Enchíamos duas vezes o D. Afonso Henriques de crianças palestinanas
A Câmara Municipal de Guimarães emite comunicados sobre quase tudo. Sobre uma marcha a cavalo, sobre as relações com o México. Faz bem, é para isso que lá está.
Há dias emitiu um sobre Israel. Chama-se “Guimarães reforça ligações com Israel”, fala de inteligência artificial, de desenvolvimento de software, de indústria avançada e do setor espacial, e é um texto animado, cheio de futuro, escrito por quem tem obrigação de atrair investimento e o quer fazer bem.
Não tem uma linha sobre Gaza.
Comecemos por onde Ricardo Araújo tem razão, porque neste ponto tem…. Um presidente de câmara recebe os embaixadores acreditados em Portugal. Recebeu treze. Não lhe compete fazer triagem diplomática e não é isso que lhe peço. Peço-lhe apenas que saiba em que mundo vive.
Porque receber não é celebrar. Abrir a porta a quem o Estado português acredita é rotina de qualquer autarca e ninguém lhe pede contas por isso. Daí até publicar uma nota onde o mundo em redor não existe vai uma distância que ninguém o obrigou a percorrer.
E o que se passa no mundo está documentado por quem tem autoridade para o documentar. Em setembro do ano passado, a Comissão de Inquérito independente das Nações Unidas concluiu que Israel cometeu genocídio em Gaza e que altos responsáveis do Estado israelita, incluindo o primeiro-ministro, incitaram à sua prática. Meses antes, a Amnistia Internacional tinha chegado à mesma conclusão. Ainda antes, o Tribunal Internacional de Justiça ordenou a Israel medidas provisórias para prevenir atos de genocídio e declarou ilegal a ocupação dos territórios palestinianos. O Tribunal Penal Internacional emitiu mandados de detenção contra Benjamin Netanyahu e Yoav Gallant, incluindo pelo uso da fome como método de guerra. Em agosto de 2025, as Nações Unidas declararam fome em Gaza, o que nunca antes tinha sucedido no Médio Oriente.
Dir-me-ão que há cessar-fogo desde outubro. Há. E desde então as Nações Unidas contabilizam mais de mil e trezentos mortos e mais de quatro mil feridos em Gaza, e na Cisjordânia, só este ano, oitenta e dois palestinianos mortos, dezanove deles crianças. Continua a acontecer enquanto lemos o jornal.
Nenhum presidente de câmara é obrigado a resolver isto. Mas qualquer pessoa que leia um jornal sabe que está a acontecer.
Vinte e quatro horas depois do embaixador de Israel sair dos Paços do Concelho, Varsen Shahin, ministra dos Negócios Estrangeiros da Palestina, estava no Palácio das Necessidades a assinar memorandos com Portugal e a ouvir Paulo Rangel chamar àquilo “um momento histórico”. Nesse mesmo dia, Rangel disse que a Cisjordânia está sob “um verdadeiro cerco”, que a expansão dos colonatos é “para nós intolerável” e que a população de Gaza “vai ter o terceiro inverno em tendas”.
O Governo que reconheceu o Estado da Palestina é liderado pelo PSD. O ministro que assinou, com mais dezoito ministros dos Negócios Estrangeiros, a declaração que chama ao que Israel faz na Cisjordânia “uma anexação de facto inaceitável” também é do PSD.
Este executivo, além de passar um pano sobre um genocídio, ainda consegue a proeza de se colocar à direita do seu próprio Governo, do seu mesmo partido. Uma câmara PSD/CDS ficou atrás da política externa que o PSD e o CDS executam em Lisboa, e isso é coisa difícil de conseguir por acidente.
Falta saber se, entre os treze embaixadores recebidos, esteve o representante do Estado da Palestina, que Portugal reconhece há um ano. E falta a câmara dizer que compromissos foram discutidos, incluindo na tecnologia aplicada aos serviços municipais e na proteção civil, que é onde vivem os dados de quem cá mora, declarar que critério aplica a audiências e geminações, e assumir por escrito que o direito internacional é condição das suas relações institucionais. É o mínimo e já foi dito em voz alta pelo Governo português.
Deixo uma imagem, porque os números grandes, por vezes, anestesiam e não quero anestesiar ninguém. A Comissão de Inquérito das Nações Unidas contabiliza vinte mil crianças mortas em Gaza e quarenta e quatro mil feridas. Se tivéssemos começado em outubro de 2023 a ir a um funeral por dia, um por cada criança assassinada, faltar-nos-iam hoje mais de cinquenta anos de funerais.
E se essas sessenta e quatro mil crianças, mortas e feridas, se sentassem no Estádio D. Afonso Henriques, enchiam-no duas vezes e ficavam quase quatro mil à porta.
Sobre isto, o comunicado da câmara não teve nada a dizer.