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José de Guimarães: “Uma pessoa fica sempre ligada à tribo que a viu nascer”

Alfredo Oliveira
Cultura \ terça-feira, abril 27, 2021
© Direitos reservados
À porta de uma nova exposição no centro de artes com o seu nome, este homem que buscou a humanidade nos quatro cantos do mundo fala de inspiração, interculturalidade, e… origens.

Há um ano sem sair de casa, o artista diz-se numa fase prolixa e fala dos desenhos da mãe que estão no CIAJG, das memórias da cidade e da relação com as culturas não ocidentais, estabelecida ao longo de uma carreira com 60 anos.

Inaugurado em 2012, o CIAJG era já um equipamento falado nos anos 90. Como vê o centro de arte? 
Tem uma história que nos leva a 1992, altura em que fiz uma doação à cidade de um conjunto de obras exposto durante muitos anos no Paço dos Duques de Bragança. Nessa altura, foi editado um catálogo no qual escrevia o seguinte: é meu desejo que o núcleo de obras seja encarado como primeiro passo para um futuro centro de arte contemporânea. Vinte anos depois é inaugurado o Centro Internacional de Artes José de Guimarães (CIAJG), que, de certo modo, cumpre esse desejo. Nessa altura, referia também que era importante haver uma secção de cultura africana; vinte anos depois, com as coisas evoluindo, para além da cultura africana, vemos obras da cultura pré-colombiana e chinesa.

A 16 de abril inaugura-se a nova exposição do CIAJG, Nas margens da ficção. Conta estar presente?
Terei muito gosto em estar presente na inauguração, mas não tenho a certeza. Dadas as circunstâncias sanitárias e a minha idade, estou no grupo de risco. Não sei se vai ser possível. Vou informar-me, porque desde há um ano a esta parte que não saio e não me exponho. 

Já pensou acrescentar peças à coleção permanente em exibição no CIAJG?
Este centro possui uma zona de exposições e uma zona de reservas. A zona de reservas é bastante espaçosa e tem no seu stock muitas peças. A nova diretora está a ocupar-se disso e vai usá-las conforme as circunstâncias. De qualquer modo, a exposição de 16 de abril tem uma grande novidade: a apresentação de um conjunto de 54 peças referentes às maternidades africanas. Vão ser mostradas esculturas de dimensões muito variadas em madeira. Em simultâneo, outra novidade: vamos mostrar pela primeira vez os desenhos que a minha mãe realizou quando era aluna da Escola Industrial e Comercial de Guimarães, já lá vai quase um século. Nunca foram vistas.

É a altura ideal para mostrar esses desenhos? 
Acho que sim; pelo menos do ponto de vista emocional. Nasci mesmo no miolo da cidade, na antiga freguesia de São Sebastião, no Campo da Feira. Somos uma família intrinsecamente vimaranense.

Marta Mestre referiu que o CIAJG deveria estabelecer novas pontes entre Guimarães e a universidade. Como vê essa relação?
Sempre foi primeira intenção relacionar o CIAJG com a Universidade do Minho, procurando que a própria universidade crie disciplinas ou ciclos de conferências relacionados com a arte em geral; não só a arte contemporânea, mas também a não ocidental. O CIAJG tem obras de diferentes zonas do mundo e a interculturalidade é hoje um fenómeno mundial. Grandes museus internacionais, como o Centro Pompidou, fizeram exposições de artistas não ocidentais. Esta penetração da cultura é hoje indispensável.

Como surgiu o Devorador de Automóveis, a obra no polo de Azurém da Universidade do Minho?
A peça nasce porque Guimarães quis oferecer à universidade um presente. Houve um júri que reuniu e me incumbiu de uma obra que simbolizasse o início da universidade em Guimarães. Se repararem na peça, o automóvel é um Ferrari. E na altura Guimarães era a terra dos Ferraris; havia Ferraris por todo o lado. Pus simbolicamente um personagem a devorar os Ferraris. Está instalada numa zona do campus que liga o edifício construído e o Castelo, que simboliza a história. Entre os dois locais existe uma escultura moderna, contemporânea.

Cresceu em Guimarães, expôs em galerias como a Convívio nos anos 60. Como vê a evolução deste território no panorama artístico e a perceção que aqui há da sua obra?
O que os outros pensam não sei. Os artistas plásticos e visuais têm problemas de visibilidade. Quando vamos a um concerto ou ao teatro, o público gosta, bate palmas, e o autor sabe a reação. Os artistas plásticos fazem pinturas e esculturas, mas ninguém lhes bate nas costas a dar parabéns. É sempre muito difícil obter os louros da vitória visivelmente. É um trabalho muito solitário e persistente. É muito difícil trabalhar anos e anos afincadamente e não se saber as consequências futuras da obra que se produz.

