história. Quando o Presidente Harry Truman acabou com a discriminação racial nas forças armadas dos EUA, na sequência da II Guerra Mundial, os afroamericanos foram tendo uma agenda muito próxima do partido democrático que teve o seu auge nos direitos cívicos em 1964. Ao longo da história, as administrações democratas foram mais diversas e inclusivas e tiveram mais afroamericanos. Apesar de vir em crescendo o número de afroamericanos no partido republicano, continua a ser largamente maioritário no número de votantes no partido democrático em valores muito acima dos 80%.
Pode afirmar-se, genericamente, que os negros portugueses se interessam por conquista de lugares políticos ou esses lugares têm os seus donos?
Os negros portugueses interessam-se e muito pelas questões políticas. Aliás, já no início do século XX foi produzido um importante jornal chamado “O Negro” onde pontificavam os primeiros grandes intelectuais negros portugueses dos quais se destacam figuras como Ayres de Menezes, Costa Alegre, entre outros intelectuais e pensadores que estavam organizados politicamente e que se chegaram a filiar em movimentos internacionais na sequência do primeiro Congresso pan-africano de 1900 em Londres. Este grupo chegou a receber em Lisboa em 1923 William du Bois que refere este processo no seu famoso trabalho do World of colors que escreveu para a importante revista Foreign affairs.
Mas ocupavam lugares de realce?
É importante destacar que a presença negra em Portugal não é só do século XX, o famoso doutor Sousa Martins era mestiço, o médico do Rei Dom Carlos era Carlos Tavares, um médico originário da província de Benguela em Angola. E, para irmos ainda mais longe, a importante figura de Don Suleima, um Moçárabe Negro que Dom Afonso Henriques escolheu como primeiro Bispo de Portugal. No entanto, conforme podemos observar, a sociedade portuguesa é uma sociedade profundamente estática onde pessoas que não pertençam às elites têm dificuldades em ascender nos processos políticos. Por esse motivo, os lugares em política normalmente têm dono, são os mesmos do século XIX e provavelmente os mesmos do século XX e quem os quiser tem de lutar por eles, nada será dado e tudo terá de ser conquistado.
Nado e criado vimaranense, é negro, algo raro. Que memórias guardou ao longo da sua vida a esse respeito?
Na cidade de Guimarães éramos muito poucos os negros quando eu cresci. As questões identitárias fizeram parte desde sempre da forma como eu me constitui enquanto ser humano adulto. Para muitos eu não era de cá porque a minha cor era de outro sítio, para os de lá eu não era de lá porque era de cá. Fui sempre bem acolhido e cresci dentro de um espaço harmonioso e fraterno. Uma parte da minha família materna é de cá. O meu bisavô era médico aqui em Guimarães, o Dr. Mário Dias e o meu avô era um ativista político, Paulo Dias de Castro que foi decisivo na minha formação política, intelectual e humana. Confesso que este facto pode ter dado uma perceção diferente sobre a forma como vivi e cresci em Guimarães, no entanto, sempre militei em lutas pela igualdade racial e contra a discriminação que nós os negros passamos ao longo de um percurso e de uma vida, sobretudo no mundo profissional, social e político. Tive algumas histórias de racismo, mas felizmente foram episódicas.
Que razões podem explicar o facto de, em Portugal, “sermos todos iguais” quando os olhos mostram a existência de colorações diferentes?
A ideia da coloured Blind society é uma forma de encarar os factos sociais em Portugal de forma a legitimar a sub-representatividade nas esferas políticas e de tomada de decisão. A ideia de representação substantiva, a partir do princípio de quem representa, representa todos os constituintes faz com que se deixe um vazio para as representações simbólicas, descritivas e formais da sociedade. Desta forma, a ideia de que quem representa o faz em nome da substância e do conteúdo faz com que a fotografia que se tira aos representantes do povo seja monocromática e não represente o tecido social português que, no seu contrato social, é claramente mais diverso. É evidente a sub-representação de minorias étnicas no parlamento português e isso enfraquece a democracia, da mesma forma que a presença de mulheres era reduzida e hoje, após as medidas corretivas legais. é hoje mais efetiva. Se nós andarmos pelas nossas cidades, olharmos para as nossas seleções não compreendemos porque é que nos nossos representantes ainda não temos um “Éder” que ajude a marcar golos na ciência e na tecnologia, no direito e na justiça ou em outras áreas da vida cívica e política. Tenho a certeza que quem fica a perder é Portugal.
É uma pessoa de fé?
Sim.
Existe alguma figura da Igreja Católica que mais o tenha marcado e tenha influenciado o seu quotidiano?
O papa João XXIII e a sua encíclica Pacem In Terris. Mais do que nunca profundamente atual. As igrejas foram determinantes na forma como os afroamericanos fizeram o seu caminho emancipatório. A tese de Doutoramento de Martin Luther King foi sobre “Uma Comparação dos Conceitos de Deus nos pensamentos de Paul Tillich e Henry Nelson Wieman". Paul Tillich foi um dos filósofos que inspirou Barack Obama e todo o percurso emancipatório foi feito em alusão a parábolas bíblicas assentes na fuga dos judeus do Egito e da vida de Jesus Cristo naquilo que foi conhecido como o “protestantismo social”. Esses exemplos seguem-me hoje no sentido de contribuir para a permanente libertação da humanidade da opressão e da tirania, seja a partir das palavras sagradas, seja a partir das ações contemporâneas de homens bons que foram também partes de “Deus” entre os homens. É, no meu entender, o contributo maior das religiões no sentido etimológico do termo, ou seja, do Religare, da religação, da união entre as pessoas. É dessa cepa que nascem os grandes que nos inspiram a ser, conforme disse, tentativas de sermos um Deus entre os homens como foram Mandela, Ghandi, ou Luther King.
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[Conteúdo produzido pelo Jornal O Conquistador, publicado em parceria com o Jornal de Guimarães. Entrevista da edição de março de 2025 do Jornal O Conquistador.]