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Emídio Guerreiro, o Ulisses vimaranense

Luís Lisboa
Opinião \ terça-feira, setembro 08, 2026
© Direitos reservados
Assinalaram-se no passado domingo os 127 anos do nascimento de Emídio Guerreiro, ilustre conterrâneo e paladino da liberdade. A sua vida não cabe num século nem nas fronteiras de um só mapa.

Emídio Guerreiro é, em si mesmo, vida e história. Ergueu-se em Portugal contra o salazarismo. Combateu em Espanha o franquismo nas barricadas de Barcelona. E pegou em armas no Maquis dos Pirinéus Franceses, sob o nome de clandestinidade Capitão Hélio, vertendo sangue contra a Besta nazi. Em qualquer latitude, e contra três ditaduras distintas, manteve o mesmo norte ético e a mesma urgência interior. Como sintetizou de forma lapidar Eduardo Ribeiro na homenagem do seu centenário, Emídio Guerreiro foi "uma espécie de Ulisses vimaranense que viandou pelo mundo, tendo na Liberdade a sua única e verdadeira Dulcineia".  

Nasceu no coração da nossa cidade, em Oliveira do Castelo, a 6 de setembro de 1899, filho de um sargento de infantaria e de uma doméstica. Como recordou Santos Simões, a sua infância decorreu "a dois passos da sombra, já então desvanecida, da Torre de Nossa Senhora da Guia e da matriz cultural de Guimarães, a Colegiada de Nossa Senhora da Oliveira". Era como se as duas fadas que haviam presidido ao seu nascimento lhe tivessem anunciado um destino de rigor científico e de insubmissão perante qualquer invasor.  

Inspirado pelo republicanismo paterno, alistou-se ainda jovem como voluntário no exército para combater na Primeira Guerra Mundial. Não chegando a ser mobilizado para a frente, regressou aos livros e ingressou na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, onde se licenciou em Matemática sob a mestria de Gomes Teixeira. Na academia portuense integrou o Orfeão, presidiu à Associação Académica, atuou no teatro universitário e, a 3 de fevereiro de 1927, insurgiu-se de armas na mão contra a Ditadura Militar, na boca da rua de Santa Catarina.  

A sua busca pela justiça levou-o também à Maçonaria. Em 1928, fundou no Porto a Loja A Comuna, adotando o nome simbólico de "Lenine", expressão da receção crítica e pioneira do pensamento marxista pela sua geração, sem jamais se submeter aos dogmatismos nem aos totalitarismos soviéticos.  

Nomeado Assistente de Cálculo Diferencial na Faculdade de Ciências em 1931, viu a sua carreira docente ser abruptamente interrompida, apenas três meses depois, pela perseguição política. Preso no Aljube, em 1932, por ter assinado um manifesto contra Óscar Carmona, conseguiu evadir-se, dando início a um exílio que se prolongaria por mais de quatro décadas.

Em Espanha lecionou na Galiza e alistou-se nas Brigadas Internacionais para defender a Segunda República. Com o triunfo de Franco, atravessou a fronteira e foi internado nos campos de concentração franceses.  

Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, libertou-se e mergulhou na Resistência Francesa. No grupo Louis Sabatié das Forças Francesas do Interior, o Capitão Hélio participou em ações de sabotagem e combate direto na região de Toulouse e Montauban, onde acabou ferido. António Guterres descreveu-o precisamente como esse "sempre herói aventureiro da justiça que dentro de grades é que não ficava", acrescentando que "sófrego de ser livre entre os livres, Portugal deve-lhe, sobretudo, a palavra que mais ama e fez bandeira de uma vida e de um povo: Liberdade".  

Finda a guerra mundial, fixou-se em Paris como docente no Lycée Janson-de-Sailly, transformando a sua casa num porto de abrigo para os opositores ao Estado Novo. Fundou o Comité para a Defesa das Liberdades em Portugal e tornou-se representante do General Humberto Delgado na capital francesa. Quando o "General Sem Medo" foi atraído à cilada de Badajoz em 1965, foi Emídio Guerreiro o primeiro a denunciar corajosamente à imprensa internacional que Delgado "ou estava morto ou estava preso", desmantelando a farsa que a PIDE tentava erguer.  

Dois anos mais tarde, a 5 de junho de 1967, a sua mente de matemático e a sua audácia de conspirador fundiram-se num episódio lendário. Organizou em Paris uma conferência científica sob o título "A Dialética das Matemáticas Modernas: Lógica Universal da Aritmética Racional". Sob a capa da aritmética, as iniciais "L.U.A.R." revelavam o verdadeiro propósito da sessão: o aliciamento e a apresentação da Liga de Unidade e Acção Revolucionária, fundada com Hermínio da Palma Inácio para o combate direto e armado ao regime salazarista.  

