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Um centenário de farda e lenço: “aquele bichinho” que molda vidas

Tiago Mendes Dias
Sociedade \ segunda-feira, maio 20, 2024
© Direitos reservados
Aos 100 anos, o núcleo de Guimarães é o maior do CNE. Contacto com natureza e ligação às comunidades são bússolas.

As tendas, os nós e os trilhos por montes e vales, numa imersão pela natureza que é também confronto com os próprios limites, unem gerações. Assim acontece em Guimarães desde 18 de maio de 1924, dia em que os primeiros 63 membros locais do Corpo Nacional de Escutas realizaram a sua promessa. Volvidos 100 anos, o núcleo vimaranense reúne cerca de três mil elementos, afirmando‐se no seio das paróquias ou em infraestruturas como o Centro Escutista da Penha. Das crianças aos mais velhos, sobressaem os relatos de transformação pessoal.

 

Chegou o fim de semana. O sol ergue‐se e a erva brilha. Ao longe, feições triangulares recortam o horizonte: montam‐se as tendas para o acampamento dos 35 anos dos escuteiros de Calvos. Vários agrupamentos do Corpo Nacional de Escutas (CNE), de Guimarães e de núcleos vizinhos, afluem àquele terreno de costas voltadas para a Penha, balizado pela igreja paroquial e pelo cemitério. Fardados ou não, rapazes e raparigas erguem as estacas e atam os nós.

Anfitrião do evento, Martim Sousa é um dos nove lobitos de Calvos, secção que reúne os escutas dos seis aos 10 anos. De lenço amarelo, acompanha o frenesim. Acampar é aquilo de que mais gosta, afinal. Ao perto, uma pioneira da vizinha Serzedo abraça mais uma atividade ao ar livre. "Isto dá‐me uma pausa de todo o mundo, como uma terapia. Sinto‐me muito bem com este convívio com a natureza, com as novas amizades”, descreve Teresa Santos, de lenço azul ao peito.

Residente em Jugueiros, no concelho de Felgueiras, a escuteira de 15 anos integra o Agrupamento 886 desde os nove, aprendeu caixa e toca hoje clarim numa fanfarra que é banda sonora para os 100 anos o Núcleo de Guimarães, o maior dos mais de 30 que compõem o CNE: alberga 2.961 dos cerca de 70 mil efetivos distribuídos pelo país. O eixo entre Oliveira e Toural aglutina as comemorações de 18 de maio: entre o desfile dos 53 agrupamentos do Arciprestado de Guimarães e Vizela e o entardecer ao som de Guilherme Peixoto, sacerdote católico e DJ, cerca de 400 escutas cumprem no Toural a designada Promessa – compromisso para com os princípios do escutismo.

Guimarães continua assim “vivo e mais do que vivo” no seio de um “movimento de educação não formal” que ajuda a educar jovens para a sociedade em complemento com os pais e a escola. “Que os próximos 100 anos possam ser tão bons ou melhores do que os primeiros”, pede Alexandre Novais, chefe do Núcleo de Guimarães desde 30 de dezembro de 2023, após suceder a Ernesto Machado. Aos 51 anos de idade, leva 42 de escutismo, no Agrupamento 702, de Mesão Frio.

 

 

Da fundação à disseminação

As principais iniciativas do centenário seguem os passos dados há um século, desde o primeiro desfile de escuteiros uniformizados na cidade de Braga, a 27 de maio de 1923, inspirado pelo que o arcebispo Manuel Vieira de Matos vira um ano antes, em Roma, por ocasião do Congresso Eucarístico Internacional, à Promessa dos primeiros 63 escuteiros de Guimarães, entre os oito e os 17 anos de idade. Só o local difere: as de 18 de maio de 1924 realizaram‐se na Igreja de Nossa Senhora da Oliveira, algo impossível no presente. A trabalhar nas comemorações há cerca de dois anos, a comissão decidiu seguir esses “emblemáticos, embora não muito espetaculares passos”, realça Miguel Salgado, coordenador e antigo chefe do Núcleo de Guimarães, entre 2005 e 2015.

