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Joana Gama:"A relação com o piano é corporal. É tocar em algo com história"

Pedro C. Esteves
Cultura \ sábado, janeiro 22, 2022
© Direitos reservados
Em sucessivas cadeias, Joana Gama foi interligando o piano com outras formas de expressão. O percurso cruza-se com Guimarães e este sábado sobe ao palco do CCVF na companhia de Luís Fernandes.

"Há muitas afinidades em cadeia" que o trabalho de Joana Gama espoletou ao longo dos anos. O cruzamento com Guimarães tem sido uma constante para a pianista bracarense e, por entre a toada de uma cidade a rememorar os dez anos da Capital Europeia da Cultura, regressa com dois projetos. Se no Centro para os Assuntos da Arte e Arquitetura (CAAA) há um convite à descoberta da obra do compositor alemão Hans Otte - que é também uma homenagem -, este sábado sobe ao palco com Luís Fernandes (peixe:avião, The Astroboy) para mostrar o novo capítulo de mais uma colaboração com a electrónica do bracarense.

O quinto álbum de colaboração é uma aventura pulsante, que tem as suas origens no convite para a criação da banda-sonora da série televisiva “Cassandra”. O disco foi lançado na passada quinta-feira, um trabalho "depurado" e que conta também com uma incursão de Joana pelo sintetizador MS20. A "parceria" com o conterrâneo Luís Fernandes é exemplo de um processo que se estende no tempo: o de interligar o piano com outras coisas. Para além da experimentação, "o trabalho com as artes performativas é algo que ocupa um espaço muito importante" no trabalho da membro fundador do CAAA.

O ponto de partida para esta entrevista é o abrir do "Livro dos Sons", a obra-prima de Hans Otte, em que Joana Gama desvenda o mundo encantatório que vive naquelas partituras. O festival Hans Otte : Sound of Sounds chegou a Guimarães no dia 14 de janeiro com a conferência John Cage & Hans Otte, prosseguiu no dia 15 através exposição Hans Otte : Sound of Sounds no CAAA - para ser visitada até 26 de fevereiro - e culmina com o concerto (26 de de fevereiro), na mesma casa.

 

Jornal de Guimarães (JdG): Esta aventura e incursão da Joana por Hans Otte: Sound of Sounds começou com um e-mail enviado por um amigo. Isto há mais de dez anos. Em Outubro de 2020 estreia em Portugal O Livro dos Sons, de Hans Otte, materialização de uma intenção antiga. O sentimento ao criar este Festival passa muito pela homenagem que a Joana quer fazer a Hans Otte e divulgar a obra de alguém que não o pôde fazer em vida?

Joana Gama (JG): Sim, sim é completamente por aí. O Hans Otte foi um compositor e diretor da Rádio Bremen, programador de festivais e dedicou grande parte da sua vida a divulgar a obra de outros compositores; quando descobri a sua música gostei mesmo muito. Quando fui lendo sobre ele, percebi que era uma pessoa cuja a obra valia a pena divulgar. E sendo uma obra tão rica, não só em termos puramente musicais – na perspetiva de fazer concertos para divulgar a música de Hans Otte –, mas também ser autor de instalações sonoras, ter todo um percurso ligada à música por várias áreas – também escreveu peças de teatro musical e esteve muito ligado a movimentos artísticos –, a sua obra tinha várias facetas que valiam a pena divulgar e fazer só concertos não seria suficiente. Daí a ideia logo de início, desde o primeiro momento em que contactei o Ingo Ahmels, que foi assistente de Hans Otte, que era nessa perspetiva de trazer a obra de Hans Otte a Portugal e apresentá-la de várias formas através de um festival.

 

JdG: A Joana refere que é um amor de dez anos, que foi sendo descoberto aos poucos, que dão aso a interpretações diferentes e ele próprio assume que não é cristalizada. O espaço para reinterpretações é algo aliciante para uma pianista?

JG: É também por aí, completamente. Porque enquanto alguns compositores deixam indicações precisas da forma como o intérprete deve tocar, no caso de Hans Otte a partitura é quase considerada uma partitura aberta, em que o próprio pianista é um pouco compositor. Ou seja, pode quase compor a obra em tempo real porque pode decidir quantas vezes é que quer repetir determinada secção e também reagir ao piano, reagir à sala. E eu, em todas as vezes que toquei a obra, que já são cerca de oito ou nove, tem sido quase sempre diferente. Mesmo em termos de duração do concerto vai variando e é bom ter essa liberdade para reagir ao momento.

