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Viver o Ave é estar perto dele. E por que não uma ecovia de ponta a ponta?

Pedro C. Esteves
Ambiente \ terça-feira, fevereiro 01, 2022
© Direitos reservados
O movimento cívico Viver o Ave defende a criação de uma ecovia integral que percorra o rio da nascente até à foz. Pouco sabemos sobre o património que o ladeia e muito pode perder-se para sempre.

Andamos de costas voltadas para o rio durante demasiado tempo, mas, explica Gualter Costa, por entre o leque de sequelas negativas, a pandemia trouxe algo de “positivo” para os nossos cursos de água: as pessoas perceberam “que era possível ver o rio cristalino e as águas transparentes”. O porta-voz do movimento cívico Viver o Ave recorda que, com o assolar da pandemia, “desmistificou-se uma ideia”: “Naquele período em que esteve tudo fechado, as pessoas aproximaram-se do rio e viram-no limpo”. Ou seja, percebeu-se que era possível dar nova vida ao Ave.

O movimento Viver o Ave tinha avançado com uma ideia: interligar os caminhos que acompanham o Ave – que “tarda em ser valorizado” – da nascente à foz e, assim, “ligar as fichas” para criar o traçado da “Ecovia Integral do Ave” – que claro, também esquarteja Guimarães. A materialização pode até durar “alguns anos”, mas Gualter Costa vê sinais de que está cada vez mais próxima de sair do papel. Não só porque o movimento concluiu “o levantamento dos melhores percursos pedonais e cicláveis ao longo das margens”, mas também porque a ideia já chegou à Assembleia da República.

No último terço do ano deram entrada na Assembleia da República projetos de resolução do PAN e Bloco de Esquerda que recomendavam ao Governo a criação da Ecovia do Ave e recuperação e preservação do património natural e cultural que o ladeia. “Apesar de persistirem ainda muitos episódios de poluição, o investimento público no tratamento das águas residuais tem permitido melhorar a qualidade ambiental da envolvente do rio e, com isso, atrair, aos poucos, cada vez mais pessoas para o usufruto das suas margens, lê-se no texto apresentado pelos bloquistas. Que sentencia: “Está ainda muito por fazer”.

 

“Guimarães é o grande empurrão”

Por este rio acima encontram-se, em ruínas, azenhas, açudes e moinhos seculares. E aproximar as pessoas destes vestígios que ajudam a contar a história de uma região é um dos objetivos do percurso de 146 quilómetros dividido por nove etapas levantado pelo movimento. Há muitos quilómetros dentro do concelho vimaranense. Guimarães é, na ótica do responsável, “o grande empurrão” para as ideias de valorização do curso de água: “Tem quase um terço do percurso do Ave. Tudo o que seja feito aí empurra todos os outros”. Com a Ecovia do Ave em andamento, ligando vários parques de lazer já existentes e potenciando a criação de novos espaços verdes à beira-rio, prepara-se para sair do papel a ecovia do Selho e Vizela. O plano passa por ligar as frentes ribeirinhas dos três rios na forma de 80 quilómetros de traçados.

O percurso apresentado pelo movimento cívico entra concelho adentro pelo sul: vindo de Santo Tirso, o trilho passa pela Ponte Romana de Serzedelo, segue até Caldelas e cruza o restante concelho rumo a Porto D’ Ave. Gualter Costa conhece este percurso “metro a metro”, mas mesmo assim ainda se surpreende com o que flanqueia o curso de água. Destaca o que encontrou no Parque dos Três Moinhos, na freguesia de Castelões; na Praia do Vaqueiro, no limiar entre Souto Santa Maria e Briteiros Santo Estêvão; o Parque de Lazer de Gondomar; e as levadas no Parque da Ínsua, em Ponte.

 

A norte do concelho, entre os Soutos e Santo Estevão, a Praia do Vaqueiro.

A norte do concelho, entre os Soutos e Santo Estevão, a Praia do Vaqueiro.

O Parque dos Três Moinhos, na freguesia de Arosa e Castelões

O Parque dos Três Moinhos, na freguesia de Arosa e Castelões

A levada que separa a vila de Ponte e Caldas das Taipas

A levada que separa a vila de Ponte e Caldas das Taipas

 

O concelho vimaranense tem, segundo o porta-voz, muito “património que foi um motor desta região durante séculos". “Mas”, frisa, encontra-se "em ruínas": “Estamos à beira de o perder para sempre”.

Esta é outra razão evocada para a criação deste movimento que já reuniu com autarquias, inclusive com o Laboratório da Paisagem. “Estive sempre ligado à preservação do património e sou um curioso. Falei com o arquiteto Bruno Matos, a pessoa que mais tem estudado os moinhos do rio, e criamos uma página [nas redes sociais] para tentar perceber se havia sensibilidade para este tipo de coisas no nosso rio Ave”. Conclusão: havia. Nasceu assim o Viver o Ave - Movimento para a Proteção Ambiental e Promoção Patrimonial.

“O Ave, em termos de património, é riquíssimo. Com as pontes que tem, se unirmos azenhas, moinhos, citânias e criarmos redes de ligação para unir a ecovia a esses pontos de interesse temos uma das mais ricas do país”, explica Gualter Costa.

Um rio sem BI

Da nascente montesina até à foz são 85 quilómetros. O cariz serrano desvanece-se e encontra paisagens industriais, acabando por desaguar no Atlântico – pelo meio rasga seis concelhos. À superfície, o rio Ave é isto. Mas pode ser muito mais. O movimento cívico quer documentar a história do património que ladeia o curso de água – mas é tarefa difícil.

Salvaguardar o património e saber como o reconstruir para que no futuro seja recuperado é uma prioridade. Em declarações ao Jornal de Guimarães aquando dos primeiros passos do movimento, Bruno Matos, voluntário, arquiteto e investigador de património molinológico no Centro de Estudos de Arquitetura e Urbanismo da Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto (FAUP) referia que “seria benéfico” haver por município um engenho – uma azenha tradicional, por exemplo – com um objetivo pedagógico. Isto porque o “património está a desaparecer” e apenas os moleiros sabiam reconstruir estas infraestruturas.

E há poucos registos fotográficos. Gualter Costa tem dado conta disso nas reuniões que tem feito com juntas de freguesia. “Ainda recentemente estivemos em Riba d’Ave para falar com a Fundação Narciso Ferreira e fazer um projeto conjunto para recolher dados históricos”, adianta.

Um dos projetos em curso é a criação de um repositório de acesso gratuito. Algo que não seria útil somente para curiosos: “O Bruno fala-me que às vezes tem pedidos de projetos para reabilitar azenhas e não há fotografias. Não é que não haja, é que estão perdidas nas gavetas lá por casa”.

Para alimentar o nosso conhecimento sobre o rio, a associação tem pensadas iniciativas para levar as pessoas a caminhar ou a pedalar o rio de lés a lés, mas também a criação do Portal do Ave “com percursos, sítios onde comer, dormir e aproveitar para divulgar pontos de interesse para dar a conhecer de forma virtual todo o rio desde a nascente à foz”. Todos podemos ajudar. É “a beleza de um projeto cidadão” e há entradas no Bilhete de Identidade deste rio que precisam de ser preenchidas

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