Em dezembro último, Guimarães recebeu o chefe nacional, Ivo Faria, numa réplica da visita do comissário nacional em 1923, Avelino Gonçalves. Em março, o arcebispo José Cordeiro visitou o Núcleo, numa evocação da visita de Manuel Vieira de Matos, em fevereiro de 1924. A palavra “escotismo” – termo então utilizado nos jornais – é pela primeira vez mencionada nos jornais vimaranenses em junho de 1923, enquanto as inscrições para “escoteiros” abrem em setembro por iniciativa de Manuel Alves de Oliveira, que testemunhara dois meses antes o novo movimento oriundo de Braga no Congresso das Juventudes Católicas, em Viana do Castelo; na antecâmara do centenário, foi também em setembro que o núcleo abriu as inscrições para as promessas de 18 de maio de 2024. Depois de o arcebispo à época se inteirar da criação do primeiro grupo vimaranense, o demolido Palacete Minotes – onde hoje se encontra o edifício dos correios – acolhe duas conferências sobre o tema, antecipando a cerimónia que formalizou o Grupo 6, e da Alcateia 4 (lobitos), cujos patronos eram respetivamente São Dâmaso e D. Afonso Henriques.

O método escutista lançado pelo britânico Robert Baden‐Powell, 17 anos antes, com um acampamento para 20 rapazes na ilha de Brownsea (Inglaterra), enraizava‐se na cidade‐berço. A 26 de maio de 1924, o CNE confirmava a sua extensão ao território de todo o país, com a aprovação dos estatutos. No caso de Guimarães, o movimento espalha‐se na década seguinte, por Brito – foi no Agrupamento 366 que Miguel Salgado começou, em 1990, a vida de escuteiro, desempenhando‐a agora em Bragança, onde vive há mais de uma década –, Vermil, São João de Ponte ou Polvoreira, nesse caso já em 1941.

Cabe, porém, a Ronfe mostrar que a antiguidade é posto. Fundado em 1935, com Francisco Gomes da Cunha na dianteira, o Agrupamento 5 é também o maior do Núcleo, com 124 escutas. “O nosso agrupamento está muito forte”, resume António Andrade, do alto dos seus 78 anos. Agora até enverga o lenço castanho, da Fraternidade Nun’Álvares, mas as mais antigas memórias perduram; escuteiro desde 1959, demorou um ano a fazer a Promessa. “Os tempos eram difíceis. Éramos 18 irmãos. Não tinha dinheiro para a farda”, conta. Abriu‐se então um mundo de “acampamentos, jogos, pioneirismo, muito esforço”. “Não tínhamos os papás à espera para nos levar de carro a lado nenhum. Íamos a Polvoreira ou a São João de Ponte a pé. Não tínhamos um fogãozinho para cozinhar. Era tudo a lenha”, salienta.

Não reaviva essas memórias em tom de crítica. O seu tempo era vivido a outro ritmo, afinal: se não havia tantas condições materiais, também não havia a sobrecarga da adolescência de hoje. Embora jogasse ténis de mesa como atleta federado e fosse músico no grupo típico Flor de Lis – nome bem a propósito –, o escutismo permaneceu na juventude e na vida adulta. “Ser escuteiro fez‐me ter convivência e aprender coisas. A minha vida seria diferente sem isto”, atira, num relance a um percurso de décadas.

 

Alexandre Novais lidera o Núcleo de Guimarães desde 30 de dezembro de 2023 © RFX/Tiago Mendes Dias

Alexandre Novais lidera o Núcleo de Guimarães desde 30 de dezembro de 2023 © RFX/Tiago Mendes Dias

 

“Quando vou na rua, ainda me chamam chefe Marta”

A primeira de três experiências como chefe do Agrupamento 5 começou em 1983. Sucedeu a Joaquim da Silva Martins, o patrono do parque escutista inaugurado em 04 de junho de 1995, com capacidade para 500 pessoas. Acumulou 16 anos de liderança e ali permaneceu até 2013, momento em que transitou para o núcleo ronfense da Fraternidade Nun’Álvares (FNA), o organismo para quem deixou o ativo. A relutância em mudar de sala foi muita. “Via a Fraternidade como um grupo de velhotes”, ri‐se. Mas aquele grupo de 22 homens e 10 mulheres, dos 40 anos para cima, faz acampamentos, caminhadas, visitas a instituições da freguesia e a outros núcleos escutistas, sem deixar de se reunir no primeiro domingo de cada mês. Fá‐lo no salão paroquial, num amplo espaço em que o símbolo do CNE reveste cada cadeira.

