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Os serviços que ocupam as “horas mortas” do comércio

Tiago Mendes Dias
Economia \ terça-feira, dezembro 21, 2021
© Direitos reservados
Já lá vai o tempo em que os centros comerciais se apinhavam de gente. Em casos como o Santo António ou o Fundador, as frações estão mesmo devolutas. No Villa ou no Palmeiras afirmam-se os serviços.

Sem fim (ou início) à vista, o corredor reveste-se de claridade, de luzes a piscar, de enfeites a dar calor ao verde esbatido das árvores e de figuras de gesso que tentam evocar o aconchego proclamado nesta quadra. Através dos intercalados lanços de escadas (ou das rampas escorregadias), o Natal reflete-se nas montras decoradas com roupa ou calçado, nas mesas dos cafés, no quiosque e nos (poucos) espaços adornados com a placa “vende-se ou aluga-se”.

Quanto a clientes, com a característica travagem e rodar de cabeça para apreciar o produto, contam-se pelos dedos das mãos. É um contraste vincado com o panorama de há 30 anos. “Olhava-se para o corredor e só se viam cabeças”, recorda Salete Pinto, enquanto aponta para o escasso caudal do centro comercial Villa.

A comerciante mantém a loja de roupa íntima desde o início da década de 90; soube que as senhoras que exploravam aquela fração queriam trespassá-la e arriscou, juntamente com a irmã. À época, centros comerciais e galerias incrustados no edificado urbano atraíam “muita gente”. E aquele espaço na Avenida D. João IV era o “número um” de Guimarães, lembra. “Ao fim de semana, precisava da ajuda da minha irmã e de uma empregada. Tínhamos muito trabalho e ganhou-se dinheiro. Agora, infelizmente, há horas mortas. O Natal dá mais um bocadinho, mas não chega. Fora disso, está tudo muito parado”, compara.

As causas para o afrouxar do seu negócio encontra-as na abertura do São Francisco, outro dos centros comerciais da cidade, aberto em 2000, e nas grandes superfícies, principalmente: o Guimarães Shopping, a funcionar desde 1995, e o Espaço Guimarães, inaugurado em 2009. Nessas catedrais do consumo, a oferta é maior e mais concentrada e os artigos mais baratos. “As jovens vão para as grandes superfícies. Não querem dar 50 euros por um pijama. Vão aos de 15 ou aos de 30. Estes produtos têm outra qualidade, com outros acabamentos, mas as jovens não ligam a isso. Desde que deem para a estação, acabou”, observa.

Com dificuldades em renovar a clientela, feita de “senhoras com uma certa idade”, Salete Pinto só se apercebe do tempo que se vive graças à decoração envolvente. “Tenho as minhas clientes habituais, mas com o frio, a chuva e a covid-19, elas começam a meter-se outra vez em casa. Não parece mês de Natal”, constata.

 

Corredor do Villa, centro comercial inaugurado em 1982 © Hugo Marcelo/JdG

Corredor do Villa, centro comercial inaugurado em 1982 © Hugo Marcelo/JdG

 

Serviços que cortam os silêncios

Inaugurado em 1982, o Villa foi uma referência na onda de centros comerciais e de galerias que invadiu Guimarães nas décadas de 80 e de 90 do século XX, acompanhando uma tendência nacional que se iniciara nos anos 70, em Lisboa e no Porto; na cidade-berço, acompanharam-no o Castelo, o Fundador, o Palmeiras, o Santo António, o Triângulo e o São Francisco, bem como as galerias do Toural e Atlântico, entre a rua D. João I e a Avenida Conde de Margaride. Nas Caldas das Taipas, surgiu o Passerelle e, em São Jorge de Selho, o Jardim e o Pevidém.

Ao fim de praticamente quatro décadas, o Villa tem 74 das 86 frações ocupadas, comprovando que a atividade nem sempre se faz de multidão. Esse cenário é ainda mais vincado no Palmeiras; no maior centro comercial da rua Gil Vicente, um ocasional ruído de passos quebra a atmosfera silenciosa e escura. Por detrás dos vidros, todavia, há lojas de roupa, de decoração e até uma de telemóveis. E também serviços de estética, de costura ou de reparações espalhados por dois pisos. “Temos meia dúzia de lojas de roupa, mas este é, no fundo, um centro de prestação de serviços”, resume Fernando Silva, administrador do espaço desde 2011. “As frações são 120. Mais de 100 estão ocupadas. Lojas vazias para arrendar tenho cinco. No terceiro piso, os escritórios estão todos ocupados”, detalha.

