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O fado era batido — dançado — e Jonas&Lander vêm a Guimarães para o lembrar

Pedro C. Esteves
Cultura \ sexta-feira, junho 17, 2022
© Direitos reservados
O fado também já teve danças próprias. O século XX atirou-as para o esquecimento, mas Jonas&Lander recuperam-no para a sua mais recente criação. "Bate Fado" sobe ao palco do CCVF este sábado.

Quem passasse na sala de ensaios do Centro Cultural Vila Flor (CCVF) e visse quatro bailarinos de tamancos calçados a dançar em roda a ritmo acelerado não diria que por ali se limam arestas para um espetáculo chamado “Bate Fado”.

É a mais recente criação de da dupla de coreógrafos Jonas&Lander (Jonas Lopes e Lander Patrick ), um espetáculo híbrido entre dança e Fado. Sim, dança e fado. É que o que vai subir ao palco do CCVF este sábado tem por base uma vertente não muito conhecida do fado – era dançado. Jonas Lopes explica: “Um dos maiores mistérios é porque é que este episódio da nossa história desapareceu da memória coletiva. Poucos sabem que o fado era dançado”.

Como todas as formas de expressão musical urbana, desde o samba, ao flamenco, sem esquecer o fandango, “têm uma dança associada”. “E o fado não foi excecão”, acrescenta. Só que o fado batido foi perdendo fulgor, representação. É esta dimensão boémia e de festa que Jonas&Lander propõem-se a reinterpretar e a recuperar: o ato de se bater (sapatear) o Fado.

Um campo inexplorado

Não há hipótese de recriar a dança de forma exata porque não foi filmada. Por isso, Jonas Lopes e Lander Patrick ouviram testemunhos, esmiuçaram a Biblioteca Nacional, contaram com o apoio do Teatro Gil Vicente e da investigadora Teresa Gentil para encontrar documentos ou desenhos – não existem, por exemplo, registos de pessoas a dançar fado com guitarra e viola como encontramos nas caricaturas do Bordalo Pinheiro. “Os primeiros registos que há vêm do Brasil”, na primeira metade do século XIX, assinala Patrick. Jonas complementa: “O fado nasce entre Lisboa e Rio enquanto dança e música. Os livros começam por falar do fado como dança, mas a voz e melodia começaram a ganhar espaço”.

O fado dançado é um “campo inexplorado”. Os últimos registos são de 1907, adianta Jonas Lopes. Com o século XX, “higienizou-se” a forma de expressão. Das baiucas e tavernas, a música passou para as casas de fado. “O espírito do fado era desorganizado, foi sendo penteada com a ditadura. Era uma coisa promiscua, desorganizada”, relata Lander Patrick 

Essa promiscuidade passa também para palco, onde vão estar nove performers: quatro bailarinos, quatro músicos e um fadista (que também dança) – o próprio Jonas. O espetáculo chega a Guimarães depois de ter estreado no DDD - Festival Dias da Dança em 2021. Foi aplaudido pelo público e considerado um dos melhores espetáculos de 2021 pela crítica especializada.

Jonas&Lander cruzaram-se na Escola Superior de Dança aquando da formação académica, iniciando uma colaboração que se tornou reconhecida no panorama da dança portuguesa como sendo detentora de uma forte assinatura de autor, de contornos singulares, que explora a fusão entre distintas artes cénicas, com especial destaque para a música. Esta marca é desde logo aflorada em “Cascas d’OvO” (2013), a sua primeira cocriação, onde o sentido rítmico é vertiginosamente usado como fio condutor de toda a peça. O trabalho autoral de Jonas&Lander conta com um variado leque de peças como “Matilda Carlota” (2014), “Arrastão” (2015), “Adorabilis” (2017), “Lento e Largo” (2019), “Coin Operated “(2019) e “Bate Fado” (2021).

Bate Fado sobe ao palco às 21h30. O custo do bilhete é 10 euros ou 7,50 com desconto.

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