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“Um convite diferente à imaginação” num teatro entre a rua e a cozinha

Tiago Mendes Dias
Cultura \ sexta-feira, maio 27, 2022
© Direitos reservados
Nesta sexta-feira, a Avenida D. João IV é palco da estreia de “Showroom”, performance que explora as várias dimensões da mulher na cozinha, numa relação diferente “entre espetador e intérprete”.

A “expetativa” de quem vê é que “as coisas aconteçam nos seus lugares convencionais e convencionados”, sublinha Rita Morais, à medida que a estreia de Showroom, criação que interpreta a solo, se aproxima. A partir das 21h30 desta sexta-feira, a atriz conduz uma performance de 60 minutos através de uma loja de cozinhas na Avenida D. João IV, cabendo-lhe evocar as representações da mulher associadas àquele espaço por mais sete dias, até 03 de junho.

À porta da segunda experiência site-specific da carreira – a estreia aconteceu numa pastelaria, em Lisboa -, Rita Morais crê que uma “manifestação artística” como essa é “sempre uma coisa fora do baralho”, uma centelha para uma “tensão diferente” da que se sente numa plateia de um teatro.

“Há ali um convite diferente à imaginação, porque as pessoas estão na rua, a olhar para uma verdadeira loja de cozinhas. Estão a ver de fora, e é-lhes atribuída esta figura do voyeur. O espetáculo tem essas bolsas de ar para preencher esse imaginário, diferente do da cadeirinha do teatro”, sugere.

À espera de que os gestos e movimentos gerem “surpresa e transformação” a quem assiste, a atriz de Guimarães está a ensaiar desde março, em diálogo com a encenadora Manuela Ferreira, alguém com experiência mais vasta em site-specific; já o fizera há 10 anos, com Na fábrica, numa antiga têxtil em Santo Tirso, no balneário termal da vila de Caldas das Taipas, com Aquistas, e até na própria casa, com Cinco salas a la carte para uma casa com passadiço.

“O site-specific surge do interesse em desestabilizar essa relação mais convencional entre público e cena, entre espetador e intérprete (…). É um convite e uma provocação a outro protocolo de encontro”, resume a criadora que já trabalhara com Rita Morais em obras como Do Avesso (2018), visita performativa que incluía aos lugares desconhecidos do Centro Cultural Vila Flor.

O facto de Showroom ocupar a loja da DL Cozinhas, empresa sediada em Gandarela, e não “um espaço codificado para o efeito” – uma plateia ou uma sala de teatro – “influi de forma muito direta no mecanismo percetivo do espetador”. E as “experiências de receção”, espera-se, serão diferentes nesta “proposta híbrida”, que se reparte pelo espaço público e por um espaço privado.

“Teremos aquele espetador avisado que reservou lugar no espaço público e que, enquanto assiste ao espetáculo, apreende a narrativa sonora”, diz, a propósito dos 25 pares de auscultadores, disponibilizados a título gratuito mediante reserva. “E há o espetador não avisado, um transeunte, que de repente vai a passar e não sabe o que está ali a acontecer. Há possibilidades de ver que não conseguimos, desde já, prever ou antever”, antecipa.

 

Rita Morais é a intérprete de Showroom  © José Caldeira

Rita Morais é a intérprete de Showroom © José Caldeira

 

Uma “conversa” para “desmontar” os lugares da mulher

Convite e provocação, a performance em exibição a partir desta sexta à noite também se apresenta como “uma conversa sobre a condição feminina”, tecida com inspiração no cinema. Numa parceria com o Cineclube de Guimarães, Manuela Ferreira e Rita Morais exploram a “atmosfera” de alguns dos filmes que viram e as “temáticas” de outros para evocar um imaginário com “pegadas no emocional, no inconsciente, no irracional”, que se propõe “desmontar”.

“O cinema é um instrumento com poder enorme no que toca à criação de normas, valores, representações várias”, declara. “Esse é um exercício de desmontagem e de reconhecer as estratégias envolvidos na criação dessas representações que criam formas de pensar e que definem o lugar da mulher do mundo”.

Rita Morais, a quem caberá interpretar essas representações, enaltece, por seu turno, o aumento das “possibilidades de experiência artística” implícito na relação com o Cineclube e na sua retirada do “espaço tradicional” ou da black box.

“É imprescindível para a prática artística a possibilidade de qualquer lugar e de qualquer contexto serem potenciais espaços de teatro, de um invento artístico. Gosto de pensar o teatro como um espaço de liberdade onde cabe dança, onde cabe música, onde se observa algo”, realça.

À exceção da logística dos headphones, o espetáculo é gratuito até 03 de junho, prevendo-se depois uma digressão por Espanha, com espetáculos na Associação Cultural Exlímite, em Madrid, na Sala Ártika, em Vigo, na Universidade de Málaga e no Centro Dramático Galego, em Santiago de Compostela. Caso se confirme a volta por Espanha, Rita Morais e Manuela Ferreira vão contar com “um dispositivo móvel passível de ser levado em digressão e de ser integrado num museu ou num espaço não convencional, precisamente no tempo de ensaios”. “Se fizéssemos em lojas de cozinhas, seria uma nova criação de cada vez que chegássemos”, assume a performer.

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