Também ao sol de Calvos se vê a FNA: está gravada na t‐shirt e no trabalho de Marta Gomes ao longo dos últimos quatro anos. Pertence ao núcleo daquela paróquia, fundado em julho de 2020 pelo malogrado Agostinho Sampaio, continuando o trajeto iniciado na alvorada da década de 90, no Agrupamento 936. “Quem é escuteiro uma vez é escuteiro toda a vida. Não se consegue desligar”, reitera. Na hora de revisitar os primeiros fragmentos dessa caminhada, reencontra um CNE diferente daquele que António Andrade conhecera em 1959. O organismo segue os ventos de mudança do país. Os estatutos mudam após a revolução de 25 de Abril de 1974, com o sufrágio direto a constituir‐se como método para eleger a Junta Central e as mulheres a serem admitidas às várias secções.

Velhas resistências teimaram, porém. O Agrupamento de Calvos sentiu‐o aquando da sua fundação, em maio de 1989. "Na fundação, estava o meu pai, Armando Gomes. Na altura, o nosso pároco não deixava haver mulheres no CNE. Mas logo em julho, entraram quatro”, recorda a escuteira de 45 anos. Uma delas era a irmã, a quem seguiu as pisadas. Tal como em criança, está pronta para “servir, trabalhar, ajudar”; se assim não for, considera preferível interromper a atividade, como chegou a fazer, por motivos profissionais. “Como não tinha disponibilidade para estar, deixei. Mas havia aquele bichinho. Fica sempre aquele bichinho dentro de nós”, confessa.

Outra coisa que fica é o respeito da comunidade, entre ondas de crescimento e de abrandamento. “Quando vou na rua, ainda me chamam chefe Marta”, ri. Três anos mais velho, Jorge Freitas nota o mesmo, em Fafe, onde iniciou o percurso no CNE, e em Calvos, onde vive desde 2001. Responsável máximo de um agrupamento de 52 elementos, destaca ainda a participação feminina, ilustrando‐a com o caso dos pioneiros. “Nos pioneiros, em 12 escuteiros, 10 são raparigas”, constata o dirigente. O fenómeno vai ao encontro da perceção de António Andrade, em Ronfe. “Vê‐se mais raparigas do que rapazes. Elas têm muitas coisas fora dos escuteiros, mas são formidáveis”, assinala.

 

Jorge Freitas e Marta Gomes dinamizam o escutismo em Calvos ©RFX/Tiago Mendes Dias

Jorge Freitas e Marta Gomes dinamizam o escutismo em Calvos ©RFX/Tiago Mendes Dias

 

Um recanto multifacetado na Penha

Atingido o pico de quatro mil escutas em 2000, o Núcleo de Guimarães deambula pela casa dos três mil desde então; a condição de maior núcleo do CNE é “uma responsabilidade grande” que merece respostas à altura, nas salas dos agrupamentos ou no contacto com a natureza. O Penha – Centro Escutista de Guimarães é o ex‐libris para atividades ao ar livre; celebrado o protocolo com a Paróquia da Colegiada de Nossa Senhora da Oliveira para a cedência do direito de superfície por 50 anos, o núcleo inaugurou o espaço na peregrinação anual à Penha, a 09 de setembro de 2012.

Desde então, são mais de 200 as atividades que ali decorrem anualmente, respeitem elas a agrupamentos, ao Núcleo de Guimarães, à Região de Braga ou ao país inteiro, como acontece com o Kimball, atividade para exploradores. Aquele recanto extravasa aliás as fronteiras de Portugal, como se viu no Rover Ibérico de 2015, com mais de 1.300 caminheiros de Portugal e Espanha. “É a nossa joia da coroa, com três hectares de natureza e equipamentos que nos permitem receber escuteiros do mundo inteiro. Não tem nada a ver com o que era há 20 anos”, resume Alexandre Novais.