 

“[O centro comercial Palmeiras] não é um lugar onde as pessoas andem muito a passear. Elas vêm para coisas específicas”, Paula Neves, empresária e dirigente da Associação do Comércio Tradicional de Guimarães

 

Emigrante em França entre 1980 e 1991, Fernando Silva regressou a Guimarães para trabalhar no setor hoteleiro. Proprietário de algumas das frações do Palmeiras, abriu um restaurante no piso mais acima, oferecendo uma esplanada que, à época, era novidade na cidade. Aquele centro comercial inaugurado em 1987 vivia então uma “baixa”; as frações de “20 a 30 metros quadrados” não tinham como competir com as lojas de 200 a 300 dos denominados shoppings, ainda por cima dotados de aquecimento no inverno. “Num shopping, as pessoas podem ou não comprar, mas têm muita coisa para ver. Não tínhamos isso para oferecer aos clientes. Isto chegou a ser um centro comercial fantasma”, recorda.

Para devolver “rentabilidade” ao Palmeiras ao longo da última década, o empresário chamou pessoas da sua “confiança” para algumas das frações e executou uma obra para dar “claridade” ao corredor central. A procura cresceu, embora focada nos serviços; a renda mensal de uma fração oscila entre os 150 e os 200 euros, enquanto numa grande superfície os valores atingem os dois, três ou quatro mil euros. Para quem é cabeleireiro ou tatuador, o Palmeiras é bem mais rentável, assegura Fernando Silva. “Uma esteticista não carece de uma loja com mais de 200 metros quadrados. Em 20 a 30 metros quadrados, trabalha bem e não tem problemas”, sintetiza.

O restaurante de Fernando Silva, com 190 metros quadrados de área coberta e 200 de esplanada, é explorado por Paula Neves. Rara frequentadora do centro comercial até junho de 2020, quando ali se fixou, esta empresária residente no centro histórico apercebeu-se de que os clientes do piso superior e os dos pisos inferiores não coincidem. “Vamos buscar as pessoas através da publicidade e dos eventos que fazemos. Agora até estamos com fados nos sábados à noite. Abrimos o espaço pelas potencialidades, não para servir as pessoas que passam diariamente no centro”, explica.

Mas, tal como o administrador, a dirigente da Associação de Comércio Tradicional de Guimarães testemunha um espaço repleto de serviços, com a estética a dominar nos pisos inferiores e dentistas, contabilistas, psicólogos e alunos em salas de estudo a povoarem o terceiro piso. Nenhuma das atividades produz burburinho, salienta. “Este não é um lugar onde as pessoas andem muito a passear. Elas vêm para coisas específicas”.

 

Centro Comercial Palmeiras, inaugurado em dezembro de 1987 © Carolina Pereira/JdG

Centro Comercial Palmeiras, inaugurado em dezembro de 1987 © Carolina Pereira/JdG

 

O mercado foi-se. As pessoas também

Separado do Palmeiras pelo edifício de inspiração veneziana da Associação de Socorros Mútuos Artística Vimaranense (ASMAV), o centro comercial Fundador apresenta, à entrada, um estabelecimento de compra e venda de ouro e uma loja de artigos de malha e de tecido. No fundo, há um café. E de resto está vazio.

Com a circulação de pessoas reduzida ao entra e sai do café, Joaquina de Sousa coloca a roupa interior, os aventais e outras peças de vestuário na soleira da entrada. Aos 80 anos, precisa de o fazer para que saibam que ali se vendem coisas, mesmo não sendo a rua Gil Vicente aquilo que era. “Isto é um deserto. Toda a gente andava por aqui. Agora é meia dúzia de gatos. Ponho aqui as coisas porque as pessoas não entram lá dentro”, justifica-se, a meio de uma manhã chuvosa.

A comerciante indica de pronto as causas que explicam a alteração do estado de coisas: a deslocalização para Creixomil do mercado municipal, em 2007, e da feira semanal, em 2011. “Em dias de feira, as ruas estão assim. Antigamente a melhor rua era esta. Agora vê-se aquela loja fechada e mais aquela. A rua não mete gente nenhuma”, lamenta.

E o próprio centro comercial não ajuda, com o piso de cima “todo fechado”: “As pessoas têm medo de aqui entrar”, relata Joaquina. Esta comerciante que, em jovem, fazia as feiras de Guimarães, das Taipas, de Fafe ou de Felgueiras ainda vende “qualquer coisita” quando mete dois dedos de conversa, mas é sempre “muito pouco”. “É difícil de chegar para medicações e rendas”, confessa.

