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Sob o olhar de Santa Luzia, vidas que enlaçam o sagrado e o profano

Tiago Mendes Dias
Sociedade \ domingo, dezembro 19, 2021
© Direitos reservados
Doces a evocar sexo na romaria que atrai fiéis em prece por uma visão saudável, peças de arte sacra em antiquário, um passado de fogueiras e barcos em dia de São João: tudo cabe na rua Francisco Agra.

Numa das raras manhãs cinzentas deste dezembro, José Gonçalves senta-se à direita do retábulo dourado de Santa Luzia, qual guardião da imagem reverenciada pelas centenas de católicos que ali afluem neste tempo do ano. A pose adequa-se: o antigo polícia da Guarda Nacional Republicano é o zelador da capela alpendrada que data de 1600, contribuindo para a organização da romaria há 30 anos.

“Tenho ajudado na festa nos últimos 30 anos e faço o trabalho de zelador desde que estou aposentado”, diz ao Jornal de Guimarães o cidadão de 69 anos, antes de narrar a sua rotina: “Chego às 09h00, abro a capela e atendo quem chegar. Fecho ao meio-dia, abro novamente às 14h00 e fecho às 18h30. E também recolho as esmolas”.

Natural de Celorico de Basto, José viu pela primeira vez a capela há 43 anos. E a memória mais antiga é a de uma “afluência de pessoas enorme”, com o espaço público em redor “completamente cheio”. Portanto, um contraste com aquela manhã em que os pés dos devotos cruzavam a soleira da porta longe a longe. Mas José vive todos os 12 dias em que a capela abre neste mês – 08 a 19 de dezembro – e sabe que 2021 tem acolhido “muito mais gente” do que em 2020 e quase tanta como na época em que o termo covid-19 ainda se desconhecia.

E a verdade é que, a 13 de dezembro, quando a noite caía e convidava ao agasalho, a envolvente parecia um outro lugar, com fiéis a entrarem no templo granítico à medida que saíam outros. Faltam, porém, os adereços que consubstanciam as promessas: os olhos em cera, em prata e em ouro. “Não podem andar com os olhinhos na mão, por causa da pandemia. A promessa fica feita com uma esmola desse valor”, esclarece José Gonçalves.

À saída da capela, Luísa Lobo conclui mais um episódio de uma jornada com mais de 30 anos. Residente em Pedome, freguesia de Famalicão limítrofe a Guimarães, habituou-se a frequentar a cidade-berço desde jovem, sobretudo com amigos. Mas a cegueira da mãe, provocada pela diabetes tipo 2, fez da capela ponto de paragem obrigatório a cada 13 de dezembro, o dia em que se celebra Santa Luzia. “A minha mãe já faleceu há 15 anos. Antes, esteve os últimos 10 a 15 com cegueira. Tinha os olhos abertos, mas não via. Conhecia-nos só pela voz”, diz a cidadã de 65 anos.

A devoção pela santa padroeira dos olhos, bem implícita nas palavras - Luzia, luz, visão -, é um dos traços identitários da rua Francisco Agra, a medieval saída para Braga a partir da urbe muralhada, hoje classificada como Património Mundial da UNESCO. António Amaro das Neves, historiador e autor do blogue Memórias de Araduca, referente à(s) história(s) de Guimarães, admite ao Jornal de Guimarães que não se sabe se o culto à Santa Luzia já se verificava antes do século XVII. Sabe-se, porém, que o espaço em redor acolhia uma gafaria – um recolhimento para leprosos, nesse caso mulheres – e que os direitos sobre o templo foram transferidos da paróquia de Azurém para a Colegiada da Oliveira, instituição que ainda hoje detém rege a capela, acrescenta.

 

Crente entra na capela de Santa Luzia © Carolina Pereira/JdG

Crente entra na capela de Santa Luzia © Carolina Pereira/JdG

 

Sardões e passarinhas: as formas que adoçam este lugar

Na passada segunda-feira, viam-se bancas repletas de pastelaria e uma outra com vários produtos – frutos secos, legumes, fumados – à boleia da celebração de Santa Luzia.  Ao longo dos anos, aquele recanto de Guimarães habituou-se a receber uma “feira” onde as pessoas daquela área se “abasteciam com uma série de coisas para o Natal”, acrescenta Amaro das Neves.