 

JdG: Está umbilicalmente ligada ao sítio por onde vai passar o festival [o CAAA], viu-o dar os primeiros passos. Isso muda de alguma maneira a forma como encara a apresentação da obra?

JG: Tem mais que ver com o gosto que é poder trazer essa peça a Guimarães e tocá-la também no contexto da exposição; e isso é um grande gosto, especialmente porque, se é verdade que em Viseu também vai acontecer em março, quando lá tocar a obra, neste caso o público pode ver a exposição e depois ir assistir ao concerto e quando sair do concerto ver a exposição e ouvir a exposição com outros ouvidos porque há uma interligação, no fundo, entre a exposição e o concerto.

 

Hans Otte © Silvia Otte

Hans Otte © Silvia Otte

 

JdG: Surge também ideia de criar uma peça de teatro musical, as personagens são Hans Otte, John Cage e Erik Satie, que estreará em Abril do próximo ano e será o fecho deste festival. A Joana conhece Margaret Leng Tan, que integra a peça, em 2012, na Capital Europeia da Cultura. Forma-se aqui uma espécie de cadeia, um ciclo.

JG: Sim, há muitas afinidades em cadeia que se vão criando. A Margaret Leng Tan era muito próxima do compositor americano John Cage e na Capital Europeia da Cultura organizamos no CAAA uma exposição e uma série de eventos à volta de John Cage. Ela veio tocar toy piano no âmbito dessa exposição e nessa altura autografou o meu toy piano – eu também tenho um piano pequenino e estive em Guimarães a fazer um espetáculo com esse piano há pouco tempo [o As árvores não têm pernas para andar]. E nessa altura, em 2012, já conhecia o seu trabalho, conhecemo-nos pessoalmente, fomos sempre mantendo contacto ao longo dos anos e foi interessante agora no âmbito do festival trazê-la a Portugal em dois momentos: um que já aconteceu em novembro na Culturgest, um concerto que partilhámos, e depois agora em abril, em Viseu, para a estreia desta peça J-Choes (J’ai Faim) que estreia no Teatro Viriato a 08 de abril.

 

JdG: O encontro com Hans Otte deu-se de uma forma muito orgânica. A Joana esteve durante muito tempo debruçada sobre o trabalho de Erik Satie. Antes de Satie e Hans Hotte o que é que havia? O que influencia e o que "puxa" para o piano?

JG: Eu entrei para o Conservatório Calouste Gulbenkian de Braga aos cinco anos e a partir daí comecei a minha formação musical. Quando comecei a tocar piano gostei logo do instrumento e gostava muito também do tocar em público, daquelas audições escolares que fazíamos para os professores. E isso teve um impacto fundamental. Foi a minha primeira professora de piano, a professora Ema Pais Martins, que incutiu esse gosto por tocar em público. E na altura, quando cheguei ao 9.º ano e tinha que escolher a área vocacional, escolhi a música. Porque por entre todas as áreas das quais eu gostava, tocar piano era aquilo que me dava mais prazer, por mais que não fizesse ideia de o que é que podia ser a minha vida. Mas estava focada na música clássica pura, no sentido de fazer recitais de piano, de reportório canónico. Fiz o curso superior com essa ideia, estudei em Londres um ano, depois acabei o curso na Escola Superior de Música de Lisboa. Nessa altura achava que o meu caminho seria por aí. Mas entretanto foram acontecendo uma série de coisas em cadeia que me foram desviando desse caminho. Nomeadamente, uma peça com dois atores amigos chamada Benny Hall, a minha primeira colaboração com a Tânia Carvalho numa peça chamada Danza Ricercata. A partir desse momento em que fiz uma peça com teatro e uma peça com dança os horizontes abriram. Foram pontos de partida para colaborações que se foram seguindo. Pessoas convidaram-me, e eu comecei a ter motivações para também criar os meus próprios espetáculos. O trabalho com as artes performativas é algo que ocupa um espaço muito importante no meu trabalho. Por exemplo, o espetáculo “As árvores não têm pernas para andar” surgiu por essa vontade de fazer um espetáculo de toy piano, para não ter que depender sempre do piano, que é um instrumento grande e que não existe em todos os sítios. Fiz uma peça para o público do pré-escolar com uma dupla vertente: levar música composta hoje aos meninos, mas falar também da importância das árvores na nossa vida.

 

© Vera Marmelo

© Vera Marmelo

 

JdG: É o piano interligado com outras coisas. E talvez um dos exemplos seja esta “parceria” com o teu conterrâneo, o Luís Fernandes. O álbum There’s no Knowing saiu dia 20 de janeiro, editado pela Holuzam. Lançam projetos juntos desde 2014. E, curiosamente, há aqui uma ligação também a Guimarães via Westway Lab, certo?

