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Universidade veio aos solavancos. Mas veio para ficar

Tiago Mendes Dias
Ciência & Tecnologia \ quarta-feira, fevereiro 22, 2023
© Direitos reservados
Em quase meio século, o progresso do ensino superior - da Universidade do Minho, sobretudo - alterna fases em ponto-morto com acelerações bruscas, mas planeadas, que mudaram (e mudam) Guimarães.

Da janela de uma sala de aula, um vislumbre da ribeira de Couros: corre sob a antiga Freitas & Fernandes, fábrica de curtumes transformada em Universidade das Nações Unidas para a Governação Eletrónica, e desaparece sob o betão do Teatro Jordão e da Garagem Avenida, um renascido corpo de ensino desde a conclusão das obras e respetiva inauguração, a 12 de fevereiro de 2022.

Um ano depois, Tiago Costa move-se com desenvoltura pelos corredores forrados a madeira, gradeados em metal. Trata-se do piso -1 do Jordão, a agora casa da licenciatura em teatro da Universidade do Minho. Uma das portas abre-se para um universo onde a madeira se combina com a luz e os espelhos: é uma das três salas de ensaio. Chegam, ao contrário das salas teóricas. “Só temos uma. Do outro lado deste piso estão as artes visuais. Eles têm algumas salas a mais que às lhes vezes pedimos”, descreve o estudante de 20 anos, no terceiro ano.

Houve, contudo, uma ocasião em que os vizinhos nada puderam ceder. Como resultado, uma turma ficou quase um mês sem aulas numa cadeira teórica. “Foi um absurdo. Não foi a minha turma, mas via-se claramente a frustração”, recorda o aluno de 20 anos, no terceiro ano da licenciatura. Tiago descreve, aliás, o episódio como a “gota de água” que suscitou a manifestação de 20 de abril de 2022: respostas para a falta de água em metade do espaço, de internet, de bar e de cantina, de secretaria e de reprografia contavam-se entre as exigências.

Passados 10 meses, a internet está ainda a ser instalada e faltam as refeições ao “preço acessível” de 2,70 euros, como nos campus de Gualtar e de Azurém. Ali os estudantes já se habituaram ao supermercado mais próximo ou a levar comida de casa, descreve. A falta de vagas nas residências universitárias a “um mês de começarem as aulas” é outro dos problemas sentidos na licenciatura, com Tiago a considerar “incompreensível” alunos de Couros nas residências de Azurém e estudantes de Azurém na residência dos Combatentes, entre as Hortas e o tribunal.

Residente em Alfena, concelho de Valongo, Tiago Costa desloca-se diariamente de comboio – é “uma hora para cada lado”, precisa. Cumpre assim uma licenciatura em que passou o primeiro ano nas aulas à distância, face à covid-19, o segundo no Centro Avançado de Formação Pós-Graduada, também instalado na antiga Freitas & Fernandes, e o último no renovado Jordão. Apesar das tribulações, Tiago Costa reconhece a mais-valia do curso, por lhe dar muito mais do que a interpretação em palco – “aprendo um pouco sobre encenação, um pouco sobre luz, um pouco sobre figurinos”, realça. E a “proximidade ao tecido cultural vimaranense” fá-lo defender o Jordão enquanto casa do teatro da UMinho; no seu caso, fê-lo integrar o Teatro de Ensaio Raul Brandão (TERB), do Círculo de Arte e Recreio. “Tenho uma estreia do Auto da Barca do Inferno para escolas. Andamos por toda a Guimarães. Já estabeleci uma relação muito grande com a cidade”, descreve.

A entrega daquele ícone do século XX vimaranense à academia é um dos mais recentes marcos de quase meio século de vida universitária em Guimarães. Criada por um decreto-lei de 11 de agosto de 1973, ao qual se seguiu um intenso debate sobre a localização, a UMinho atinge os 14.000 estudantes em Braga e os seis mil em Guimarães. E há mais marcos por se cumprirem, como a requalificação da fábrica do Arquinho para a engenharia aeroespacial ou a residência de Santa Luzia, lugar que já conheceu a universidade, tal como o Palácio Vila Flor. O crescimento do Instituto Politécnico do Cávado e do Ave, já instalado no Avepark, fomenta um novo eixo do Multiusos à Cruz de Pedra.

