Mudam-se os tempos, mantém-se os problemas
Para todos os que acompanham os meus artigos, a questão do Bairro da Emboladoura já não é nova. Recordemos a realidade deste bairro: há pouco mais de dois meses atrás, os moradores do Bairro da Emboladoura aguardavam o fim das obras de requalificação, que prometiam, entre outras coisas, terminar com os telhados de amianto. O amianto, como é de conhecimento geral, é uma substância extremamente prejudicial para a saúde. Espantemo-nos nós em saber que muitos dos moradores do Bairro da Emboladoura são vítimas de doença prolongada, como cancro.
No final de junho, chegou o tão esperado dia, marcado por um aparato e pela presença, não só da Câmara Municipal de Guimarães, como do Ministro das Infraestruturas e Habitação, Miguel Pinto Luz. Nas palavras referidas pelo site da Câmara Municipal, este último terá referido Guimarães como “um exemplo inspirador de desenvolvimento para toda a região”. Mas como está o Bairro da Emboladoura depois de todos estes trabalhos?
Para quem visita o bairro, visto de fora, a realidade sofre ligeiras alterações. Num olhar superficial, vemos prédios com novos telhados e sem as ervas que, dantes, preenchiam os caleiros. No entanto, se observarmos mais atentamente, a realidade ainda não é tão diferente como seria esperado. Os telhados de amianto desapareceram, sim, mas vemos um parque infantil – ou melhor, o espaço para o parque infantil, pois não há escorregas ou baloiços para as crianças brincarem – e, ainda, as marquises inacabadas. Quando damos a volta aos primeiros edifícios, ainda vemos casas sem persianas.
O interior dos edifícios mantém as características do período das obras. Várias casas com paredes cobertas de bolor preto das infiltrações e água que escorre das paredes para as fichas de eletricidade. Como se o problema do amianto, que assombrou as casas do Bairro da Emboladoura por décadas, não bastasse, os grandes problemas de humidade nas casas ampliam as patologias dos moradores. Moradores como a dona Amélia, doente oncológica e cuja história dei a conhecer no artigo anterior, não conseguem recuperar num ambiente tão insalubre como o das suas casas. Assim, em grande parte, temos um novo contexto, ou aparentemente novo, pois os problemas, na sua maioria, mantém-se.
O Bairro da Emboladoura é um dos exemplos dos bairros esquecidos pelas autarquias, bairros que, longe da movimentação da cidade, escondem muitos problemas. Apesar da questão do amianto estar resolvida, os problemas do Bairro da Emboladoura não desapareceram com o cortar das fitas em junho. Muito pelo contrário, os problemas tendem a aumentar: o inverno que se aproxima e a temporada das chuvas aprofundarão os problemas de humidade, e, por conseguinte, os problemas de saúde dos moradores. Pouco adianta ser Capital Verde Europeia e fazer uma cerimónia rodeada de repórteres e com a presença de um ministro, se a vida das pessoas que vivem naquela realidade diariamente não for melhorada. Uma grande preocupação de uma gestão autárquica deveria ser, em primeiro lugar, a qualidade de vida dos seus cidadãos.