E há ainda uns doces brancos, feitos de centeio e cobertos de açúcar, que conferem singularidade à romaria. Mais do que nos ingredientes, a essência desta receita passada de geração em geração está nas formas; representam os órgãos sexuais, designando-se, a propósito, de “sardão” e de “passarinha”. “Hoje fala-se do dia de São Valentim, uma festa importada. Em Guimarães, tínhamos uma muito mais interessante, a das passarinhas e dos sardões, com um tom irónico e obsceno”, detalha ainda o historiador.

Independentemente da origem da tradição, ainda por datar, António Amaro das Neves crê que se deve valorizar a tradição como “património imaterial de Guimarães” que mistura o “culto à santa das doenças dos olhos” com a “festa dos namorados”. Que une o sagrado e o profano. “Isso é algo muito comum nas nossas festas populares”, avalia.

Mas essa manifestação cultural mantém-se viva por um fio. Ou por uma pessoa, melhor dizendo. Cidália Pereira nasceu em Felgueiras, conheceu o marido em Guimarães e casou em 1982, disponibilizando-se de imediato para ajudar a sogra a vender. Ao contrário do marido, prestável na confeção dos doces, mas incapaz de “vender uma passarinha que seja”, Cidália gostou logo da tradição enraizada no centro histórico vimaranense, tivesse ela de “levar tabuleiros à cabeça às Trinas”, com 19 anos, para colocar ou trazer a massa do forno ou de vender, simplesmente.

“Começa-se a vender na Nossa Senhora da Conceição. Se não se vender tudo na Santa Luzia, vai até ao Natal. A minha irmã não é muito de brincadeiras, mas a rapariga que me ajuda entra nas brincadeiras comigo”, diz. Sexo é a ideia frequentemente implícita nessas brincadeiras, sendo evocada num outro ponto da rua, já perto do largo Navarros de Andrade, com o nome que designa a tasca de portas vermelhas saloon – Quim Conas.

Mas esses doces enlaçados em fitas coloridas que recheiam as bancas de dezembro demoram cerca de três meses a serem preparados; tudo começa após a peregrinação à Penha, no segundo domingo de setembro, precisa Cidália. E o processo de fabrico é o seguinte: farinha de centeio amassada, que é depois aquecida num forno a lenha ou elétrico, “muito quente por cima e por baixo”; segue-se a aplicação do acúçar, com recurso ao papel vegetal. Por mim, os doces têm de secar por um ou dois meses, consoante as condições climatéricas do outono.

“Se o tempo estiver húmido, são precisos dois meses. Quanto mais seca a forma, mais bonita fica. Há um segredo na calda. Tem de se deixar no ponto certo”, frisa. A vendedora que resiste conta vender neste domingo os sardões e as passarinhas que ainda tem, juntamente com os pirolitos – “chupa-chupas caseiros caramelizados”.

Com a sogra incapacitada pelo Alzheimer, a guardiã deste património imaterial refere que há outras senhoras conhecedoras da receita dos sardões e das passarinhas, mas deixaram de vender na rua. Cidália receia assim a perda de uma tradição que alimentou nos últimos 40 anos. “Tenho cá uma pena se um dia isto acaba”, desabafa.

 

Cidália Pereira fabrica e vende sardões e passarinhas há praticamente 40 anos @DR

Cidália Pereira fabrica e vende sardões e passarinhas há praticamente 40 anos @DR

 

“Somos antiquários, mas não antiquados”

Atrás da banca de Cidália Pereira, surge um edifício granítico, revestido a pratos de porcelana, com uma porta que é vislumbre para um mundo onde pilhas e pilhas de coisas se amontoam. No interior, veem-se combinações de artigos que dificilmente poderiam existir numa qualquer loja: um relógio de parede em forma de carica ao lado de candeeiros mais ou menos volumosos. De resto, imensos livros, artigos em madeira ou porcelana e peças de arte sacra.

“A expressão das pessoas quando entram numa casa destas é “uau”. Ficam encantadas com tudo”, conta Jacinto Ribeiro, um dos três responsáveis pelo Don Jacinto, antiquário que tem uma outra loja no Centro Comercial Palmeiras e ainda dois armazéns para albergar as 100 mil peças do seu espólio.

O proprietário encontrou naquele espaço em que já tivera uma empresa de materiais de construção, entre 1981 e 1983, para solucionar a falta de espaço que afligia a sua garagem. “Nunca foi muito de guardar. Mas numa garagem cabem sempre pequenas coisas e pomos. Um dia a minha mulher precisou de espaço e já não tinha. Disse-me para resolver o assunto como eu quisesse. Vi este lugar onde já tinha estado e arrendei-o”, recorda.

