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Nos Himalaias, um vimaranense na linha da frente pelos direitos indígenas

Bruno José Ferreira
Ciência & Tecnologia \ domingo, maio 26, 2024
© Direitos reservados
Do Areal, em Polvoreira, Vítor da Silva lançou-se à descoberta do planeta. Etnógrafo, vive nos Himalaias e trabalha com comunidades indígenas. Está a rodar um filme para mostrar o que ameaça direitos.

Num lugar remoto dos Himalaias, a mais alta cadeia de montanhas do mundo, distribuída por cinco países, há um vimaranense como habitante. Com casa “feita de lama e de pedra”, mas sem morada num local em que esse tipo de formalidades é o menos importante, Vítor da Silva coabita com “leopardos da neve, ursos e outros animais” numa “aldeia com três casas”. O carro tem de ficar a 40 minutos e o resto do percurso tem de ser feito “floresta adentro”. “Para nós, a vida simples é a mais gratificante”, conta ao Jornal de Guimarães o jovem que há 33 anos nasceu no “hospital velho”.

Rebobinemos o filme da vida de Vítor da Silva, com uma narrativa que se iniciou em Polvoreira. “Cresci livre na floresta, pelo monte, a fazer cabanas, subir às árvores e brincar com fisgas no Areal”. Há duas décadas, o traçado da autoestrada A7 rompeu essa realidade. “Desenvolvimento”, atira Vítor num tom algo jocoso. “Quando fiz 12 anos, cortaram a floresta para fazer passar a autoestrada e os meus pais foram empurrados para a cidade”, relembra. Mudou-se com a família para as Cancelas da Veiga, Azurém, onde “as brincadeiras eram completamente diferentes”.

A prestação escolar ressentiu-se: “Passei uma crise”. Essa crise levou-o a arrastar-se quatro anos pelo oitavo ano. “Não ia à escola”. Como “não acreditava na escola”, acabou por fazer serviço militar. “Ao olhar para trás, a tropa foi interessante. Sinto que estava à procura de um significado para a vida”. Mas, o serviço militar “foi apenas uma passagem” que antecedeu o regresso de Vítor da Silva à sala de aula, onde viria a construir um vasto currículo. Estudou Artes na Secundária Francisco de Holanda, rumando depois a Glasgow, para estudar numa das melhores escolas. “Pensava que queria ser artista”, diz, acompanhando-se de uma gargalhada.

 

Entre o Areal e a Amazónia: o “empurrar para o desenvolvimento”

Ponto prévio: “Sempre fomos uns rotos”, diz Vítor da Silva, acrescentando Nikita, a sua esposa, à trama. “As pessoas podem pensar que ando a viajar pelo mundo porque tive um berço de ouro, mas não é nada disso”, continua, com um discurso fluido em português onde sobressai uma ou outra sequência em inglês. Nikita apenas entraria na vida do vimaranense mais tarde; viriam a conhecer-se em Londres. Pelo meio, Vítor da Silva guinou mais uma vez no seu percurso, estudando Investigação Criminal e Ciência Forense. Com o curso prestes a terminar, já tinha em mãos a possibilidade de trabalhar na polícia inglesa, em Londres. “Não era bem o que queria, mas, já que tinha a oportunidade, experimentei e ganhei uns trocos. Aprendi muito, ganhei ferramentas, mas queria algo com impacto no mundo”.

O sistema de estudo aberto, em que se privilegiam unidades curriculares e não áreas de estudo, deu também a Vítor da Silva a possibilidade de estudar antropologia. Nessa sequência, um mês no Quénia junto de uma comunidade indígena criou o “bichinho” por essas lides. “Um choque em que aprendi muitas coisas, os desafios dessas comunidades”. Essa oportunidade foi o clique que faltava para o vimaranense regressar à universidade, então para estudar Direitos Humanos na prestigiada London School of Economics, uma das mais reconhecidas universidades do mundo. É nesta altura que conhece Nikita – estudava Direitos Humanos noutra faculdade. A partir daí, pensaram num projeto no qual pudessem pôr em prática os seus conhecimentos e, sobretudo, aquilo em que acreditam.

De lá para cá, Vítor já teve contacto com comunidades indígenas na Amazónia, quando o anterior presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, encetou uma desflorestação considerável na maior floresta do mundo. Tal como noutras aventuras em locais remotos, junto de populações indígenas, tentou “perceber como podia usar as ferramentas adquiridas para as ajudar”: “Percebi que os mesmos tipos que me empurraram do monte para a cidade, que acreditavam saber o que seria melhor para a gente que lá vivia, no Areal, são os mesmos – em sentido figurado – que querem fazer a mesma coisa para estas comunidades, empurrando-as do lugar que sempre conheceram, para o desenvolvimento”, reitera, temperando a última palavra com ironia.

 

Experiências alucinogénias, medicinas indígenas e elefantes a poucos metros  

As comunidades indígenas por onde passou sempre o receberam “de braços abertos”, vinca. Ousou estar no terreno, destacando-se dos colegas que fizeram “sobretudo trabalho de secretária e de revisão literária”. Através das redes sociais (ethnopoet no Instagram) e de um filme que está a produzir junto de uma comunidade algures na Ásia, tenta expor de ameaça às rotinas daqueles povos. “Só 5% da população mundial é indígena, mas «controla» 80% da biodiversidade do mundo”, explica.

Pelas suas andanças, verdadeiras “aventuras”, passou “por coisas que não estava à espera”, reconhece: o “vasto reportório de medicinas indígenas”, plantas alucinogénicas, momentos de aperto junto de animais selvagens. Recorda o episódio a escassos metros de uma manada de sensivelmente 15 elefantes, desviados da sua rota natural devido a alterações provocadas pelo homem no ecossistema: “Um nativo, pequenito, pôs-se em frente a eles. Questionei o que estaria a fazer. Explicou que estava a tentar não demonstrar medo, para que pudessem seguir”.

Para além dos imprevistos desse estilo de vida, o vimaranense e a sua esposa indiana continuam o seu “trabalho perigoso, undercover” no continente Asiático. A extração de recursos naturais que coloca em causa a subsistência de povos indígenas “implica governos, uma megacorporação que mexe com muito dinheiro”. A luta está a ser vertida em filme, em fase de pós-produção. “Esperamos que possa estar pronto no próximo ano e que chegue a muita gente, a uma audiência global”, anuncia. A 11 e 12 de maio, o vimaranense do Areal esteve no Teatro Jordão. Foi um dos oradores do ABVP Travel Fest. “Uma enorme honra, importantíssimo para mim”, conclui. Já regressou aos Himalaias, à aldeia com três casas: “A minha vida é lá com a minha esposa. Queremos viver em paz, de forma simples e gratificante”.

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