 

Tiago Costa já se manifestou por melhores condições, mas enaltece “proximidade” do Jordão ao tecido cultural

Tiago Costa já se manifestou por melhores condições, mas enaltece “proximidade” do Jordão ao tecido cultural

 

Polímeros: de departamento sem equipamento a polo nacional da inovação

Ao fim de 43 anos a lecionar na UMinho, José António Covas afirma, “sem dúvidas”, que Guimarães é o “polo nacional de engenharia de polímeros”: o conhecimento reunido pelo Departamento de Engenharia de Polímeros (DEP), pelo Instituto de Polímeros e Compósitos (IPC), centro de investigação, e pelo Polo de Inovação em Engenharia de Polímeros (PIEP) interliga-se para servir uma indústria nacional com cerca de 2.000 empresas de peças em plástico e 700 de moldes, mas também fabricantes estrangeiros. “A demonstração inequívoca do nosso sucesso foi a da indústria colocar aqui o PIEP num investimento de mais de seis milhões de euros. Já lá trabalham mais de 40 pessoas. No final do ano, vão trabalhar 100”, realça o professor catedrático da Escola de Engenharia (EEUM).

Se hoje o DEP tem equipamentos no valor global de milhões de euros, no passado teve de pedir às indústrias em redor máquinas ultrapassadas, quase “ferro-velho”, para as suas aulas. É um detalhe num trajeto marcado por “dificuldades”. Solicitado pela indústria de plásticos, através da Secretaria de Estado da Indústria Pesada do I Governo Constitucional (1976-1977), o curso arrancou em 1978. Então intitulado Engenharia de Produção – Ramo Transformação de Matérias Plásticas, era o primeiro do género em Portugal, mas estava longe do “baricentro da indústria”, entre Oliveira de Azeméis e a Marinha Grande. E professores com formação na área não os havia.

Formado em engenharia mecânica no Instituto Superior Técnico, o docente de 66 anos, natural de Sesimbra, aceitou integrar o novo projeto a convite de Carlos Bernardo, docente responsável pela criação do curso. José António Covas considerou-o “aliciante”, porque, em Lisboa, seria apenas “um engenheiro mecânico entre dezenas de colegas do mesmo ano”. Antes de se especializar em Inglaterra, recorda-se das dificuldades das aulas à época e da “logística louca” de um curso com os dois primeiros anos lecionados em Braga e os últimos três em Guimarães, no Palácio Vila Flor. “O nosso departamento minúsculo estava dividido e havia duplicação de meios. Eu tinha um gabinete partilhado em Braga e outro em Guimarães. Quando precisava de uma coisa em Braga, tinha-me esquecido dela em Guimarães ou vice-versa”, recorda.

As instalações que o DEP possui hoje em Azurém foram decisivas para a afirmação dos polímeros, assim como o crescente reconhecimento da indústria a partir de 1990, abrindo-se as portas a equipamentos com outra sofisticação. Em pleno século XXI, há “nomes sonantes” estrangeiros que requisitam a UMinho pelo seu know how. E as ligações com os industriais da área em Portugal são “umbilicais”, incluindo-se nesse lote as empresas Amtrol-Alfa e TMG Automotive, sediadas em Guimarães. A própria Câmara Municipal percebeu, ao longo dos anos, a “importância da UMinho”, considera. “Depois daqueles anos de implantação difícil, Guimarães percebeu como a universidade serve a indústria e até a cultura, com o exemplo do campus de Couros”, realça José António Covas.

 

Guimarães fez-se coração da investigação em polímeros. José António Covas participa há mais de 40 anos nesse trajeto

Guimarães fez-se coração da investigação em polímeros. José António Covas participa há mais de 40 anos nesse trajeto

 

Dar a volta à falta de “massa crítica”

A engenharia de polímeros é uma das 18 licenciaturas – ou mestrados integrados no caso da EEUM – disponíveis em Azurém, num campus cuja primeira pedra foi colocada a 24 de novembro de 1985. Foi um marco de um processo moroso, com obstáculos à aquisição de terrenos, mais do que em Braga. O reitor de então, Sérgio Machado dos Santos, lembra a “grande pressão para construção” no terreno entre o campus e o Castelo de Guimarães, que levou a Universidade do Minho a um esforço tremendo para o “adquirir”. “Adquiriu-se por 180 mil contos (cerca de 900 mil euros) aquele terreno vazio para salvar a envolvente do campus. Era muito dinheiro na altura. O campus foi por opção aberto à cidade”, lembra.

