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Couros era mais do que curtir e surrar. Era teia de relações cidade fora

Tiago Mendes Dias
Cultura \ sexta-feira, outubro 20, 2023
© Direitos reservados
A água movia uma atividade que também exportava e é elemento central para pensar o futuro, assim como a requalificação e fruição de espaços públicos agora vedados.

Os tanques de origem medieval podem ter sido a razão de ser da candidatura à UNESCO, mas muita da restante área classificada como Património Mundial está-lhe relacionada enquanto extensão comercial ou habitacional – a rua de Camões ou o Largo Condessa do Juncal, que ainda conserva uma loja, eram exemplos. 

Desce-se o lanço de escadas e eis um espaço fresco, abrigado do Sol: veem-se caixas de artigos para calçado empilhadas nas estantes e amostras de peles expostas como cartolinas, também de cores várias. Henrique Dias escolhe uma de cor camel e estende-a por cima do balcão; é utilizada para cintos, outro dos artigos à venda na Manuel Joaquim, loja de venda de artigos em couro a trabalhar desde 1928. Agora vocacionada para a reparação de calçado, a empresa compra os seus materiais na Alemanha, na Itália ou na China, mas, em tempos idos, a matéria-prima provinha de fábricas como a da Ramada, em Couros. “Como morava na rua Avelino Germano, passava a vida aqui metido. Dantes pegava-se nos miúdos e dizia-se: “Vai ali à Ramada”. E lá ia à Ramada levar uma pele qualquer. Ia e vinha”, recorda o comerciante, de 58 anos.

Na segunda metade do século XX, o espaço que deu lugar ao Instituto de Design era “uma fábrica típica de curtumes”: “Peles em cabelo à entrada, fulões a trabalhar, algumas máquinas de surrar”. E lembra-se de ver peles à venda no antigo matadouro, junto à rua D. João I, onde agora está um hotel. Todo esse circuito alimentava uma série de armazéns, entre os quais se destacava o Marinho, na rua de Santo António. “Os armazéns eram, no fundo, a parte comercial das pequenas indústrias de curtumes”, vinca Henrique Dias. As fábricas pararam, mas a Manuel Joaquim, assim designada em nome do seu avô.

Essa loja na esquina do Largo Condessa do Juncal com a Viela do Anjo é testemunho vivo de um eixo produtivo e comercial que inclui outros pontos agora consagrados como Património Mundial da UNESCO, aprovada a candidatura para a extensão da área classificada a Couros e ao tecido urbano envolvente, numa duplicação da área classificada para 38,4 hectares. A rua de Camões tem antigas habitações de proprietários – aquelas com varandas em madeira – e acolheu o sindicato dos curtidores e dos surradores, adianta Ricardo Rodrigues, coordenador da bem-sucedida candidatura de Couros à UNESCO, aprovada em 19 de setembro. E é provável que os edifícios com “rés-do-chão muito altos” na Doutor Bento Cardoso – em frente às Domínicas – acolhessem a transação de curtumes.

Está ainda confirmada uma ligação comercial que abarcava os países de língua portuguesa em África, então colónias, Brasil e Reino Unido, prova de mundividência posterior à Revolução Industrial, acrescenta o arquiteto da Câmara Municipal de Guimarães. Antes, os curtumes eram “uma atividade manufatureira”, “mais próxima da agricultura”, sabendo-se que a Irmandade de São Crispim e São Crispiniano, sediada na rua da Rainha, era proprietária de alguns dos tanques hoje visíveis em frente à Pousada da Juventude. Aliás, a relação entre o centro histórico classificado desde 2001, nomeadamente o Largo Condessa do Juncal, e Couros era contínua, até à criação do jardim público, hoje Alameda de São Dâmaso, no final da década de 50 do século XX. E o mesmo acontece com a Avenida D. Afonso Henriques, a separar Couros da Caldeiroa e da Madroa. “A cidade era mais uniforme do que hoje. Foi retalhada com a introdução das novas tecnologias, nomeadamente o comboio e o automóvel”, sintetiza.

 

Mil anos de trabalho movidos a água

Rua D. João I, Toural, Alameda de São Dâmaso são agora Património Mundial da UNESCO, mas o valor universal excecional reside nos tanques hoje expostos, epicentro de uma atividade malcheirosa, e no sistema urbano em seu redor, “sempre ligado à evolução da cidade”. Os tanques que hoje se veem no Largo do Cidade podem ter 150 anos, mas a sua base pode existir há mil anos, facto que, para o chefe da Divisão de Património Mundial e de Bens Classificados do Município, incentiva uma nova leitura da cidade histórica, além da bipolarização entre vila alta, com o castelo, e vila baixa, com a Colegiada. “Isso separa-nos de quase todos os casos a nível mundial. É raríssimo a mesma atividade, baseada na casca de carvalho e nas próprias características da água, estar mil anos no mesmo local, com o mesmo tipo de produção”, realça.

Entre as restantes áreas classificadas pela UNESCO, sobram, como testemunhos dos curtumes, os tanques de Fez, de Tétouan e de Marraquexe, em Marrocos, a memória do bairro dos curtidores em Dubrovnik (Croácia), mas sem testemunhos físicos, e uma “fábrica pequenina” associada ao Núcleo Judaico de Trebic, na Chéquia. “Não é um sistema urbano como o de Guimarães”, descreve Ricardo Rodrigues.

A ribeira de Couros foi a seiva da produção ali gerada por séculos. O seu estado também conta a história do eixo entre a fábrica de calçado e o Campeão Português; no tanque junto à estátua do Conde de Arnoso, o curso divide-se em dois; um prossegue para a rua da Ramada e o outro, hoje seco, irrigava as hortas de São Francisco e o Largo do Cidade. Agora a prioridade é ver a água limpa. “Podemos ver milhares de tanques muito bonitos à nossa frente, mas se o rio correr sujo, temos um trabalho óbvio para acautelar”, avisa o arquiteto.

 

Um futuro a “circular de forma mais livre”

Ainda sem uma programação de intervenções “estabelecida de forma óbvia”, a Câmara Municipal já sabe quais as prioridades para Couros. A primeira é a de conservar o património existente, desvendando aquilo que “ainda não está à vista”. Outra é a de tornar aquele património mais compreensível. “No Largo da Oliveira, qualquer pessoa entende que há ali uma igreja e um padrão comemorativo. Se chegarmos a Couros e não explicarmos o que ali está, grande parte das pessoas não entende o que está a ver”, admite Ricardo Rodrigues.

E uma terceira é reabrir atravessamentos agora vedados ao público, como aconteceu na Ramada. Um deles é a viela da antiga fábrica SIMCUR, entre a rua da Ramada e os tanques do Largo do Cidade, e outro é o do edifício em derrocada contíguo à ribeira. “Couros era uma zona muito fluida. Podíamos circular por muitos sítios. Queremos que o futuro respeite a compreensão do sistema de organização das fábricas para circularmos de uma forma mais livre”, projeta.

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