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Empresa pioneira e último reduto dos curtumes: a Roldes faz 100 anos

Tiago Mendes Dias
Economia \ quarta-feira, fevereiro 01, 2023
© Direitos reservados
Na margem direita do Selho, a Fábrica de Curtumes de Roldes foi a primeira em Guimarães a utilizar crómio. Agora única representante de uma indústria ancestral, busca o futuro com uma gestão familiar.

Há um troço da Estrada Nacional 101 que define a vida de Joaquim Pereira há mais de 40 anos: dia após dia, semana após semana, desloca-se entre as Taipas, onde vive, e Roldes, lugar em Fermentões que alberga a ponte românica sobre o Selho, um parque de lazer e a fábrica de curtumes onde labora. Aos 16 anos, precisava de trabalhar e pediu para o fazer na Roldes, onde já estivera empregado o avô. “Entrei a 03 de setembro de 1981”, recorda um dos operários com vínculo mais longo à empresa fundada em 09 de janeiro de 1923. Centenária, portanto.

De homem que tratava “as peles em pelo” e usava a pistola das tintas nos primeiros dias de labuta a responsável pelas tintas e composições para os acabamentos, Joaquim foi-se transformando em quatro décadas, assim como a Fábrica de Curtumes de Roldes, o bastião de uma indústria cuja produção se desvaneceu da cidade, subsistindo hoje graças à valia patrimonial e à conversão das unidades fabris em equipamentos como o Instituto de Design. A principal alteração foi a do modelo de negócio, reitera o sócio e gerente, Pedro Ribeiro.

A empresa abandonou o processo vertical desde a compra das “peles em cabelo” nos matadouros da região até ao acabamento e tornou-se “prestadora de serviços”, ao oferecer “uma grande diversidade de artigos”, nas “cores que se quiser”, a partir de peles em wet blue – húmidas e tingidas de azul. Esse azul deve-se aos sais de crómio, elemento central na história da Roldes.

Os sócios fundadores serviram-se da queda de água no rio Selho para produzirem energia elétrica e assim alimentarem a primeira fábrica em Guimarães a utilizar esse processo industrial “muito mais económico e rápido”, em detrimento do tanino da casca de carvalho ou do sumagre em tanques, com recurso à força e habilidade dos braços. “Passava-se a obter um couro em duas semanas e não num ano, muito mais resistente e tingido em cores muito vivas. Era também mais versátil, dando para artigos muito diferentes”, compara Pedro Ribeiro.

 

“Sempre houve o espírito de tentar manter a empresa. Quando temos assembleias gerais, temos a sensação de que todos remam para o mesmo lado, tentando que isto resulte”, Pedro Ribeiro, sócio e gerente da Fábrica de Curtumes de Roldes

 

O nome Alberto Cardoso Martins de Menezes, o do filho do Conde de Margaride, é o mais associado à fundação, mas a Roldes arrancou a produção com outros sócios, entre eles os proprietários da Casa de Caneiros – ofereceram os terrenos para a fábrica a troco da participação – e Joaquim Ribeiro da Silva, pai de António Augusto Ribeiro da Silva, a pessoa que liderou a empresa por mais tempo.

Aos 55 anos, Pedro Ribeiro é um dos três filhos de António Augusto que sempre ali trabalhou, primeiro como diretor técnico e agora como gestor, face à reforma do irmão Joaquim. Em ano de centenário, o responsável vê uma empresa “equilibrada”, com 30 funcionários e um volume anual de negócios a rondar os dois milhões de euros, que transforma peles de bovinos, importadas sobretudo de Espanha, Argentina e Brasil, em artigos exclusivos para calçado, vendidos a fábricas e a armazenistas de Guimarães e Felgueiras.

O “regresso às mãos das famílias originais”, consumado em 2016, é outra das marcas deste tempo, depois de uma era sob a alçada da Campeão Português; detentora da maioria das ações a partir de 1973, a empresa vimaranense de calçado fechou em novembro de 2014 – a marca foi depois reativada – e a Roldes viu-se então arredada dos “investimentos que se impunham”, lembra Pedro Ribeiro

O gerente lembra que o “futuro não era muito brilhante” aquando da saída do Campeão Português. O fecho esteve até em cima da mesa, mas a fábrica sobrevive. Talvez a “afetividade” da sua família, que adquiriu a “quase totalidade do capital” em 2016, e a histórica entreajuda entre sócios o expliquem. “Sempre houve o espírito de tentar manter a empresa. Quando temos assembleias gerais, temos a sensação de que todos remam para o mesmo lado”, vinca, a partir de uma sala decorada com os retratos dos protagonistas da empresa, o avô e o pai entre eles.

 

Instalações da fábrica de curtumes de Roldes, em Fermentões, junto ao rio Selho

Instalações da fábrica de curtumes de Roldes, em Fermentões, junto ao rio Selho

 

“Para quem trabalhou nos curtumes, custa-lhe mudar de área”

A história da empresa, feita de crises e desenvolvimento, pesa igualmente nas decisões tomadas, reconhece Pedro Ribeiro. E essa história pode ler-se nos edifícios que compõem a fábrica, todos eles revestidos com um granito que é prova de longevidade. As infraestruturas à face do Selho, desativadas, guardam os tanques dos curtumes com produtos vegetais, na altura da sua criação alvo de “um mercado grande”; no pico da “mão-de-obra intensiva”, a Roldes teve 150 trabalhadores.

No edifício principal, os trabalhadores operam as máquinas de medição e de divisão dos curtumes, circulando, quando necessário, entre elas. Numa outra secção, veem-se os fulões, equipamentos cilíndricos na horizontal, tal e qual os da Ramada. À exceção dos controlos automáticos de água, de temperatura e de pH, a tecnologia criada para acelerar o curtume vegetal mantém-se atual. E o curtume vegetal ainda hoje é útil para solas de sapatos. “Os couros vegetais são mais duros e não escorregam”, explicam.

Ainda que supostamente ultrapassado, o curtume vegetal pode ser reavivado num “futuro que está sempre a mudar”, exigindo processos com “pegada ecológica cada vez menor”. Há mesmo processos do passado, “mais amigos do ambiente”, a “serem recuperados”, dá conta Pedro Ribeiro.

Apesar das eventuais transformações da indústria, há uma coisa que, para o gestor, se vai manter: o instinto de qualquer pessoa dos curtumes para “pôr a mão” quando passa por uma pele, atestado de um “elo muito forte com um material nobre que envelhece muito bem”. “Para quem trabalha nos curtumes, custa-lhe mudar de área. Cria-se uma ligação forte com o couro”, confessa o gestor e técnico que se especializou em curtumes numa escola de Lyon, França.

Entre as dezenas de frascos que encerram outras tantas composições químicas, Joaquim Pereira revela o hábito que criou “na fábrica onde se fez homem”. “Quando vejo uns sapatos, tenho sempre atenção ao material”, confessa.

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