Enquanto jovem, teve de se mudar do liceu de Guimarães para o de Braga? Porquê?
No meu tempo, o Liceu acabava no quinto ano. Chegávamos ao quinto ano e íamos todos para as nossas terras. Para quem quisesse continuar a estudar, o liceu mais próximo com o sexto e sétimo anos era em Braga, o Sá de Miranda.

Na juventude passa ao lado da questão desportiva…
Passava os meus tempos livres nos museus que havia em Guimarães: Museu Alberto Sampaio e na Sociedade Martins Sarmento (SMS). Fizeram-me, recentemente, um dos sócios mais antigos da SMS. Sou adepto do Vitória, com certeza, mas nunca estive virado para a prática desportiva.

Como era então o seu tempo livre, para além da escola e dos museus?
Uma das coisas de que gostava muito era subir até à Penha. Antigamente, existia uma escadaria que começava nas Oficinas de São José e levava até ao monte da Penha. Fiz isso muitas vezes, a subir e a descer. Ver a natureza, os penedos e rochas enormes que lá existem e o arvoredo era uma das minhas predileções.

Ainda mantém alguma amizade desses tempos, da juventude?
Cada vez menos, infelizmente. Muitos dos meus colegas já faleceram. Mas ainda tenho colegas de liceu vivos.

Ser vimaranense é algo que fica marcado numa pessoa, por mais que ela conheça o mundo? 
Tenho aqui um livro escrito pelo Pierre Restany, um crítico de arte francês, que se chama José de Guimarães - Le Nomadisme Transculturel em que ele começa o livro com a seguinte expressão: “Podíamos interrogar até ao infinito as razões que levam um artista contemporâneo a adotar o nome da sua cidade natal”. Ele explica que uma pessoa fica sempre ligada à tribo que a viu nascer. Por mais que se viaje e esteja fora, as raízes estão presentes e permanentes quer no seu modo de vida, quer na atuação profissional e artística.

Acha, portanto, normal, que o questionem acerca da razão pela qual acrescenta Guimarães ao nome…
Não acrescentei Guimarães ao nome. Sendo um pseudónimo, é o nome. Passou a ser o nome.

“Os artistas plásticos fazem pinturas e esculturas, mas ninguém lhes bate nas costas a dar parabéns”

O que diria para se caracterizar como artista? 
Primeiro, sou um trabalhador incansável, o que é fundamental para se ser artista em qualquer das modalidades: nas artes plásticas, na música, na representação. Depois, é não desaproveitar oportunidades, quer de ideias, quer de propostas de trabalho.

Se a criação artística é uma odisseia sem fim, o que podemos ainda esperar de José de Guimarães?
Realmente é uma odisseia sem fim. Sendo um criador, um artista é também um trabalhador nato. Desde que acorda até que adormece, não pensa senão na sua atividade como artista. Quanto mais trabalha mais encontra. As viagens ajudam imenso a encontrar novos centros de interesse. Vivi em África por acaso, fui para o México por acaso, tenho estado a trabalhar na Ásia por acaso. Estava longe de imaginar que as minhas obras estariam a ser construídas na China, nomeadamente em Xangai. Vem de todas as relações que estabeleci com o continente.

Num artigo do Observador, datado de 2018, disse que é preciso ir à arqueologia para se conhecer a essência de um território. Qual o papel desta área na sua criação?
Comecei a interessar-me por arqueologia quando vi as primeiras pedras na Sociedade Martins Sarmento (SMS). A determinada altura, passei as férias grandes a estudar a epigrafia latina que existe na SMS. Nos anos 60, fiz um campo de trabalho em Vila Praia de Âncora com o professor [Christopher] Hawkes, da Universidade de Oxford. Desenhava os fragmentos arqueológicos para depois reconstituirmos as peças. Permitiu-me ir às origens. É nas origens que se encontram as verdadeiras culturas dos povos. É através da arqueologia que hoje conhecemos a cultura mexicana, uma cultura extraordinária.

De que forma as viagens pelos países do hemisfério sul têm alimentado a sua obra? 
As viagens proporcionam-nos encontros. Quando estive em África, em Angola, conheci uma tribo, em Cabinda, que tinha um processo de comunicação com objetos que eles próprios produziam. Numa família, tinham a sua casa e os seus objetos como terrinas e panelas; essas panelas eram cobertas com os testos, que eram cobertos com pequeninas esculturas. Quando dispostos de determinadas maneiras, esses testos eram autênticos provérbios que contavam uma história. Na comunicação entre membros da família, usavam esses elementos para entregar os avisos, repreensões e ideias a transmitir. É um processo de populações que não tinham a escrita. Achei esse processo ideal para um artista plástico, eram formas com conteúdo. Ao apropriar-me dessas formas, embora modificadas, estava a transmitir um conjunto de informações cujo processo ideográfico era inteligente.

