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Manuela Juncal e a clandestinidade: "As pessoas eram pobres, não submissas"

Pedro C. Esteves
Sociedade \ sábado, abril 23, 2022
© Direitos reservados
Manuela Juncal nasceu no Porto, passou pelos EUA e esteve em Brito na clandestinidade. Nesta entrevista, fala do medo, da "implantação", e da dupla identidade de uma operária que não o era.
(Na foto, da esquerda para a direita, está Rui Loza, Rosa Moura - mãe de Virgínia Moura -, Virgínia Moura e Manuela Juncal)

1972, Brito. Manuela tem 22 anos e faz vida como operária numa fábrica do Vale do Ave. Ganha 7$50 por dia, mora numa casa sem luz elétrica, água canalizada e saneamento. Cozinha num fogão de dois bicos, lava a roupa num tanque comum, partilha o WC – a casinha de madeira no quintal que mais não é do que uma tábua com um buraco –, com a vizinha. “Nelinha”, como era conhecida, vivia como mais uma tecedeira numa região a transbordar de mulheres que passavam a jorna na companhia do matraquear incessante de um tear. Mas não era mais uma.

Havia indícios. A tecedeira que ganhava 15 escudos por quinzena comprava “todos os santos dias” o Comércio do Porto – o “único jornal que havia na ‘venda’” – e a identidade que apresenta na fábrica – Manuela Gonçalves – não é verdadeira. Manuela, sim. Mas Juncal. Nasceu no Porto, no seio de uma família burguesa: o pai, o advogado comunista Orlando Juncal, esteve preso até 1948. Passaria pelos Estados Unidos da América e esteve na crise académica de 1969, espoletada pelas reivindicações da comunidade estudantil. À greve e à falta aos exames assumidos pelos estudantes respondeu o governo com a prisão e a mobilização para a guerra do ultramar.

Manuela (a mais à direita na fotografia, ao lado de Virgínia Moura) estava em Brito em “implantação”, prática de colocar estudantes de origem burguesa em meios operários. Chega a Guimarães por intermédio da OCMLP (Organização Comunista Marxista-Leninista Portuguesa). "No eixo Famalicão-Guimarães concentravam-se algumas das maiores fábricas têxteis do país – Têxtil Manuel Gonçalves, Riopele, Coelima, Somelos – e trabalhavam nessa época muitas dezenas de milhares de operários. Era aí que queríamos estar. Isso era a implantação, irmos viver juntamente com os operários”, explica.

Agora com 72 anos, recorda ainda nesta entrevista mediada pela tecnologia como foi o dia 25 de abril de 1974, quando ouviu a "boa nova" num autocarro a caminho de uma têxtil em Ronfe. 

Jornal de Guimarães (JDG): A Manuela chega em Fevereiro de 1972 a Brito, vila de Guimarães, para a “implantação”. Mas podemos começar antes. Pode recordar um pouco a infância no Porto e como se foi moldando a nível ideológico?

Manuela Juncal (MJ): Nasci no Porto, em fins de 1949, em casa dos meus avós paternos na Rua de Santa Catarina e vivi lá até quase aos quatro anos. Quando nasceu a minha irmã mudamos para uma casa nova na recém aberta Rua do Bom Sucesso. Foi uma infância feliz, com espaços exteriores e outros meninos para brincar. O meu pai, Orlando Juncal, era advogado e comunista e tinha estado preso até 1948. A minha família não tinha dificuldades financeiras. Vivíamos bastante bem. O meu pai falava muito comigo e depressa aprendi que não se podia falar a ninguém dos amigos que iam lá a casa à noite conversar, porque, como ele dizia, havia uns homens maus que não queriam a liberdade. Não me demorou muito a ter a prova disso quando uma madrugada a PIDE nos bateu à porta, revolveu a casa e levou o meu Pai preso. Eu teria cinco ou seis anos.

 

JDG: O percurso académico e de vida leva-a aos Estados Unidos da América. Penso que esteve lá durante um ano. O que vê potencia algum tipo de urgência em agir, de integrar quadros de organizações, como mais tarde fez?

