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As ruas do futuro devem ser para todos e usadas para dezenas de fins

Tiago Mendes Dias
Cultura \ sábado, novembro 11, 2023
© Direitos reservados
Apresentado na Garagem Avenida, o livro “The future design of streets” propõe a partilha de usos nas ruas dos centros urbanos por crianças, adultos e mais velhos, em vez da supremacia do carro.

Assim que se abre o livro “The future design of streets”, de capa amarela com título a letras negras, sobressaem duas páginas com as ilustrações de 56 possíveis usos para uma rua urbana: ela pode servir para o trânsito automóvel e para o estacionamento como é norma na maioria em muitas das cidades portuguesas, mas pode servir para andar, para ler, para brincar, para conversar, para andar de bicicleta, para se praticar desporto, para um evento cultural, para relaxar e até para dormir.

Esses desenhos ilustram o paradigma exposto pelos autores Daniel Casas-Valle, Ivo Oliveira e Catarina Breia Dias no livro apresentado na quinta-feira, na galeria da Garagem Avenida, numa conversa moderada por Abel Coentrão, jornalista com um extenso trabalho sobre mobilidade e uso dos espaços urbanos. A ideia principal da obra promovida pela associação The Future Design of Streets é a de que as ruas das cidades devem ser lugares para uma infinidade de usos por crianças, adultos e mais velhos.

Criado na sequência de quatro webinars, uma conferência internacional realizada no Porto, três sessões em diferentes cidades – Porto, Braga e Valência -, apresentações em eventos científicos e exposições, o livro analisa a evolução do desenho das ruas, desde o seu alargamento para a mobilidade automóvel em meados do século XX, e analisa o planeamento de uma rua a partir de 10 tópicos: a porosidade urbana – relação entre os espaços públicos e privados numa rua -, os tipos de ruas – comercial, residencial ou jardim, por exemplo -, as atividades que acolhe, o uso do rés do chão dos edifícios, as plantas e os solos, a água e o ar, a caminhabilidade, a mobilidade e a acessibilidade, as intervenções reversíveis e as prioridades – monitorização dos usos ou participação dos cidadãos, por exemplo.

 

 

Lugares diferentes acarretam transformações diferentes

Urbanista ligado à Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto, Daniel Casas-Valle realçou que é possível desenhar um milhar de ruas diferentes e que a beleza é um aspeto que deve ser tido em conta, mencionou as transformações de espaços urbanos em Pontevedra, Vitória, Barcelona ou Milão, cidade onde houve processos com muita participação dos cidadãos, e frisou que os desenhos das ruas devem variar de país para país e de cidade para cidade, consoante a urgência dos desafios: se a opção de Amesterdão pela mobilidade ciclável permitiu reduzir as emissões de dióxido de carbono e uma transição energética na cidade, há cidades na Alemanha recentemente afetadas nas cheias que devem ter a adaptação às alterações climáticas como prioridade. O sistema de entregas, face ao crescimento do comércio eletrónico e das encomendas de comida ao domicílio, é outro aspeto a merecer reflexão.

Arquiteta formada na Universidade de Lisboa, com passagem recente pelo Laboratório de Paisagens, Património e Território (Lab2Pt) da Universidade do Minho, Catarina Breia Dias realça que a transição do paradigma das ruas exige atenção às várias dimensões da cidade - a da “cidade inclusiva” ou a da “cidade saudável”, por exemplo – e lamenta a falta de ligação entre diferentes setores da academia para projetos colaborativos, que incorporem diferentes ramos do conhecimento.

Ivo Oliveira reconheceu, por seu turno, que é preciso juntar professores, estudantes, municípios para se pensarem as ruas, contrariando a ideia de um “espaço vazio” que separa as universidades da sociedade, e alertou que a tipologia da rua pode exigir a intervenção de técnicos diferentes: uma rua desenhada para transporte requer a intervenção de um determinado conjunto de técnicos; uma rua como local ecológico exige um outro grupo.

Vice-presidente da Escola de Arquitetura, Arte e Design (EAAD) da Universidade do Minho, o arquiteto considerou também que os municípios devem estar atentos a experiências temporárias ou reversíveis, como o encerramento do trânsito de determinadas ruas aos domingos, antes de avançarem para uma obra pública. Ivo Oliveira revelou ainda que a EAAD vai disponibilizar uma formação específica em desenho das ruas a partir de fevereiro de 2024.

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