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Neno, o número 1

Vítor Oliveira
Opinião \ sábado, junho 12, 2021
© Direitos reservados
É medonho acreditar. É difícil aceitar. Perdemos um familiar. Nosso.

Conheci o Neno com a idade que hoje tem o meu Santiago: 12/13 anos. Tinha acabado de passar para o 7º ano e fazia parte de uma lista para as eleições à Associação de Estudantes. O Neno defendia as redes do Vitória, na sua segunda passagem por Guimarães. No fim de um treino, esperei por ele na porta do Complexo da Unidade. Fui a pé da Escola Francisco de Holanda até lá cima. Objetivo: convidar o Neno a fazer “campanha” pela Lista D, ajudando a distribuir o nosso manifesto eleitoral. Tentei a minha sorte. 

Antes disso, fui a uma loja estampar numa camisola branca a letra D e o nome de Neno nas costas, acompanhado pelo número 1, também ele gigante. Lembro-me que tive de juntar 700 escudos, já com o valor da impressão incluído. Pouco importou, claro! Tinha de reunir argumentos para o Neno não ter que dizer “Não!”. Fui à Unidade com um nervoso miudinho que me atrasava o andar e uma ansiedade crescente que fervilhava à medida que se aproximava o momento de falar com um craque da bola, idolatrado a nível nacional. Esperei por ele encostado a um poste, perto do seu BMW de sempre. A ideia era cruzar-me “fortuitamente” com o Neno.

Até chegar ao carro, demorou uma “eternidade”. Cumprimentou todos os sócios que estavam no exterior da Unidade. Gargalhou, claro! Sempre. Com todos. Passei a acreditar que também poderia ser cumprimentado e a tarefa ficaria muito mais facilitada. A expetativa era enorme. Seria muito azar não me dizer nada, pensei eu. Com o seu ar gingão e pernas arqueadas, aproximou-se com um sorriso largo – qual baliza aberta, à espera de um golo! Com a voz embargada, como a de hoje com que rascunho estas linhas, “expliquei” atabalhoadamente ao que vinha. Eram 13 horas. O toque de saída na escola soava às 13:20 horas. Só me lembro de ouvir “Vamos, claro! Não nos podemos atrasar…”, disparou, espontaneamente, enquanto abria a porta do automóvel, convidando-me a entrar com o cavalheirismo que o distingue.   

Entre uma explosão de alegria e o receio de algum familiar me ver entrar no carro de um desconhecido, lá me acomodei! Com todo o à-vontade do Mundo, Neno quebrou o gelo: “Conta então o que tenho de fazer!”. Naquele momento, deixou de me ser estranho. Senti-me logo seguro e confiante. Com um brilho nos olhos, estendi os braços para exibir a camisola com o seu nome, enquanto Neno conduzia em direção à “Xico” para não falhar ao compromisso. Apercebeu-se que a camisola estava personalizada. E riu, riu, riu. Como uma criança! Chegava a hora de lhe falar na parte que podia comprometer o convite. Neno não era um aluno, não pertencia à comunidade escolar e o material de campanha tinha de ser distribuído no… exterior! “E depois?! Não há mal nenhum…”, atirou, sem qualquer complexo, ouvindo-se nova gargalhada, que me fez estremecer de contentamento. Ficamos Amigos. Para sempre.

Neno é uma pessoa bonita. Por dentro e por fora. Uma pessoa unânime como poucas. Um Embaixador de Guimarães e do Vitória, que brilhou nos relvados e fora deles. Nunca dizia “Não” a nada. Ia a todas! E cumpria. Sem falsidade. Com educação. E correção. E humildade. E um sorriso inconfundível. Um dia, já adulto, perguntei-lhe por que sorria sempre tanto. Respondeu-me com um exemplo que me deixou sem palavras – como estamos todos, hoje! “Vítor, a vida tem de ser vivida. A minha Mãe ensinou-me a sorrir. Mas a sorrir sempre! Foi assim que me despedi dela no dia do seu funeral”.

Emudeci. 

Se todo o ser humano fosse assim, o Mundo seria perfeito.

Ele não é o maior, agora, por ter morrido. 

O Neno já era o Maior. 

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