Uncover volta para descodificar “poder da imagem” e “imagem como poder”
Enquanto festival que procura refletir sobre o significado e o poder das imagens na forma como as sociedades contemporâneas se constroem e percecionam, o Uncover desenrola-se pela segunda vez entre 12 e 15 de março, preferivelmente numa articulação profunda com a comunidade, sentindo-se já parte do tecido cultural e crítico de Guimarães.
“Gostávamos que ficasse por aqui sempre, se nos acolherem com o carinho que têm acolhido até agora. Desde o início que o festival foi pensado com Guimarães. Houve uma ideia inicial que surge dentro do Gerador. A sua discussão, a sua amplitude, a forma de ser apresentado foi discutida em conjunto com Guimarães. Este festival é nosso, mas também é de Guimarães. Não o consigo imaginar noutro local”, realçou Tiago Sigorelho, presidente do Gerador, na conferência de imprensa de apresentação da segunda edição.
Depois de uma edição inaugural com nomes como Cristina Viana, Gonçalo M. Tavares, Luís de Matos, Nuno Gervásio, Dread Scott, Clara Não ou Pedro Morgado, que, para Tiago Sigorelho, superou as expetativas, principalmente quando é um “festival mais complexo de explicar” do que um festival de música ou de literatura, a segunda reúne nomes portugueses e internacionais para prolongar a discussão do papel das imagens, omnipresentes nos quotidianos contemporâneos.
A rapper e escritora portuguesa Capicua marca presença na Garagem Avenida, um espaço ideal para o Uncover, por “ser plano” e “permitir ao orador falar no meio do público”, de “forma mais horizontal”, no primeiro dia, a partir das 18h15, com “Feminismos e resistências hoje”, uma “masterclass sobre a importância da voz da mulher num mundo atual em que parece ser ocupado pelo homem forte”, disse o líder da Associação Gerador.
No dia 13, Franco Berardi, filósofo italiano, de 79 anos, apresenta “Ver para crer? A manipulação da imagem na era dos populismos”. “Vem falar da imagem como arma para a desinformação. É uma pessoa que provavelmente já não vamos ver muitas vezes no futuro”, acrescentou.
O dia 14 conta com “Perceção versus Realidade: apresentação de estudo inédito sobre perceção em Portugal”, sessão apresentada por Bobby Duffy, a partir das 15h30, diretor do Policy Institute do King’s College. Autor de “Os perigos da perceção”, livro que aborda o fosso entre factos e crenças, o investigador dirigiu o Instituto Ipsos, entidade vocacionada para a investigação social, que realizou o maior estudo do mundo sobre perceções públicas. “Ajudámo-lo a fazer um estudo em Portugal sobre perceção. Começou há cerca de um mês, com 1.200 entrevistas. Tem o dobro das entrevistas da tracking poll da CNN. Vai-nos permitir perceber como os portugueses pensam em relação a muitos temas”, descreveu Tiago Sigorelho.
Nesse dia, o Uncover propõe ainda uma entrevista ao cineasta palestiniano Ala-a Aliabdallah, sobre humor e resistência à ocupação na Cisjordânia, a propósito da realização do documentário “Palestine Comedy Club” (2025), às 12h15, e uma conversa sobre o impacto do consumo digital no funcionamento cerebral, com Ana Marta Flores, a partir das 17h45.
Exposições e instalações artísticas ao longo dos quatro dias
O Uncover propõe ainda iniciativas transversais aos quatro dias: os almoços comunitários, com caminhadas artísticas orientadas por Catarina Braga e Max Fernandes, a exposição “Dez ensaios para o futuro”, com trabalhos de 10 artistas ligados a Guimarães, financiados pela Bolsa Gerador, na Pousada da Juventude, e duas instalações artísticas: “Singularidades de Guimarães”, com curadoria do vimaranense Rolando Ferreira, e “Reclaiming the night sky”, do coletivo alemão Fröhl.
“É um coletivo artístico alemão que trabalha sobre a dimensão do céu. Vão colocar no chão o mapa do céu a partir de Guimarães, mas a Starlink tem invadido aquele espaço de forma proeminente. O espaço é público, mas vamos poder ver os satélites do Starlink”, descreve Tiago Sigorelho.
Com financiamento da Câmara Municipal de Guimarães, de outras entidades, incluindo embaixadas dos países dos convidados internacionais, e ainda da bilheteira, o Uncover apresenta ingressos a custo unitário para os quatro dias de 39 euros, com um valor mais baixo para subscritores do Gerador e residentes em Guimarães (21 euros), e ingressos diários de 24 euros – ou de 13 para os residentes em Guimarães ou subscritores do Gerador.
“Parceria estratégica com participação ativa da comunidade”
Antes da intervenção do presidente do Gerador, a vereadora municipal para a cultura, Isabel Ferreira, vincou que o Uncover acarreta “uma série de desafios para pensar o presente e projetar o futuro” num tempo de “simplificação excessiva”, em que inteligência artificial, algoritmos e plataformas digitais determinam vivências do espaço público.
“Riqueza do território está na diversidade de pensamento. Cultura é ferramenta essencial para a democracia, para a construção social, para um futuro mais justo e humano, assente na participação comunitária”, disse.