Araújo quer programação cultural diversificada: “Cultura do gosto terminou”
No final da reunião da Câmara Municipal de Guimarães desta segunda-feira, à boleia da análise à enchente no Toural para a Noite Branca, Ricardo Araújo defendeu que “a cultura em Guimarães tem de ser para todos”, princípio que, a seu ver, permitiu a realização da sessão dupla do espetáculo de João Baião, “Balão d’Oxigénio”, no Grande Auditório Francisca Abreu do Centro Cultural Vila Flor.
“Nem sequer fez parte da programação da Oficina. Nem sequer se tratou disso. Simplesmente permitimos o aluguer do espaço para que aquele espetáculo ali acontecesse, coisa que, no passado, o PS impedia que tal acontecesse. Foi um sucesso. O auditório encheu por completo, por duas vezes, em dois dias seguidos", realçou o autarca.
A atuação de João Baião no CCVF foi o culminar de uma polémica desencadeada há três anos, quando o conhecido apresentador televisivo se queixou de o espetáculo “Monólogos da vacina” não ter tido acesso a algumas salas do país, visando, de forma explícita, o Centro Cultural Vila Flor, e lamentou a existência de “uma cultura do gosto”.
A queixa teve repercussão local, com o CDS-PP, quer através de Nuno Vieira e Brito, na Assembleia Municipal, quer através de Vânia Dias da Silva, agora vereadora municipal para a mobilidade, a lamentar a existência de “uma ditadura do gosto”, que classificou como “elitista e preconceituosa”.
Na altura, o vereador municipal para a cultura, Paulo Lopes Silva, respondeu que “esperava alguma coerência” da coligação Juntos por Guimarães, face às sucessivas acusações de o PS “municipalizar a programação cultural”, e defendeu que “o mercado privado era capaz de responder às necessidades do espetáculo”, aludindo ao Centro de Artes e Espetáculos São Mamede como um espaço que providencia essa oferta. Vânia Dias da Silva frisou que o espetáculo apenas requeria o “aluguer de uma sala”, algo que a Câmara se recusou a fazer, numa manifestação de “cultura do gosto e censura ao espetáculo”.
Após as enchentes de sexta-feira e de sábado no grande auditório do CCVF, Ricardo Araújo vincou que “a cultura do gosto”, “a cultura que era definida centralmente pelo PS, sobre o que as pessoas podem consumir ou não podem consumir, o que é que podem gostar ou deixar de gostar”, acabou. “Temos cultura e programação para todos. Também fico muito satisfeito pelo que sucesso que foi esse espetáculo. No futuro, até pode fazer parte da programação municipal d'A Oficina, sem problema algum”, referiu.
Ricardo Araújo sugeriu ainda que muitas das pessoas que foram assistir a “Balão d’Oxigénio” nunca tinham ido ao CCVF, um equipamento que, a seu ver, é “para toda a gente, para o povo”. “O PS é que não gosta muito das festas populares, das festas do povo. Eu gosto", salienta.
Questionado sobre se o espetáculo “Balão d’Oxigénio” seria aceite em salas como o Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, o Teatro Nacional de São João, no Porto, ou o Theatro Circo, em Braga, o presidente da Câmara afirmou que só João Baião poderia responder a essa questão.
Ricardo Araújo agradece a Rui Torrinha embora questione longevidade no cargo
À laia dessa partilha sobre a visão cultural para o território de Guimarães, Ricardo Araújo foi questionado sobre a saída de Rui Torrinha da cooperativa municipal A Oficina, onde exerceu o cargo de diretor artístico do CCVF nos últimos 16 anos. O autarca encara com normalidade a saída de um profissional que prestou “um bom serviço”, embora questione a sua longevidade no cargo.
“É normal acontecer com programadores culturais, com programadores artísticos, haver circulação. O que não era muito normal era as pessoas estarem tantos anos no mesmo local, na mesma programação. Relativamente ao doutor Rui Torrinha, deixo um agradecimento pelos anos que esteve aqui em Guimarães, onde prestou naturalmente um bom serviço. Desejo-lhe os maiores sucessos”, frisa.
A propósito do futuro d’A Oficina e, apesar de defender uma programação diversificada, crê que não são necessárias grandes mudanças. "Não gosto de grandes mudanças quando não são necessárias. Trata-se, acima de tudo, de melhorar, de corrigir o que está mal”, disse.