A apropriação é inevitável na criação de um artista?
Essas formas têm conteúdo moral. Um lagarto com o rabo cortado é uma explicação a outrém de que a sua vida será uma desgraça. Foi pegar nessas ideias, transformá-las e criar o que hoje se chama o alfabeto africano - 140 símbolos que depois usava nas próprias obras. O alfabeto africano data dos anos 70. Neste momento, estou a reinventar um processo de comunicação, inspirando-me nos desenhos na areia das tribos da Lunda [em Angola]; são desenhos feitos com o dedo, que ilustram uma conversa entre duas pessoas. Estão a levar-me a obras de grandes formatos.

O passado e o presente da relação entre países europeus e ex-colónias está na ordem do dia. Como vê a discussão?
Há pouco, recebi uma revista que diz que uma nova história da arte estará a nascer. O próprio diretor sugere que a restituição não seja um gesto seco, mas sim de acompanhamento. Há imensas obras em museus provenientes de outros países. Uma das peças mais conhecidas é a da rainha Nefertiti, que está em Inglaterra. O Boris Johnson disse: “Aquilo não sai da lá nem que me matem”. É uma atitude. Já a França tem, em determinadas situações, restituído algumas peças. Há peças importantes para os países africanos, mas ou há um acompanhamento no futuro ou vai desaparecer tudo outra vez. Porquê? As condições atuais de África não são propicias a que as peças sejam deslocadas. Em África, a produção de peças continua a existir. O facto de haver peças guardadas e conservadas nos museus ocidentais quer dizer que foram salvas de serem destruídas. Quando se fazem exposições de determinadas tribos em zonas da Europa, procura-se agora que a população local seja contactada para se explicar a situação. É um assunto em aberto.

“Há peças importantes para os países africanos, mas ou há um acompanhamento no futuro ou vai desaparecer tudo outra vez”

Arte Perturbadora, manifesto aos pintores inconformistas quando estava em Luanda; o que tinha em mente?
Estamos em 1968, quando o manifesto foi publicado num jornal de Luanda. Aí, havia uma série de artistas e fizemos um grupo. Cito por exemplo António Ole, que é angolano, e o António Palolo, um autor português que também estava lá na tropa. Criámos um certo grupo contestatário. O manifesto teve reações. Até estou admirado que hoje falem no manifesto e no alfabeto africano com a maior das naturalidades, como sendo uma coisa da história de arte. Publiquei três manifestos. O primeiro foi a Arte Perturbadora, que tem como símbolo uma cabine telefónica que está em Serralves. Depois, publiquei outro manifesto, A Ratoeira, cuja obra pertence à cidade de Guimarães. Está hoje no Arquivo Municipal. E há um terceiro manifesto que publiquei em 99, Esta cultura faz-nos velhos.

Estes tempos de pandemia não levariam a um quarto manifesto?
Tenho uma série de trabalhos que fiz sobre a pandemia, mas ainda não chegou o momento próprio. Ainda os considero estudos.

Esta situação pode transformar a vida de um artista? É possível retirar inspiração daqui?
O tema é terrível. As obras que realizei sobre a pandemia são extremamente depressivas. Fazem-me lembrar a Caixa de Pandora; dali só saem coisas más. Sei de artistas que deixaram de pintar pura e simplesmente. E outros que se desorientaram com este processo. A pandemia veio provocar-nos um mal-estar crónico. Não há certezas e não sabe o que vai acontecer. Andamos de máscara. O mundo quase que deixou de ser para nós, humanos. É um mundo em que a gente só vê imagens de hospitais e coisas do género.

A sua vida diária alterou-se…
Tenho procurado usar o tempo trabalhando, produzindo, produzindo e trabalhando. Tenho ocupado o tempo. Devo dizer que nem eu esperava ser tão prolixo na produção. Há coisas que também mudaram um pouco o meu estilo. A minha mão e o meu pensamento estão lá, mas houve uma mudança. Ainda é cedo para mostrar.

Mas a vida é feita em Lisboa? As viagens estão todas canceladas…
Não se pode ir a lado nenhum da Europa que não nos obrigue a ficar duas semanas num hotel ou noutra coisa qualquer. Não se pode andar na rua. Em Paris, onde tenho a minha casa, a situação é difícil e complicada. Em Lisboa, é casa e atelier, atelier e casa. Não janto com pessoas de fora. Não há um café para ir. A pandemia trouxe uma coisa curiosa; as pessoas têm medo. As pessoas estão com medo, porque isto não é controlável e ataca a todos. Não há bons e maus, ricos e pobres. É a direito.

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