MJ: Em parte, sim. Vivi nos Estados Unidos da América nos anos da contestação da guerra do Vietname, dos motins pelos direitos civis em Newark, das canções de protesto, de nomes como Bob Dylan, Joan Baez, Martin Luther King ou Angela Davis. Eu vivi em Denver, no Colorado, um estado sem segregação racial e na minha escola, com quase 4 000 alunos, cerca de metade eram negros. As manifestações eram permitidas. Os alunos tinham eleições para o student council (conselho de estudantes) e outros órgãos estudantis. A escola tinha dezenas de atividades extraescolares, incluindo atividades políticas. Para mim, era um deslumbre. Ainda assim os rapazes fugiam para o Canadá por causa da guerra. Mas quando voltei não era a sociedade americana que me inspirava. O que eu sentia, mais que nunca, era a reação de raiva espontânea àquele país que me parecia agora dez vezes mais cinzento, horrivelmente pobre e analfabeto, em que as meninas não iam além da terceira classe, porque não 'valia a pena' e as jovens não iam ao café porque “parecia mal”. Os meninos andavam descalços e as pessoas deslocavam-se a pé para ir à vila ou ao trabalho.

 

JDG: Esteve na crise académica de Coimbra, em 1969, e esteve na resistência durante muitos anos. Chegou a receber alguma convocatória por parte da PIDE?

MJ: Sim. A partir de 1968 o movimento estudantil no Porto sofreu mudanças fortes. O Maio de 1968, em França, no mesmo ano a invasão russa da então Checoslováquia, que tinha começado um caminho autónomo de liberalização com a eleição de Vaclav Havel, radicalizaram o movimento e começaram a formar-se grupos diferentes do Partido Comunista Português, ainda sem definição ideológica, de onde mais tarde saíram maoistas, trotskistas, anarquistas e outros. É neste contexto que em 1971 se levanta uma enorme polémica sobre trazer ou não para o Porto a “Serenata” de Coimbra. O Porto, da Queima, só tinha o Cortejo, a imposição de insígnias e um baile. E ninguém queria a Serenata, com aquele fado que nada nos dizia, cantado por tenores duvidosos. Organizou-se um boicote ao qual apareceram muitas centenas de estudantes. O suficiente para não haver serenata. Na sequência desse boicote, recebi em casa dos meus pais um postal para me apresentar para prestar declarações. Deixei de viver em casa dos meus pais e começamos a preparar a nossa ida para a clandestinidade.

 

Tito Amorim, então companheiro de Manuela Juncal, nas Manifestações culturais de apoio ao luto académico de 1969 © Manuela Juncal

Tito Amorim, então companheiro de Manuela Juncal, nas Manifestações culturais de apoio ao luto académico de 1969 © Manuela Juncal

 

JDG: Uma dessas organizações que surge é a Organização Comunista Marxista-Leninista Portuguesa (OCMLP). É através dela que começa a sua “implantação” em Brito. E o que é isso de "implantação" no Vale do Ave?

MJ: O Vale do Ave era, a Norte, o nosso rust belt (cintura da ferrugem nos EUA que abarcava regiões industrializadas). No eixo Famalicão/Guimarães concentravam-se algumas das maiores fábricas têxteis do país - Têxtil Manuel Gonçalves, Riopele, Coelima, Somelos, e dezenas de outras. Ao todo, no Vale do Ave trabalhavam nessa época muitas dezenas de milhares de operários. E era aí que queríamos estar. Isso era a “implantação" irmos viver juntamente com os operários. A classe a quem, segundo Marx, pertencia o futuro.

 

JDG: O que encontrou em Brito surpreendeu a Manuela? Tendo em conta que é filha de uma família burguesa e podia nunca ter contactado com operárias fabris.

MJ: Não me surpreendeu. Eu conhecia a pobreza dos camponeses e no Vale do Ave o modo de vida era misto. Os operários tinham o seu terrenito onde trabalhavam nos momentos livres e fins de semana. Havia batata, couve, nabiça, nabo, pimento e, às vezes, uma galinha que dava ovos, enquanto não se comia. Mas claro que havia uma enorme distância entre a vida rural que eu conhecia e a vida operária do Vale do Ave. As pessoas eram pobres, mas não submissas. Havia muitas conscientes dos seus direitos laborais.

 

JDG: Passa aqui cerca de dois anos e meio. Como se mantinha informada acerca do que se passava fora do Vale do Ave?