 

“Aquele tijolo a massacrar parece o pavilhão do Inatel. Aquelas lojas com as montras para fora, com aquele jardim e esplanada, seriam outra coisa”, Isabel Freitas, lojista no centro comercial Triângulo

 

Do outro lado da Alameda Alfredo Pimenta, onde até 1993 funcionaram os Bombeiros Voluntários de Guimarães, há também quem se queixe da transferência do mercado municipal para as Lameiras. Responsável por uma sapataria para criança desde 26 de setembro de 1998, Isabel Freitas nota que também o Triângulo “sofreu” com a perda da “praça”; o centro comercial agora com 23 anos e o quarteirão arquitetado por Marques da Silva alimentavam-se um ao outro. “Tínhamos um restaurante self service em cima que trabalhava muito bem. As pessoas da praça faziam fila para irem lá comer”, recorda.

A abertura do Espaço Guimarães foi, a seu ver, outra machadada no funcionamento daquele prisma revestido a tijolo, porque apresentava “produtos de valores equivalentes”, mas com uma organização muito superior, com todas as lojas a abrirem à mesma hora. Para Isabel, a falta “rigidez de horários” é um “defeito grande” do Triângulo, que resulta do facto de alguns lojistas terem comprado as suas frações. “A administração não impõe horários, porque há lojas dos próprios lojistas. Não tem legitimidade para mandar no que o comerciante faz”, explica.

Outro dos problemas que vislumbra é o revestimento opaco do edifício. Com portadas transparentes a exibirem os produtos para a rua, o centro tornar-se-ia mais atraente e as rendas subiriam. “Aquele tijolo a massacrar parece o pavilhão do Inatel. Aquelas lojas com as montras para fora, com aquele jardim e esplanada, seriam outra coisa”, argumenta.

Mesmo convencida de que o Triângulo se encontra bem localizado, pela abundância de estacionamento em redor, a lojista diz que só aguenta o negócio pelos laços de confiança firmados com os clientes ao longo dos últimos 23 anos. “As pessoas não vêm ao Triângulo. Vêm à Isabel”, descreve. “Tenho clientes que calcei há 20 anos atrás e já são pais. Ligam-me a perguntar por sapatos, uma pessoa manda fotos e eles pagam por MB Way”.

São assim as deslocações específicas que vão limam as arestas de um Triângulo cada vez mais vocacionado para os serviços, a exemplo dos seus pares. “As pessoas vão lá às unhas e lavar o cabelo. Aquilo está a ficar praticamente para prestação de serviços. Ninguém passeia”, constata.

 

Aos 80 anos, Joaquina de Sousa vende os seus artigos às portas do Fundador © Carolina Pereira/JdG

Aos 80 anos, Joaquina de Sousa vende os seus artigos às portas do Fundador © Carolina Pereira/JdG

 

Um litígio judicial para embrulhar

Mais perto da área que celebrou 20 anos de classificação como Património Mundial do UNESCO, circula-se com regularidade no Centro Comercial Santo António. Mas é um trânsito passageiro, entre as sucessivas frações ocas que os vidros protegem; a atividade daquele espaço que acolhia sessões de cinema no início do século XXI resume-se a uma loja de roupa para bebés e a outra de decorações e utilidades. Ana Faria explora esse segundo estabelecimento desde 2004, ano em que o lugar ainda estava “cheio”. Ao fim de 17 anos, mesmo com as inúmeras alusões ao Natal espreitando das montras, as receitas “não abundam”. “No Natal, passam mais algumas pessoas, mas este não é um espaço convidativo. Quando olham para dentro e veem tudo escuro, não entram. Só serve de centro de passagem. Somos obrigados a fechar isto à noite”, descreve a comerciante.

No caso do Santo António, a perda de vitalidade não se deve apenas às grandes superfícies ou à perda de serviços âncora, embora a perda dos correios tenha afetado o comércio local – “tiraram-nos os correios, o mercado e não há nada de específico que chame as pessoas à rua”, atesta a lojista. O centro comercial tem mais de um proprietário, e as frações detidas por bancos e pelo Estado estão imobilizadas por um processo em tribunal desde 2004.

Ana Faria crê que essa é a explicação para a recusa dos sucessivos pedidos para arrendamento. “Todas as semanas aparecem pessoas com interesse, mas não podem, porque não têm qualquer tipo de contacto”, adianta.