Até à entrada em funcionamento daquele polo, os cursos de engenharia funcionaram no Palácio Vila Flor, “recuperado em duas fases”, com anexos para a têxtil e para a metalomecânica. As condições estavam, porém, “longe de ser as ideais” numa cidade com um problema ainda mais agudo do que a carência de infraestruturas: a falta de “massa crítica”. Como numa primeira fase, os cursos de engenharia se repartiam por Braga – os dois primeiros anos – e por Guimarães – os três seguintes -, os alunos fixavam-se no local onde iniciavam o percurso universitário, aplicando-se a mesma regra aos docentes. “Quando terminou a comissão instaladora em 1981/82, a universidade tinha 1400 alunos. Quantos tinham aulas em Guimarães? 134. E desses 134 alunos, a maioria residia em Braga”, recorda.

Reitor da UMinho entre 1985 e 1998, Sérgio Machado dos Santos recorda os autocarros com docentes e alunos que saíam de manhã para Guimarães e à tarde regressavam a Braga. Ou a residência “muito pequena” no centro da cidade-berço para a qual não havia procura. “Os quartos sobravam”, constata. Daí gerou-se uma reflexão e subsequentes decisões que mudaram o curso de Guimarães como polo universitário, tomadas em 1987. “Os cursos que funcionarem em Guimarães têm de funcionar de raiz, desde o primeiro ano. Em Braga, também. Como o primeiro e o segundo ano das engenharias tinham mais aluno, Guimarães ganharia impulso”, descreve.

Mas as “sinergias” de algumas engenharias com a Escola de Ciências mantiveram-nas em Braga; foram os casos da biológica e da informática. Como contrapartida para Guimarães, criou-se logo o curso de engenharia eletrónica e industrial e abriram-se as portas para cursos em articulação com a engenharia civil: um de arquitetura e um outro de geografia orientada para o planeamento, descreve o reitor honorário da UMinho. Nos anos seguintes, o cenário “mais otimista” que traçara para o crescimento da academia foi “furado por cima”: a duplicação do número de alunos estabelecida como fasquia a cada mandato de três anos, entre 1987 e 1993, foi superada com a ajuda da demografia. “Esta era a região mais jovem do país e da Europa. Tínhamos uma pressão tremenda”, lembra.

 

“Quando terminou a comissão instaladora em 1981/82, a universidade tinha 1400 alunos. Quantos tinham aulas em Guimarães? 134. E desses 134 alunos, a maioria residia em Braga”, Sérgio Machado dos Santos, reitor da UMinho entre 1985 e 1998

 

Reaver a cidade entre a nostalgia das “partilhas enriquecedoras”

Enquanto a UMinho se projetava em Azurém, o ensino artístico fervilhava junto à antiga escola primária de Santa Luzia; por iniciativa da cooperativa Árvore, a extensão da Escola Superior Artística do Porto instalou-se em Guimarães em 1983, oferecendo um curso superior de desenho, à época único em Portugal. Ao contemplar os portões agora trancados, Natacha Moutinho reaviva o “ambiente familiar” ali cultivado por um corpo docente pequeno, mas “competente”, e um núcleo de alunos tmbém reduzido. “A ESAP era muito rica nas relações humanas. A relação mais vertical do ambiente universitário era ali muito diluída. E era a única escola da região que oferecia cursos noturnos”, frisa, recordando as “partilhas enriquecedoras” que advinham de turmas com “diferentes idades”, “diferentes passados”, diferentes origens.

Hoje doutorada pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, com especialidade em desenho, Natacha entrou para a ESAP em 2000 para dar aulas de técnicas de impressão. Permaneceu até 2006, altura em que a escola já oferecia licenciaturas em ilustração e banda desenhada e também em artes e grafismo multimédia. A proximidade entre corpo docente e alunos refletiu-se em participações na Bienal de Cerveira ou na criação do Laboratório das Artes. A cidade entranhava-se-lhes. “Trabalhar na ESAP era sair daqueles portões e estar no coração da cidade. Comíamos por ali, conhecíamos os senhores dos cafés. Estávamos entrosados na malha”, descreve.

