Já não dá mais p’ra viver com Governos de Direita
No passado dia 10 de outubro, milhares de portugueses encheram as ruas de diversas cidades do país. O motivo? Protestar acerca do aumento do custo de vida, insuportável para as famílias portuguesas. O protesto em Portugal surge num contexto marcado por vários protestos da mesma natureza em diversos países europeus.
Começando pelo nosso vizinho mais próximo, Espanha, cuja população sai às ruas em prol da crise habitacional. A situação de Maricarmen Abascal, idosa de 87 anos que se viu despejada do imóvel onde habitou durante quase toda a sua vida, provocou esta onda de protestos, que, por sua vez, levou à proposta por parte do Governo de Sanchéz a medidas habitacionais urgentes, como a proibição dos despejos para pessoas vulneráveis. No entanto, as propostas apresentadas foram chumbadas no Parlamento espanhol – entenda-se, pelos partidos de Direita e de Extrema-Direita, como o Partido Popular, o Vox, o Juntos pela Catalunha e a União pelo Povo Navarro. A falta de apoio a medidas tão urgentes, que uniram o apoio das forças da Esquerda, anteciparam as eleições no país.
Em França, a onda de protestos tem um cariz diferente, porém dizem respeito a um problema que, à semelhança do que acontece em Espanha, também diz respeito a Portugal: a crise no setor do Ensino. Passaram-se três semanas desde que os estudantes franceses saíram à rua para protestar contra a falta de professores, as turmas sobrelotadas e a falta de recursos nas escolas. Estes protestos nutrem o apoio de organizações estudantis e sindicais, sendo que está agendada, do mesmo modo, uma manifestação contra a crise do custo de vida – sobretudo devido aos elevados preços dos combustíveis e da energia, que esgotam o orçamento de muitas famílias. A mobilização estudantil já se compara à manifestação de maio de 1968, quando os protestos paralisaram o país. A violência policial é outra questão que tem chamado à atenção relativamente aos protestos; milhares de polícias atacam os jovens em protesto, tendo organizações de defesa dos Direitos Humanos chamado a atenção pela brutalidade policial e aos ferimentos causados aos estudantes, muitos destes menores.
Os problemas que assolam a Bélgica são semelhantes aos dos restantes países – o aumento do custo de vida e a proposta de medidas de austeridade do Governo. Os trabalhadores belgas vêem-se obrigados a trabalhar mais horas semanais, sem conseguir suprir o valor das despesas. A conta da luz aumenta e a qualidade de vida diminui. Estes protestos, que também surgem no seguimento de protestos estudantis, receberam uma resposta policial violenta, tendo respondido com gás lacrimogéneo e bastonadas – sobre adultos, mas também sobre menores de idade.
A onda de protestos registada por toda a Europa apresentam diversos tópicos comuns: governos marcados pela presença de líderes ou um elevado número de deputados de Direita; a dívida pública elevada, que coloca pressão, claro, sobre os trabalhadores, os pensionistas e as famílias com menos rendimentos; a crise de setores fulcrais para a sociedade, nomeadamente a Educação; o aumento do custo de vida, associado ao aumento do custo dos combustíveis e da energia. E em Portugal?
O contexto atual português pouco difere do dos restantes países europeus. A crise habitacional atinge o nosso país a níveis nunca antes vistos. As rendas em cidades como Guimarães já se assemelhavam às das grandes capitais europeias, ultrapassando o valor do salário mínimo em três vezes. Agora o Governo, após um acordo das bancadas do PSD e do CHEGA, propõe o aumento das rendas sem limites. Quando um inquilino entra numa casa, tem de pagar dois meses de renda e mais o valor de outros dois meses, que equivalem à caução. Agora o Governo, também apoiado pelo CHEGA, propõe a entrada com três meses de renda pagos e uma caução sem imposição de limite. No Orçamento de Estado, o Governo propõe, ainda, cortes nos apoios de acesso à habitação e do orçamento geral para a habitação.
O preço do cabaz alimentar subiu exponencialmente, sendo que, agora, custa 255 euros, uma diferença de 67 euros relativamente ao de 2022. Todas as semanas esperamos o aumento do preço dos combustíveis – algo que, na visão do Primeiro Ministro Luís Montenegro, não é um problema que possa ser controlado pelo Governo. Então, como se explicam as medidas tomadas por Espanha e pela Polónia para controlar o preço dos combustíveis? O único argumento ensaiado pelos Ministros para o controlo da crise é a “consciência dos portugueses”, consciência para controlar algo que o Governo pode controlar. A situação atinge outras proporções quando pensamos na Base das Lajes, que está ilegalmente a ser utilizada – mas com a permissão do Governo de Montenegro – para apoiar a guerra de Trump e de Israel, uma guerra que fechou o Estreito de Ormuz e que contribui para a crise do custo de vida pela qual todos e todas passamos.
A fatura da guerra e das medidas austeras é sempre paga pelos mesmos, pelos trabalhadores e as famílias de baixos rendimentos, que vêem o custo das contas a aumentar e o salário igual, pelos pensionistas, que após 40 anos de trabalho irão ver as suas pensões cortadas pelo Governo de Montenegro, pelos estudantes, abafados pelas contas e pelo aumento das propinas. A crise e o aumento do custo de vida matam – mataram Maricarmen Abascal e muitas outras ‘Maricarmens’. Por Maricarmen e por todos é que saímos às ruas no dia 10 de outubro, e continuaremos a sair, pois já não dá p’ra viver mais com estes Governos de Direita.