MJ: Eu lia o Comércio do Porto. Curiosamente era o jornal mais ligado ao regime dos três que se publicavam no Porto, os outros eram O Primeiro de Janeiro e o Jornal de Notícias. Mas era o único que havia. Não sei o que pensavam na “venda” mas eu comprava o jornal todos os santos dias e não era uma despesa comum para quem ganhava cerca de 15 escudos por quinzena. Também tínhamos a imprensa da OCMLP que, como o camarada que fazia a ligação com o partido (o controleiro), só aparecia esporadicamente - às vezes um mês, às vezes mais.

 

JDG: Quais eram as condições da casa? O único contacto que mantinha com alguém da sua “esfera” era o seu marido, Tito Amorim?

MJ: Sim. Além do controleiro, a única pessoa com quem eu contactava, que me conhecia e sabia quem eu era era o meu marido, Tito Amorim, um dos líderes estudantis da crise académica de Coimbra de 1969 e que foi um dos estudantes expulsos da academia - que em vez de ir para a tropa, fugiu e foi para França. Em 71 estava de volta já com a ideia de passar à clandestinidade na implantação. A clandestinidade (viver com papéis falsos, outros nomes, idade e origens) não permitia entrar em contacto com a família e menos ainda com os amigos. As condições da casa eram péssimas, mas não piores que muitas das casas de Brito. A casa não tinha luz elétrica. Tínhamos um fogão a gás de dois bicos, um Petromax e velas. Não tinha água corrente. Ia-se buscar água a cântaro ao poço, lavava-se a roupa no tanque comum e o “banho” era numa bacia grande de plástico e um regador com água morna. Para mim o pior de tudo era a sanita, uma casinha de madeira no quintal, com assento de madeira, para dentro da qual se deitavam fetos depois de terminada a função. Era partilhada com a minha vizinha que de vez em quando ia lá para tirar o esterco para adubar o quintal.

 

JDG: Como se passava o tempo? 

MJ: O tempo passava-se sobretudo a trabalhar, na fábrica e trabalho doméstico. Quando não trabalhava, lia. Coisas da organização, mas também livros e, claro, ao almoço, sempre o jornal. O Tito, como muitos dos homens, trabalhava no turno da noite - das 22h00 às 6h00 -, pois ganhava-se mais 25%. Chegava a casa depois de eu sair e geralmente não acordava antes das 15h00. Eu preparava a comida para os dois, mas não esperava por ele para comer. Depois estávamos algumas horas juntos, até ele sair às 21h00. Eu dormia sozinha e de início tinha medo. Solidão e medo, duas coisas más entre outras boas.

 

JDG: Uma das boas acontece naquela manhã de Abril de 1974. Lembra-se do dia 24?

MJ: Se me lembro. Na noite de 24 para 25, lá para as 05h00 da manhã -- eu entrava na fábrica às 6h e acordava por volta das 5h -- vem um vizinho a correr: 'Ó Nélinha, ó Nélinha, houve um golpe em Lisboa. É de militares'”. Fiquei tão aparvalhada que nem lhe perguntei como sabia. Mas já era a rádio a chegar. Quando entrei na camioneta para ir para um têxtil, em Ronfe, o pica-bilhetes e o motorista iam em cima do rádio que estava baixinho, quase não se ouvia. Só mais tarde na venda onde íamos comer a bucha das 10h30h já se ouvia a televisão. As pessoas entreolhavam-se. Mas não comentavam alto. O turno da noite fez greve e chamaram a GNR. Houve barulho mas pouco.

 

JDG: Regressa ao Porto doente, com hepatite, já depois do 25 de abril de 1974. Alguma vez voltou a Brito?

MJ: Voltei frequentemente a Guimarães, onde tenho amigos. E voltei duas vezes a Brito. Uma para mostrar ao meu segundo marido onde tinha vivido na clandestinidade. Outra para fazer o mesmo com um pequeno grupo de amigos. Da segunda vez, a casa já não existia.

 

Nota: as fotos que ilustram o artigo foram gentilmente cedidas por Manuela Juncal. Na foto de abertura, da esquerda para a direita, é com Rui Loza (também da OCMLP), Rosa Moura - mãe de Virgínia Moura, Virgínia Moura e Manuela Juncal. Foi tirada na Beira Alta, numa propriedade do marido de Virgínia Moura, o arquiteto Lobão Vital.

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