Dia da Mãe
No próximo domingo celebra-se mais um Dia da Mãe. Veremos as redes sociais cheias de momentos performativos com todas as mães. Presentes, almoços, lembranças…
Ora, as mães são, antes de tudo, mulheres. E o melhor presente que lhes podíamos dar, a elas, às filhas delas, às mães delas e, no fundo, a toda a sociedade, era percebermos onde estamos a falhar com elas e o que podemos melhorar.
Continuamos a viver numa sociedade onde as mulheres têm mais dificuldade em chegar a cargos de poder, mesmo em áreas onde até são mais que os homens (como no caso da Medicina, por exemplo). As mulheres continuam, numa percentagem muito significativa, a ganhar menos para o mesmo trabalho, quer em termos de salário base, quer em termos de prémios de produtividade, sendo que essa diferença é tanto maior quanto maior o cargo desempenhado.
No fim de semana passado tive o privilégio de moderar uma sessão no Congresso Português de Cardiologia sobre a diferença de género – o que a evidência científica nos mostra é que as mulheres recebem tratamento mais tardiamente e de menor qualidade, quando comparadas com os homens, e têm uma sub-representação na maioria dos ensaios clínicos. Nessa mesma sessão foi apresentado um inquérito a Cardiologistas, de nível nacional, no qual se concluía que uma das principais causas para as mulheres médicas não optarem por uma determinada área de intervenção da Cardiologia era, precisamente, a dificuldade em equilibrarem o trabalho com a vida familiar, motivo esse que nunca foi razão para nenhum Cardiologista homem deixar de seguir essa área.
O Relatório anual de segurança interna (RASI) de 2025 mostrou um aumento do número de violações e de homicídios, sendo que metade deles ocorre em contexto de violência doméstica e a esmagadora maioria das vitimas são mulheres ou crianças (vítimas de homens, tantas vezes reconhecidos como ‘portugueses de bem’).
Ainda esta semana o Eurostat revelou que, na União Europeia, entre 2014 e 2024, o número de ataques de índole sexual aumentou 94% e o número de violações 150%!
E, sendo o Dia da Mãe num domingo, o mais provável é que grande parte desse dia seja passado pela vossa mãe em tarefas domésticas, não se passando o mesmo com o pai – é isso que demonstrou, no início do ano, o Observatório Género, Trabalho e Poder – que revelou que as mulheres têm uma carga de tarefas domésticas não remuneradas muito superiores aos homens, principalmente quando há filhos (22 vs 13% - tempo utilizado em tarefas domésticas não remuneradas).
Segundo o Expresso desta semana, pelo segundo ano consecutivo o número de pais que partilham as licenças parentais diminuiu, o que resulta em maior carga familiar para a mulher e maior entrave na carreira.
Como se isto tudo não bastasse para criarmos políticas de defesa das mulheres, acresce o caldinho social onde brota o discurso machista da extrema-direita, dos influencers ou de famosos como a Cristina Ferreira, onde as vítimas são culpabilizadas, onde se normaliza o controlo das mulheres e até a violência sobre elas. Onde se romantiza o papel da mulher em casa, a tomar conta dos filhos sem salário, sem se reforçar a necessidade de uma independência económica para mais tarde poder sobreviver quando já não interessar ao macho alfa.
A solução para isto passará sempre pela educação. Educar mais e melhor, educar para a sexualidade, contra os papéis de género. Educar as crianças e os adultos. Passa, também, pela criação de políticas que protejam as mulheres, eventualmente com penas mais pesadas para este tipo de crimes e, sobretudo, com julgamentos mais céleres. Passa, também, por igualar o papel do pai nas licenças de paternidade. Do meu ponto de vista, seria benéfico tornar obrigatório a licença partilhada durante 6 meses. Desta forma, conseguir-se-ia, parcialmente, eliminar a escolha preferencial de alguns patrões por homens vs mulheres em idade fértil para determinados postos de trabalho, por se antecipar o tempo que irão ficar ausentes caso engravidem, e diminuiria a pressão sobre a carreira nas mulheres.
Recomendação Cultural
Já que estou a falar sobre maternidade/parentalidade aproveito para recomendar a série de desenhos animados Bluey, transmitida em Portugal na Disney Junior/Disney+. É um retrato fiel, mas muito bem-humorado, sobre todos os obstáculos e todas as maravilhas da parentalidade. Uma série para crianças e para adultos. Quantas vezes já dei por mim a ver um episódio enquanto as minhas filhas já estão entretidas com outra coisa. É uma criação do canal público australiano e mostra como o dinheiro do Estado pode ser usado em conteúdos de qualidade. RTP, estás à espera de quê para adquirir os direitos?