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O que se escreve nos comentários já se diz na rua

Luís Lisboa
Opinião \ sexta-feira, outubro 09, 2026
© Direitos reservados
Na madrugada de 27 de setembro, três artistas drag foram perseguidas em Guimarães. Os insultos na rua pertencem à mesma cultura de ódio que se manifesta nos comentários sobre a marcha LGBTQIA+.

A noite tinha tudo para ser memorável. Na Associação Convívio havia cor, música, arte e um ambiente de acolhimento e segurança, construído com cuidado, que mostrava o melhor que Guimarães tem para oferecer quando se abre à igualdade e aos direitos humanos. Bastaram, porém, alguns passos para lá da luz dos holofotes para que a discriminação nos saísse ao caminho.

Eram cerca das três e meia da manhã e o evento ainda não tinha terminado quando acompanhei três das nossas artistas e os seus amigos até ao carro. Estavam cansadas e com fome, queriam descansar no hotel e levavam malas enormes, e eu ofereci-me para as transportar por hospitalidade e, sobretudo, por segurança. À saída havia vários grupos de pessoas, alguns que eu conhecia e com quem parei para cumprimentar. Seguimos depois pela Viela da Arrouchela, a cortar caminho. Foi aí que se ouviram os passos apressados e, logo a seguir, uma vaga de insultos abertamente homofóbicos e grotescos.

Eram cinco e vinham a correr na nossa direção. Parei e tentei falar-lhes com educação. Quando me coloquei entre eles e as artistas, percebi que a situação era mais perigosa do que inicialmente imaginara. Elas aceleraram o passo e, por puro instinto de sobrevivência, acabaram por correr. Dois dos indivíduos desataram a correr atrás delas e três ficaram à minha volta.

Fui andando a passo rápido, com os três ao lado, e perguntei-lhes porque perseguiam e insultavam aquelas pessoas. Um respondeu-me, com orgulho, que o faziam por serem de Guimarães, “a terra que deu nome a Portugal”. Sem o contradizer, disse-lhe que também eu sou nado e criado em Guimarães e que nem por isso ando a perseguir ninguém na rua. Insisti e disseram que era por serem pessoas LGBTQIA+. Tentei explicar que a arte drag é uma expressão artística, praticada também por pessoas heterossexuais. Voltei a perguntar e o motivo mudou outra vez: as artistas, disseram, eram a favor da imigração ilegal. Lembrei-lhes que aquelas pessoas não tinham dito uma palavra a nenhum deles, nem feito qualquer declaração política, e que eram apenas artistas vindas trabalhar à nossa cidade. O motivo mudava de cada vez que eu respondia ao anterior. Primeiro era Guimarães, depois a orientação sexual, depois a imigração. Em nenhum deles havia uma palavra sobre o que aquelas pessoas tinham feito, porque não tinham feito nada.

Saímos entretanto da viela e chegámos ao Largo António Leite de Carvalho. Um dos dois que tinham corrido atrás das artistas tirou à força a mala cor-de-rosa a uma delas e levou-a para um canto, junto à Sociedade Musical. Abriu-a, retirou roupas, perucas e uma segunda bolsa, também cor-de-rosa. Espreitou o interior desta última e deixou tudo espalhado na rua. O outro assistia. As artistas fugiram, em desespero, pelo Largo Condessa do Juncal.

Fui de imediato recolher o que ficou no chão. Apanhei a roupa, as perucas e a bolsa e arrumei tudo na mala, com cuidado e respeito. Os indivíduos questionavam-me sobre o que estava a fazer, mas mantive-me firme e não houve violência física. Quando os cinco se reagruparam no centro do largo, desci até ao meu carro na Rua Dr. Avelino Germano e arranquei o mais discretamente que consegui, contornando o largo para entrar na Rua Egas Moniz a caminho da Alameda de São Dâmaso pela parte norte, à procura do grupo.

Pouco depois das escadinhas, quase a chegar ao Coreto, vi uma pessoa a entrar para o meio da estrada e a ajoelhar-se à frente do meu carro, a pedir ajuda. Tinha encontrado o grupo. Uma das artistas estava em plena crise de pânico. Dois dos cinco indivíduos ainda apareceram, a continuar a perseguição, enquanto ajudávamos a fechar a mala do carro. Duas testemunhas que estavam por perto já tinham chamado a polícia e acabei por fazer o mesmo. Seguimos para o hotel. A imagem daquela pessoa ajoelhada no meio da estrada, a pedir que um carro parasse, é a que não me larga.

Não foi uma simples altercação noturna. Os insultos e os argumentos que ouvi pertencem à mesma linguagem de hostilidade que encontrei nos comentários às notícias da imprensa local. Um comentário não provoca automaticamente uma perseguição, mas a normalização pública do ódio contribui para criar um ambiente em que a discriminação se torna aceitável e a violência mais fácil de justificar. Foi essa linguagem que ouvimos na Viela da Arrouchela. Caberá às autoridades apurar os factos, e colaborarei no que for necessário para que os responsáveis sejam identificados e, havendo fundamento legal, responsabilizados.

Como produtor cultural, testemunha e cidadão de Guimarães, recuso-me a aceitar que o medo tome conta das nossas ruas. Acredito que, sem intervenção, a situação poderia ter terminado com consequências ainda mais graves. Se a terra onde nasceu Portugal serve de pretexto para perseguir três artistas numa viela, o que está em causa já não é apenas a segurança de três pessoas. É também a identidade e o futuro da cidade que queremos ser. Guimarães não pode ser a terra da impunidade nem o palco para a cobardia do preconceito.

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