Esses materiais eram, porém, “coisa pouca” para os 130 metros quadrados de que ali dispõe, pelo que se iniciaram os anúncios para comprar materiais de quem estivesse interessado em vendê-los; desde então a Páscoa e o Natal foram praticamente os únicos dias em que a Don Jacinto não guarneceu a loja com novidades; tem-lo feito através de gente que aparece lá com objetos para venda ou, principalmente, pela prospeção do recheio das casas recém-vendidas. “95% dos artigos são de pessoas que tinham as suas casas, venderam-nas e precisaram de espaço para o que já tinham. 5% serão pessoas que vêm cá vender”, estima.

Como este palpitar da avaliação, da aquisição e da venda de antiguidades, Jacinto ocupa um tempo em que a visão está reduzida a 20%; o culpado é de novo a diabetes tipo 2. “O que vejo é o suficiente para lidar com esta situação. Como já estou reformado por invalidez, não poderia haver melhor sítio para ocupar o tempo”, descreve o cidadão de 66 anos, mas com “espírito de 30”, diz.

Naquele espaço onde os preços vão dos cêntimos aos milhares, o responsável pelo antiquário diz ter uma rede de contactos que se estende pelo país e além dele para a aquisição de peças em falta pedidas por clientes e enalteceu a capacidade de atração de gente de todo o mundo. “Já recebemos gente da Austrália, Nova Zelândia, China, Índia, México, Alemanha, Inglaterra, América, França, Espanha", enumera. "E recebemos sempre elogios à forma como as coisas estão expostas. Somos antiquários, mas não antiquados”, reitera.

O antiquário, prossegue, é um dos motivos pelos quais às pessoas se deslocam a uma rua que tem ainda um restaurante, uma venda de fruta, um cabeleireiro, uma loja com artigos elétricos, uma clínica veterinária, um hotel e alguns alojamentos locais, bem como o Círculo de Arte e Recreio (CAR). A rua, a seu ver, poder-se-ia tornar mais convidativa com a capela de Santa Luzia aberta por mais tempo – em agosto, por exemplo, com a chegada dos emigrantes – e com a requalificação que continua ausente. “Nos últimos 10 anos, têm-se visto por cá os topógrafos a retirar elementos, mas sabemos como isto é. Temos uma cidade muito bela, mas é preciso cuidar dela”, vinca.

 

Jacinto Ribeiro acumula cerca de 100 mil peças no seu antiquário © Carolina Pereira/JdG

Jacinto Ribeiro acumula cerca de 100 mil peças no seu antiquário © Carolina Pereira/JdG

 

O assassínio do homem que dá o nome à rua

Ao virar à direita, mal se deixa o antiquário, vê-se logo um dos edifícios mais proeminentes da rua: uma casa de um amarelo vibrante com um interior moldado pela atividade cultural do CAR. Fundada a 15 de novembro de 1939, inicialmente como Grupo Musical Ritmo Louco, a instituição dá vida ao teatro – originou Festivais Gil Vicente e alimenta o Teatro de Ensaio Raul Brandão -, à música e ao desporto – já teve equipas de voleibol, andebol e xadrez, por exemplo.

A cultura e a recreação pontuam assim a casa que, no final do século XIX, era de Francisco Ribeiro Martins da Costa, mais conhecido por Francisco Agra. Era “um político relevante” do Partido Regenerador – o mesmo de João Franco -, sem “nunca ter exercido grandes cargos”; nesse percurso, foi só Administrador do Concelho, representante do Estado no Governo municipal, entre 1872 e 1873. “Era um grande cacique, porque nunca exerceu grandes cargos políticos. Não havia em Guimarães candidato que pudesse ser eleito pelo partido sem a sua chancela. E era o homem que em Lisboa mexia os cordelinhos”, descreve Amaro das Neves.

Numa das visitas à quinta da Agra, propriedade sua em São Torcato, foi encontrado morto a 26 de junho de 1901. Após o diagnóstico inicial de “morte natural por congestão pulmonar”, encontrou-se um buraco de bala. As culpas foram de imediato apontadas a Júlio de Campos, iniciando-se um julgamento no qual o advogado de defesa foi Afonso Costa, futuro ministro da Justiça na 1.ª República. “Como era um advogado reputadíssimo e caro, disse-se por muito tempo que quem tinha pago era o Bernardino Jordão e que aquilo fora um crime cometido por republicanos”, prossegue o historiador.