Com a alvorada de Abril de 1974, regressou à sua pátria. Apesar de se identificar com o "socialismo humanista", a profunda incompatibilidade com Mário Soares levou-o a aceitar o convite de Francisco Sá Carneiro para integrar o PPD. Chegou a assumir interinamente a Secretaria-Geral do partido em maio de 1975 e foi eleito deputado à Assembleia Constituinte pelo Círculo do Porto. Na sessão inaugural do Parlamento Constituinte, a 2 de junho de 1975, a sua presença foi objeto de profunda saudação por parte do plenário, reconhecendo nele a reserva moral da luta antifascista.  

Contudo, a sua passagem pelo PPD seria breve. No final desse mesmo ano, na sequência de fortes divergências doutrinárias e em desacordo com o rumo que Francisco Sá Carneiro imprimia ao partido, renunciou aos cargos dirigentes e passou a deputado independente. Sobre essa rutura e a sua recusa de uma disciplina partidária cega, proferiu uma afirmação que resume o seu código de honra:

"Não confundo a disciplina de um partido com a servidão de consciência. Aderi ao PPD para combater pela social-democracia e pela dignidade humana, não para servir ambições pessoais. Quando a fidelidade ao partido exige a traição às minhas convicções, a minha escolha está feita: fico com as minhas convicções e com a Liberdade."

A solidariedade social e a justiça humana não foram, para ele, meros conceitos teóricos de gabinete. Fiel ao ideal de que a dignidade humana é indissociável da liberdade, empenhou-se na criação do Centro de Solidariedade Humana Professor Emídio Guerreiro, erguido pela Santa Casa da Misericórdia, com o apoio da Câmara Municipal e do Estado, nos terrenos anexos ao antigo Hospital de Santo António dos Capuchos. Vocacionado para acolher os mais desfavorecidos e as pessoas com necessidades especiais, o centro tornou-se também a sua última morada. O arbítrio quis que o próprio Professor Emídio Guerreiro ali falecesse, a 29 de junho de 2005, aos 105 anos, habitando no último suspiro a obra de fraternidade que ajudara a edificar.

A sua despedida derradeira foi o reflexo exato da coerência da sua vida. Das câmaras ardentes no Palácio Maçónico e na Associação 25 de Abril, em Lisboa, até ao regresso a Guimarães e à passagem pela Sociedade Martins Sarmento, o seu funeral reuniu centenas de cidadãos num último tributo em que ecoaram as palavras fúnebres do seu amigo António Arnaut. A urna, coberta por cravos vermelhos e sem qualquer símbolo de luto ou marca religiosa, cumprindo escrupulosamente a sua vontade, atravessou a cidade berço ao ritmo retumbante dos tambores dos Nicolinos, os velhos e novos estudantes vimaranenses com quem sempre partilhou a alma e o sentimento de pertença.

O seu percurso foi reconhecido nacionalmente ao ser feito Comendador da Ordem da Liberdade em 1980 por Ramalho Eanes e agraciado com a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade em 1999 por Jorge Sampaio. Na celebração do seu centenário, no próprio texto do seu agradecimento, Guerreiro convocou Jean-Paul Sartre para resumir o valor supremo que o guiou: "A liberdade é o apoio de todas as qualidades humanas, essa liberdade que só existe quando existe a liberdade dos outros". E foi sobre essa inteireza moral que Santos Simões proclamou: "Antes de tudo, do lutador infatigável, do colega das matemáticas e do homem para quem a solidariedade humana é muito mais do que legenda, o que mais admiro é a sua coerência exemplar num mundo povoado de camaleões, sátrapas, vendilhões e invertebrados."  

Visitei a sua sepultura no Cemitério da Atouguia, e ali depositei as flores da liberdade. Continua a ser depósito fiel desse símbolo para todos os que, como eu, ali se dirigem em peregrinação cívica. Numa lápide pode ler-se a síntese do seu pensamento laico e independente:

"Neste túmulo estão as cinzas do combatente da liberdade, Professor Emídio Guerreiro, nascido a 6 de setembro de 1899, faleceu conforme a sua vontade no dia 29 de junho de 2005, sem interferência de qualquer transcendência."

Ao cruzar três séculos e enfrentar três ditaduras, Emídio Guerreiro deixou-nos uma herança viva, que recusa o acomodamento e a resignação. Para todos os vimaranenses, é uma profunda honra tê-lo como conterrâneo e podermos inspirar-nos na sua verticalidade, renovando o compromisso cívico de preservar e perpetuar a sua obra na memória coletiva da nossa terra e do nosso país.

 

Fontes:

• ASMAV, Emídio Guerreiro: 120 Anos do Nascimento - Vimaranense, Cidadão Universal, 2019.

• Diários da Assembleia Constituinte, 1975–1976. • Emídio Guerreiro - Cem Anos de Luta pela Liberdade, Edição da Comissão de Homenagem, 2000.
• Luís Farinha, Emídio Guerreiro - Sob o Despotismo da Liberdade, 2021.
• Universidade do Porto, Antigos Estudantes Ilustres da Universidade do Porto: Emídio Guerreiro (1899–2005), 2008.

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