Reavaliar prioridades não pode significar regredir décadas no planeamento
A decisão do executivo da Câmara Municipal de Guimarães de não avançar com a Via de Acesso ao Avepark, anunciada no âmbito do Plano e Orçamento Municipal para 2026, representa uma mudança relevante na estratégia de mobilidade do concelho. Trata-se de uma opção política legítima, mas que exige clareza quanto às suas consequências práticas e às soluções alternativas para uma zona onde se concentram atividades económicas estratégicas.
A Via do Avepark foi, ao longo de vários anos, apresentada como uma infraestrutura estruturante, destinada a garantir acessibilidades adequadas a um polo industrial e tecnológico com crescente capacidade de atração de investimento. A sua retirada do planeamento municipal, justificada por limitações financeiras e pela necessidade de redefinir prioridades, não pode significar o abandono de uma resposta coerente aos problemas reais de mobilidade daquela área.
O executivo aponta como alternativa a requalificação da EN101, associada à melhoria da ligação às Caldas das Taipas e a soluções de transporte coletivo. A requalificação da EN101 é, sem dúvida, necessária e desejável, mas importa esclarecer, com frontalidade, que tipo de requalificação está em causa e que impactos concretos terá na vida quotidiana da população local.
No passado, foi defendida pelo PSD uma solução que passava pela duplicação das vias da EN101 em Ponte, com separador central, transformando a atual Rua de São João Batista (EN101) numa via de atravessamento rápido. Na prática, essa proposta significava cortar a vila de Ponte a meio, criando uma barreira física e urbana no coração da vila. Essa solução foi clara e firmemente rejeitada pela população.
Importa recordar que essa oposição não foi circunstancial. O então presidente da Junta de Freguesia de Ponte, Dr. Sérgio Castro Rocha, posicionou-se de forma clara e pública contra essa solução, defendendo que não era aceitável sacrificar a qualidade de vida da população local em nome de uma lógica viária centrada exclusivamente no atravessamento do território. Essa posição refletiu a vontade expressa dos pontenses, que nunca aceitaram essa opção e que, se necessário, voltarão a manifestar-se.
Defendemos, por isso, uma visão diferente para a EN101 em Ponte. Defendemos a sua conversão numa verdadeira avenida urbana, com passeios dignos, baias de estacionamento ordenadas, ecovia, atravessamentos seguros, arborização e integração plena no tecido urbano. Uma via pensada para as pessoas, para o comércio local e para a vivência quotidiana, e não uma solução que sirva apenas parte do concelho, penalizando fortemente a qualidade de vida dos habitantes de Ponte.
A par disso, importa reafirmar que o projeto da rotunda do parque industrial de Ponte deve manter-se e avançar para obra. Trata-se de uma intervenção necessária há mais de três décadas, com projeto concluído e que chegou a estar inclusive adjudicada. Mesmo que a Via do Avepark seja adiada, reformulada ou até abandonada, esta rotunda mantém plena utilidade funcional, contribuindo para organizar o tráfego, melhorar a segurança e resolver problemas concretos que se arrastam há demasiado tempo.
Por fim, importa sublinhar um princípio essencial: qualquer solução a adotar para a mobilidade em Ponte, seja no enquadramento da EN101, seja na relação com a Via do Avepark, deve passar por um processo de discussão pública, ouvindo a população, os agentes económicos e as instituições locais.
Reavaliar prioridades é governar com responsabilidade. Acreditamos que a solução que vier a ser escolhida terá em conta a vontade amplamente expressa por muitos milhares de pontenses, que ao longo dos anos se pronunciaram de forma clara sobre este tema. A participação cívica deve ser entendida como um contributo positivo para a decisão final, ajudando a Câmara Municipal a encontrar uma solução equilibrada, sustentável e respeitadora da qualidade de vida de todos os vimaranenses, onde se incluem, naturalmente, aqueles que vivem e trabalham em Ponte.