Assim que se cruza a entrada, o olhar alcança a horta pedagógica entre caminhos e muros bem cuidados, o Centro de Interpretação Ambiental, inaugurado em 2017, um antigo alpendre com adereços escutistas e a casa Paulo Mexias, o imóvel por recuperar. “Está ao serviço da formação dos escuteiros. Precisamos de o pôr mais funcional. Precisamos de mais cozinhas de apoio e de mais salas para as grandes atividades”, acrescenta.

 

Centro Escutista da Penha dispõe de salas para formação, horta pedagógica e 2000 lugares para acampar

Centro Escutista da Penha dispõe de salas para formação, horta pedagógica e 2000 lugares para acampar

 

Entre “agendas loucas”, há “sempre alento para o futuro”

As infraestruturas importam, mas a preocupação que sobressai no Núcleo de Guimarães é a de “abrir portas e horizontes a todos”. Definida a fasquia dos 3.500 escuteiros para os próximos três anos, o chefe do Núcleo de Guimarães realça que as muitas entradas para os lobitos dão “alento para o futuro” após uma pandemia que limitou severamente o quotidiano escutista. Mas o ambicionado dinamismo no número deve sempre aliar‐se à “formação de bons escuteiros”, capazes de socializar para lá dos ecrãs dos telemóveis, com vista a “uma sociedade mais justa, fraterna e coesa”, sem esquecer o imperativo de “fazer bem à natureza”.

Ainda recordado dos agrupamentos que se extinguiram, como o de Balazar ou o de Donim, paróquias “limitadas em termos de crianças”, José Miguel Salgado reconhece o desafio de atrair crianças num tempo de futebol, de atividades extracurriculares, de explicações escolares. “Os pais esperam muito dos filhos, porque querem as melhores notas possíveis. As crianças têm agendas loucas, agendas que nunca tivemos em crianças. O escutismo está aqui para as ajudar a serem cidadãs do mundo”, alerta. Pronto para os sete a oito mil escuteiros que se vão encontrar em Guimarães no mês de outubro para a abertura de mais um ano da Região, o antigo chefe de Núcleo defende ainda que cada paróquia tem “mesmo de querer” o respetivo agrupamento para que os escuteiros façam sentido.

No caso de Bruno Freitas, 20 anos, a missão de abrir portas aos lobitos de Infantas faz todo o sentido, mesmo quando a secção de caminheiros se resume a ele e à prima, Rafaela Guimarães, que viajou de Lisboa, onde estuda, para participar no acampamento de Calvos. “Quando entramos para os caminheiros, entramos para a universidade ou começamos a trabalhar. É a secção que menos gente tem”, admite o escuteiro, sem esquecer aquilo que o Agrupamento 703 lhe deu nos últimos 15 anos.

O lobito “rabugento”, que “amuava com qualquer coisa”, começou a “conviver com as pessoas” e a “lidar melhor com opiniões diferentes”. Mais jovem, Alice Ribeiro, de São Lourenço de Selho, exprime simplesmente o entusiasmo de mais um acampamento, com a equipa de oito exploradores do Agrupamento 106. “Sinto me muito feliz. Não me arrependo da minha escolha, porque é muito divertido e acaba por se ter muito boas amizades”, afirma, confessando que, à semelhança de Martim, o que mais gosta é de acampar.

Em Serzedo, Teresa Santos convive com um grupo mais populoso – 30 pioneiros num universo de 104 escutas. O futuro, crê, passa pelo agrupamento que é o segundo maior de Guimarães. “Quero ser pioneira, depois caminheira, chefe. Estou para ficar aqui até ser velhota”, sorri.

 

Nota: Esta edição do Jornal de Guimarães foi fechada a 14 de maio e publicada a 17 de maio. Face à informação disponível na altura, a reportagem menciona o Toural como o palco das comemorações dos 100 anos do Núcleo de Guimarães. Como é sabido, a celebração deslocalizou‐se para o Multiusos de Guimarães, face ao tempo chuvoso que se deu em 18 de maio.

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