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O homem que sacrificou (quase) tudo pela liberdade tem nova biografia

Tiago Mendes Dias
Política \ terça-feira, setembro 06, 2022
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Ilustre matemático em potência, resistente às ditaduras, republicano, delgadista, “federador”: as cores que preenchem "Emídio Guerreiro – sob o despotismo da liberdade", biografia de Luís Farinha.

Os 105 anos da vida de Emídio Guerreiro desdobraram-se em tantas facetas quantas necessárias pela defesa e garantia do bem a que sempre se dedicou como supremo: a liberdade. Por ela, viu-se despojado de uma carreira como matemático, na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, e foi preso, em 1932. Escapou-se do Aljube e fugiu para Espanha, onde viria a combater ao lado dos Republicanos na Guerra Civil. Foi depois para França e integrou a resistência ao nazismo na Segunda Guerra Mundial, em Montauban (sul do país), como maquis – guerrilhas dos territórios rurais.

Mais tarde, foi próximo de Humberto Delgado a partir de Paris e ajudou a moldar a democracia portuguesa como a conhecemos. “Podia ter vindo para Portugal nos anos 40 e não veio, como quase todos os outros – Jaime Cortesão, Bernardino Machado, os comunistas”, recorda Luís Farinha, historiador e autor da sua mais recente biografia, Emídio Guerreiro – sob o despotismo da liberdade, uma edição da Assembleia da República lançada em novembro, incluída na coleção Parlamento. “Foi um homem de enorme intransigência nos valores. Fez sempre tudo no limite do que era possível. A sua atividade está quase sempre no cume da navalha”, resume.

Ao estudar um homem a partir do qual se “percebe o século XX português”, o investigador do Instituto de História Contemporânea (Universidade Nova de Lisboa) encontrou dados novos na pesquisa documental – homem que recorria ao “marxismo crítico” para analisar o capitalismo, Emídio Guerreiro filiou-se no PCP durante a Guerra Civil de Espanha, sendo expulso no mesmo período – e aprofundou o papel do vimaranense na cisão da oposição social-democrata a Salazar, depois materializada na formação do PS e do PPD (PPD/PSD a partir de 1976).

Depois das eleições a que concorreu Humberto Delgado, em 1958, e do falhado golpe de Beja – 31 de dezembro de 1961 e 01 de janeiro de 1962 -, a oposição à ditadura reuniu-se na Frente Patriótica de Libertação Nacional, com sede em Argel, mas a “impossibilidade de unidade entre as várias famílias políticas” leva à “afirmação do campo social-democrata”, descreve o autor.

Esse campo estava, porém, longe de ser uniforme: de um lado estão Emídio Guerreiro e o Grupo do Norte, “delgadistas”, que creem no golpe militar como única via para a queda do Estado Novo, e do outro Mário Soares e Tito de Morais, precursores do PS, acrescenta Luís Farinha.

 

“Foi um homem de enorme intransigência nos valores pela vida fora. É sempre tudo no limite do que era possível. A sua atividade está quase sempre no cume da navalha”, Luís Farinha, autor de Emídio Guerreiro – sob o despotismo da liberdade

 

É o ativista pela liberdade que desencadeia a formação de “uma comissão de juristas internacionais” com vista ao aparecimento do corpo do general, morto em 13 de fevereiro de 1965 na fronteira luso-espanhola, pela PIDE. “A descoberta e a punição dos assassinos passa a ser um dossiê fundamental para ele”, afirma o biógrafo.

Defensor da operação militar, Emídio Guerreiro envolve-se ainda na criação da Liga de Unidade e Ação Revolucionária (LUAR), em 1967, antes do 25 de Abril trazer a brisa de liberdade por que ansiava – costumava dizer que renascera com a Revolução dos Cravos. Abertas as portas do regime democrático, foi ainda decisivo no caminho que o PPD viria a seguir. Secretário-geral interino durante o Verão Quente de 1975, é o defensor da linha mais social-democrata do partido, em divergência com a ala “mais liberal” de Sá Carneiro. A cisão definitiva ocorre no congresso de Aveiro, a 08 de dezembro de 1975: Emídio Guerreiro é um dos 21 deputados na Assembleia Constituinte que deixa o partido.

 

Emídio Guerreiro na Comuna, loja maçónica no Porto (é o segundo à esquerda na fila de baixo)

Emídio Guerreiro na Comuna, loja maçónica no Porto (é o segundo à esquerda na fila de baixo)

 

Um homem que “recebe toda a gente”

Graças à “abundante” documentação que encontrou, parte dela em Guimarães, o historiador realça que o biografado, além de “corajoso” e “convicto”, foi um “federador”. “Recebe toda a gente: republicanos, socialistas, comunistas, desertores da Guerra Colonial. Consegue ligações com todos os núcleos de exílio da América Latina”, descreve.

Masca inclinação para criar laços ultrapassava os horizontes da política. Estendia-se também à família emigrada; a referência do século XX recebeu em sua casa o pai de outro Emídio Guerreiro, secretário de Estado do Desporto entre 2013 e 2015. “O meu pai viveu em casa dele quando emigrou. Eu nasci na Suíça. Ia-nos visitar”, recorda o militante do PSD.

A relação com o seu primo floresceu a partir de 1983, quando tirou a carta de condução e se tornou seu motorista. Por essa altura, o antigo maquis já passava meio ano em Paris – o inverno – e meio ano em Portugal, repartindo o tempo pela Guimarães natal, por Lisboa e pelo Porto. Em jantares ou viagens, testemunhou as memórias de um republicano que lutou pela “liberdade com bem último”, com a “palavra”, com a “caneta” ou de “pistola na mão”, apesar do tremendo custo pessoal. “Ele é o grande herói da família toda, exceto da família mais próxima. Ele saiu em 1932 e voltou em 74. Deixou a mulher e os dois filhos em Lisboa. Era o inimigo público número um de Salazar. Foram vidas difíceis”, sublinha.

 

Emídio Guerreiro (à esquerda) numa cerimónia solene em Guimarães

Emídio Guerreiro (à esquerda) numa cerimónia solene em Guimarães

 

“Sessões de sapiência”

Fernando Capela Miguel corrobora o retrato de “homem altamente coerente”, com “honestidade e verticalidade ímpares”, nos sete anos em que conviveu com Emídio Guerreiro, os últimos da vida que acabaria por findar em 2005. O professor e histórico dirigente associativo de Guimarães recorda um democrata que “gostava muito de relações mundanas”, reunindo, todas as quintas-feiras, um grupo de amigos para jantar. Escolhia o restaurante, o prato e o tema que se discutia à mesa: ciência política, religião, maçonaria – foi maçom na Loja Comuna, do Porto, nos anos 20 – ou a sua matemática. “Assisti a inúmeras sessões de sapiência. Uma vez convidamos um engenheiro da Universidade do Minho. Senti-me pequenino e ignorante a ver um homem de 20 anos e outro de 100 falarem de geometria e álgebra”, recorda.

Capela Miguel foi uma das pessoas que desmontou a casa de Emídio Guerreiro em Lisboa, tendo encontrado um documento sobre um dos teoremas de Fermat, matemático francês do século XVII; era o tema para o doutoramento que não chegou a completar. Ao falar desse traço do seu biografado, Luís Farinha julga que se perdeu alguém “seguramente ilustre” na matemática. “Era um homem com valor na área, mas abdicou de uma carreira universitária em nome da liberdade”, sintetiza.

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