Que humanidade com a ascensão da IA? Uma interrogação em forma de teatro
As reflexões sobre os futuros que esperam a humanidade e o seu eventual fim podem ser expostas de várias formas. Em Guimarães, na próxima sexta-feira, o teatro será a linguagem para o fazer. Em criação desde setembro de 2025, “Ensaio aberto: o fim da história humana” apresenta-se pela primeira vez ao público no Teatro Jordão, a partir das 21h30. "Este espetáculo tem a ver com o fim da história humana, mais concretamente com a ascensão da inteligência artificial (IA), pela forma como está a mudar e irá mudar a sociedade”, resume José Eduardo Silva, dramaturgo, encenador e intérprete da peça.
A mais recente obra do autor vimaranense conclui uma trilogia que se iniciou em 2013. Se “Eis o homem”, estreada em 20 de novembro de 2013, na Casa das Artes de Famalicão, se inspirou na obra homónima do alemão Friedrich Nietzsche – “Ecce homo”, obra onde o filósofo expressa preocupação sobre a imagem que vai deixar ao mundo -, e “(Des)individuação – (Des)Concerto para Bernard Stiegler”, com estreia em 10 de março de 2016, no Teatro Carlos Alberto, no Porto, aludiu ao filósofo francês que pensou sobre a perda da individualidade no contexto da relação com a tecnologia, “Ensaio aberto: o fim da história humana” leva ao palco as ideias de Francis Fukuyama, cientista político que projetou o fim da história – a democracia liberal e a economia de mercado livre seriam o último estágio na evolução sociopolítica -, e de Yuval Noah Harari, autor de “Nexus”, livro de 2024, que teoriza o futuro da IA.
“A obra está relacionada com a ação humana no mundo e até mesmo o papel dos seres humanos no ato de contar a sua própria história. Segundo ele [Harari], vamos deixar de poder contar a nossa própria história. Será contada por outras entidades que se irão superiorizar a nós, de alguma maneira”, especifica o encenador e ator.
Formado em psicologia e em teatro, José Eduardo Silva frisa que a humanidade se depara com “uma espécie de rizoma em todos os campos” que vai alterar profundamente as relações humanas e a forma como se encara a vida, o trabalho e o lugar dos seres humanos no mundo, mas avisa que a obra está longe de transmitir “uma ideia fechada” sobre a IA, até porque “o mundo está sempre em projeto, e os seus ramos são, por vezes, inesperados”.
“A invenção da inteligência artificial surge por ação humana. A sua aceitação, o seu uso, a forma como a adotamos é ação nossa. Em que é que isso vai resultar? Está em aberto. Mas há possibilidades mais prováveis”, sugere.
Além do espetáculo de sexta-feira, a peça sobe ao palco do Jordão no sábado, às 21h30, e no domingo, às 17h00. Os bilhetes para qualquer das sessões têm um custo unitário de cinco euros.
José Eduardo Silva é encenador e ator no espetáculo © José Caldeira
Um coletivo para o teatro numa cidade muito diferente de há 30 anos
Esta obra marca também a afirmação de um novo coletivo artístico em Guimarães, a Interrogação Teatral. Apoiado pela Direção-Geral das Artes, o espetáculo reúne, além de José Eduardo Silva, Cristina Cunha, atriz, figurinista, cenógrafa e artista plástica, reconhecida pela presença em algumas produções televisivas, Zé Ribeiro e Francisca Sobrinho, atores que também contribuíram para a elaboração do texto.
"Apesar de ter partido de uma ideia que foi minha e de o texto ser meu, a partir do momento em que as pessoas foram trazidas para o projeto elas passam a ser também criadoras de coisas. Integra textos originais que foram escritos pelos atores do elenco”, descreve o encenador.
Com ensaios em curso desde janeiro, “Ensaio aberto: o fim da história humana” procurou incluir o tecido cultural vimaranense na sua criação. “A ideia foi trabalhar sobretudo com pessoas de Guimarães ou que tivessem alguma relação com a cidade”, acrescenta, a propósito de um elenco que está a trabalhar pela primeira vez junto.
Um dos atores que integrou a Oficina de Dramaturgia e Interpretação Teatral (ODIT), estrutura municipal lançada em 1994 que esteve na origem do Teatro Oficina, José Eduardo Silva radicou-se posteriormente no Porto, antes de regressar definitivamente à cidade que foi o seu berço, onde é docente da licenciatura em Teatro da Universidade do Minho (UMinho), entidade parceira deste projeto.
Em retrospetiva, vê uma cidade muito diferente na vivência cultural: de um lugar sem qualquer teatro – o Jordão estava encerrado em 1994 -, onde se representava em fábricas abandonadas, Guimarães passou a ter “infraestruturas fantásticas” para hábitos culturais e festivais reconhecidos, como o GUIdance e o Guimarães Jazz. A seu ver, falta ainda ver-se mais criação a partir da cidade.