Titular de um terço da área do Santo António, a senhoria de Ana Faria tenta manter o que lhe pertence de “portas abertas” enquanto aguarda a decisão final do processo e o comércio naquele centro comercial sangra. “Sentimo-nos, de momento, impotentes para realizar o que quer que seja, dadas as contingências do momento”, adiantou Isilda Marques da Silva ao Jornal de Guimarães.

Desagradada com o uso do espaço para meras passagens e até para “urinol” ou “consumo de droga”, a proprietária pede à Câmara Municipal que garanta vigilância enquanto se espera a resolução do imbróglio jurídico. E lembra também a necessidade de se garantir um serviço de referência que atraia “movimento” a Santo António”. “Aguardamos uma reunião planejada há já algum tempo com a edilidade vimaranense. Para bem do comércio local, aguardemos que o centro de Guimarães beneficie de forte revitalização”, acrescentou a responsável.

 

Artigos de Natal à venda numa das duas lojas abertas no Santo António © Carolina Pereira/JdG

Artigos de Natal à venda numa das duas lojas abertas no Santo António © Carolina Pereira/JdG

 

Os “ingredientes” que alimentam São Francisco

Em frente à Alameda de São Dâmaso, o centro comercial São Francisco mostra-se mais agitado, embora longe de congestionado. Uma das razões para o espaço se elevar acima dos demais é a União de Freguesias de Oliveira do Castelo, São Paio e São Sebastião, a primeira entidade a instalar-se por ali, logo no ano da inauguração. “Em média, entram aqui 200 pessoas todos os dias”, estima o presidente, Rui Porfírio.

Membro da Assembleia de Freguesia de Oliveira do Castelo aquando da construção do centro, o autarca lembra que o presidente da Câmara de então, António Magalhães, teve a ideia de transferir as sedes das freguesias, até então instaladas no Largo João Franco, num edifício sem condições. “António Magalhães foi astuto. Ele disse que as Juntas de Freguesia precisavam de uma sede e que seriam as primeiras entidades a instalarem-se no centro, chamando outras. Acabamos por ser um chamariz”, reconhece.

Graças ao posto dos CTT, muitos cidadãos aproveitam para dar uma volta pelo centro enquanto esperam pela vez, dando vida àquele espaço, explica Rui Porfírio. As exposições mensais e os enfeites na quadra natalícia também enriquecem o local, acrescenta, mas há outros “ingredientes” que asseguram o relativo sucesso do São Francisco: as ligações entre vários espaços da cidade, o banco Montepio, o supermercado e a praça de alimentação, o “maior de todos”.

Esses condimentos, diz Rui Porfírio, mitigam os problemas do centro comercial, semelhantes aos de outros na cidade: a pequena dimensão das lojas e a falta de diversidade dos negócios. “Quase todas as lojas vendiam roupa. Neste centro comercial, há uma série de lojas vazias em que os negócios anteriores eram de pronto a vestir”, esclarece.

Responsável pela União de Freguesias que acolhe a maioria dos centros comerciais da cidade, Rui Porfírio encontra no Guimarães Shopping a causa maior para a sua quebra. “A proximidade do Guimarães Shopping ao centro da cidade enfraqueceu o pequeno comércio, que tinha outra pujança há 30 anos”, considera. “Ainda por cima, tem o hospital à frente e levaram para lá a central de camionagem, o mercado e a feira. Aquele shopping nunca vai morrer”.

Para o político, a grande superfície foi um abalo nos centros comerciais que se afirmavam até então, como o Villa. “No início dos anos 90, ao domingo, as pessoas pediam desculpa por embaterem umas nas outras. Se alguém dissesse que aquilo ia ficar vazio dentro de alguns anos, era tido por maluco”, recorda.

A verdade é que o ambiente no cimo da D. João IV é tranquilo. As frações estão ocupadas, mas nem todas à vista; acolhem serviços que não têm de fazer montra para atrair clientes. Para Salete Pinto, isso “não é bom”, porque “não convida as pessoas” a irem ao Villa. Mas a comerciante de Tabuadelo admite que o futuro do outrora centro comercial número um deve ser mesmo esse.

“Quem vem aqui são clientes antigas. Quando passam aqui, já sei para o que vêm. E a gente vai perdendo-as”, diz. As receitas ainda dão para as despesas, mas sem novas clientes no horizonte é difícil vislumbrar um futuro luminoso para aquela boutique. “Com a geração mais antiga a desaparecer, não temos pernas para andar. As receitas dão para pagar as despesas, mas não dão para muito mais. Quando não derem, também se fecha”.

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