JG: Exatamente, sim.

 

JdG: É a tal cadeia.

JG: Nós apresentamos em Guimarães o nosso primeiro trabalho, o Quest. Apresentamos na Plataforma das Artes e então foi com muito agrado que recebemos o convite do Rui Torrinha para criar uma obra original a pensar no Westway Lab com a Orquestra de Guimarães. Criámos este concerto, que depois também saiu em álbum At The Still Point of The Turning World, em 2018, que saiu pela editora australiana Room40. Que foi um grande desafio, mas que foi um grande gosto de concretizar, trabalhámos com um grupo reduzido da Orquestra de Guimarães. Apresentamos primeiro no Westway Lab, depois no dia a seguir no Teatro Maria Matos e fizemos ainda uma série de concertos pelo país. Foi um projeto marcante no nosso percurso, porque nós tínhamos feito o primeiro disco em duo, o segundo disco em trio e, de repente, nesse projeto ao nosso duo foram acrescentados uma série de instrumentos que lhe deram uma corporalidade considerável.

 

 

JdG: O projeto tem as suas origens no convite para a criação da banda-sonora da série televisiva Cassandra. A Joana fala numa entrevista ao Rimas e Batidas de que agora o piano nem é processado. Pode densificar um pouco a forma como foram experimentando desde 2014 até este novo trabalho?

JG: Inicialmente, no Quest, praticamente não se ouvia o som do piano limpo. Ou seja, o som do piano era captado por microfones e o Luís, através da eletrónica, adulterava o som do piano. Ou seja, não se ouvia o piano com aquele som clássico, limpo, que se ouve num recital. E em vez de nós funcionarmos como dois instrumentos – o piano e a eletrónica – como no Quest, inicialmente, funcionávamos como um só no sentido em que a eletrónica adulterava o som do piano, processando-o e o que a eletrónica fazia era quase uma consequência daquilo que vinha do piano. Havia esse prolongamento. Agora não é isso que acontece. Apesar de haver um maior entrosamento entre nós separamos mais as águas. O som do piano aparece limpo, praticamente. Ou seja, o piano é amplificado mas poderia ser amplificado de uma forma para fazer um recital de piano convencional. E junta-se a eletrónica como uma segunda camada, que vai pondo e que vai acrescentando material autónomo. Ou seja, funcionamos agora como dois instrumentos e não apenas um.

 

© Renato Cruz Santos

© Renato Cruz Santos

 

JdG: Neste disco a Joana também toca sintetizador. Algo novo.

JG: É verdade. Eu criei alguma resistência inicialmente. A minha relação com o piano é corporal, é o tacto no teclado é no tocar em algo, neste caso um instrumento, com história. Tocar em teclados não é algo comum, é um objeto com plástico com o qual não me relaciono tanto. Neste disco toco MS20 e faz todo o sentido. Não estou a tocar material que pudesse tocar no piano no MS20. Estou a tocar algo que faz sentido que toque especificamente nesse instrumento e que tem um papel importante numa das músicas.

 

JdG: O piano foi gravado no Grande Auditório do Centro Cultural Vila Flor. Em que medida é que isso se ouve no disco?

JG: É um espaço ótimo, com ótimas condições. E há essa questão determinante: o piano. O Centro Cultural Vila Flor tem um belíssimo piano, um Steinway D, que são os melhores pianos que existem nas salas de concertos. Por isso, poder gravar o disco nesse piano foi um grande privilégio. A questão do piano foi o mais importante. Isso e o de podermos ter tido, em agosto, a calma de termos o espaço e acesso ao auditório. Foram condimentos essenciais para ficarmos muito satisfeitos com o disco.

 

JdG: A Joana sobe ao palco no dia 22, um dia depois de o espetáculo de abertura da Guimarães Capital Europeia da Cultura fazer dez anos. Há dez anos vivia de forma muito próxima o boom que empurrou a cidade com a afirmação do CAAA como um espaço de referência. O que fica desses tempos?

Um ano muito intenso. Eu acho que às vezes ainda se está a processar a quantidade e qualidade de programação que aconteceu naquele ano. De facto, estava muito atarefada com o CAAA, mas também colaborei com A Oficina, porque faziam uns concertos com os atores do Teatro A Oficina. Apresentei também várias peças, fiz concertos, foi um ano intenso e sei que a cidade ficou muito diferente depois daquele ano.

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