Apesar de para os jornais vimaranenses “mais próximos da linha política de Francisco Agra” ter sido “sempre culpado”, Júlio de Campos foi absolvido em duas ocasiões, vindo-se a saber mais tarde que ninguém teve de pagar nada a Afonso Costa. “Em 1896, tinha saído a lei anti-anarquista, que punha os anarquistas numa situação de inferioridade para se defenderem nos tribunais. O Afonso Costa e outros começaram a defender de borla aqueles que eram acusados de crimes políticos contra a monarquia”, descreve.

Em 1904, provou-se que o assassino fora José Segade, por motivos que nada tiveram a ver com política. “Houve roubo. Tirou-lhe o relógio. Ficou demonstrado que o crime não teve natureza política”, conclui Amaro das Neves.

À medida que se desce a rua, veem-se outras edificações de referência: a Igreja da Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, inaugurada a 08 de novembro de 1953, de um lado, e a fachada decrépita do que foi outrora o colégio da Companhia de Jesus – até 1910 – e a escola primária que, durante grande parte do século XX, acolheu as crianças da cidade dia após dia e as do concelho na hora de se fazer o exame da então 4.ª Classe. “Muitos vimaranenses tiveram ali a aprendizagem das primeiras letras. Havia quem lhe chamasse, com um toque afetivo, a Universidade de Santa Luzia”, descreve o historiador.

Enquanto o edifício de janelas alinhadas espera pela prometida residência universitária, a ala logo à direita esteve ocupada até há bem pouco tempo; a Escola Superior Artística de Guimarães (ESAG), projeto iniciado pela cooperativa Árvore, do Porto, encerrou em 2018, deixando aquele espaço outrora de criação à mercê da degradação.

 

Casa de Agra, que é também a casa do CAR © Hugo Marcelo/JdG

Casa de Agra, que é também a casa do CAR © Hugo Marcelo/JdG

 

Rua “alegre e movimentada”… no passado

Mais abaixo, reside António Cardoso, homem que, todas as noites, fechava o portão da ESAG. “Era uma escola com bom ambiente. Passavam por lá dezenas de alunos por dia. À meia-noite fechava aquilo. Depois dava as pautas para os professores assinarem as presenças”, recorda, à conversa com o Jornal de Guimarães.

O habitante testemunhou, portanto, o fim de mais um capítulo na história daquele lugar; já assistira a outros, no final dos anos 80: as casas térreas, “cheias de gente”, a darem lugar à urbanização de cinco pisos na ponta da rua e a canalização do ribeiro de Santa Luzia, que organizava a vida das comunidades em redor.

A esposa, Rosa Margarida Mendes, nascida e criada na rua, ainda guarda na memória os recortes da juventude que ali viveu. “Na viela junto ao hotel, fazíamos uma fogueira no São João. Brincávamos ali. Era uma rua alegre e movimentada. Depois fez-se no rio. Íamos lavar para esse rio. Mas no tempo do São João, eles fechavam-no e punham lá barcos a andar. Foi ali que te conheci”, diz, voltando-se para o marido.

Aquele era então um lugar de passagem, com a ponte nova de Santa Luzia, feita em cantaria, num arco só, a servir de acesso para os jogos do Vitória, ainda no tempo da Amorosa, ou para visitas à capela de Nossa Senhora da Conceição; a estrutura encontrava-se na área onde se ergue hoje o quartel dos Bombeiros Voluntários de Guimarães. “Havia duas tabernas em redor e uma senhora que vendia tremoços. Sentava-se na soleira desta porta ou na da esquina do hotel”, detalha António Cardoso, lembrando o tempo em que assim se servia quem ali transitava.

Hoje a rua “não tem movimento”, salienta. Enquanto a calçada e o granito dos passeios se desgastam com o tempo, à espera da requalificação que tarda, António crê que a residência, até por chamar jovens, pode ser um dínamo para a vida da rua. O habitante quer acreditar que o projeto vai mesmo ser realidade.

“Puseram o taipal à volta da antiga escola quando a seleção de Inglaterra esteve aí na Liga das Nações. Já tinham caído vidros, e esse taipal protege as quedas até dois ou três metros de distância da escola.  A residência poderia dar mais movimento a isto”, constata.

 

@ Hugo Marcelo/JdG

@ Hugo Marcelo/JdG

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