A instalação da licenciatura em artes visuais no campus de Couros resgatou uma ligação que esmorecera quando em 2008 se deslocara para Azurém, por forma a lecionar desenho aos estudantes de arquitetura da UMinho. “Adoro estar no centro da cidade. Conheço as pessoas à minha volta, os circuitos, as vivências e os espaços que partilhamos. E a universidade pode ser parte”, realça a docente de um curso que alberga 75 alunos, de vários pontos do Continente e até da Madeira.

Ter estudantes a desenhar na rua é uma forma de a academia se integrar na malha urbana. E ter a Garagem Avenida como uma “galeria aberta” para a Avenida D. Afonso Henriques, com trabalhos dos alunos, é outra. “Pode-se espreitar. Sinto que os vimaranenses querem entrar, mas ainda há alguma reserva.  Estamos a pensar em projetos mais transversais para termos mais gente”, observa.

Com mais gente no pós-pandemia, BA afirma-se num edifício que é também da AAUM, das tunas e aberto aos cursos

Com mais gente no pós-pandemia, BA afirma-se num edifício que é também da AAUM, das tunas e aberto aos cursos

 

A contrariar a histórica falta de noite, um “BA como nunca houve”

O granítico edifício que é sede da Associação da Académica da Universidade do Minho (AAUM) em Guimarães e também Bar Académico (BA) encara o campus de Azurém em toda a plenitude, com um pequeno anfiteatro a seus pés. Assim é desde 2018, após concluída a requalificação da rua de Francos. Frequentador do BA na década passada, mesmo a estudar direito na Universidade Católica do Porto, Diogo Castro assumiu a gerência em outubro de 2021. Tinha a “perceção” de que a noite de Guimarães não servia os estudantes, junto ao campus ou no centro histórico. Para já, está agradado com o que tem visto: “Não havia um envolvimento tão grande com os estudantes. No pós-pandemia, temos um BA como nunca houve. Nas quartas e sextas à noite, costumamos ter 800 pessoas, mas tivemos dias em que passaram as 1300”, assume o vimaranense de 31 anos.

Convencido de que os estudantes de artes e os alunos Erasmus trazem “algo mais” ao dia a dia da cidade, Diogo é também defensor de relações cada vez mais estreitas com os cursos, dando-lhes espaço para as suas festas. E já tem projeto para esplanada num BA que funcione de tarde, à moda do de Coimbra, concentrando ali praxe e grupos de estudantes. Como antigo presidente da Comissão Nicolina, em 2008 e 2009, está ainda a aproximar as duas academias que tinham uma “má relação”. “Não há razão para fricção”, realça.

É também ali que ensaiam as duas tunas da EEUM: a Tun’Obebes, feminina, e a Afonsina, masculina. Estudante de Engenharia de Gestão e Sistemas de Informação entre 2016 e 2022, Igor Fernandes liderou a tuna que tanto ostenta a cor de tijolo, como a bandeira azul e branca da fundação da nacionalidade. “Em vários pontos do país, as pessoas ouvem Afonsina e ficam na dúvida. Assim que veem uma ligação à primeira bandeira nacional percebem que vimos de Guimarães”, diz o vimaranense de 25 anos, a propósito do grupo cultural fundado em março de 1994, reconhecido, por exemplo, pelo festival de tunas Cidade Berço.

Ao examinar o seu percurso universitário, o engenheiro de Pencelo também crê que Guimarães sempre teve “falta de oferta de noite”, apesar da crescente “deslocalização” dos bares junto ao campus, como o extinto Café Universidade ou o Púrpura, para bares como o Salado no centro histórico. Essa tendência é também relatada pela recém-eleita presidente da AAUM, que assume a meta de intensificar as atividades académicas na urbe vimaranense. “Estamos a avaliar como levar mais atividades para Guimarães. Muitas delas centram-se em Braga e não pode ser. Daqui a semanas, teremos a Semana da Euforia não só nos bares da universidade, mas no próprio centro histórico”, realça Margarida Isaías.

Preocupada com a “falta de oferta” de alojamento universitário, que espera ver suprida com a futura residência de Santa Luzia, pensada para 350 camas, a dirigente enaltece ainda o serviço Guimabus, por disponibilizar transportes públicos gratuitos para estudantes residentes no concelho e 50% de desconto para quem estuda em Guimarães, mas reside noutros municípios.

 

Projeto da Escola Superior de Hotelaria e Turismo do IPCA no terreno da Casa do Costeado

Projeto da Escola Superior de Hotelaria e Turismo do IPCA no terreno da Casa do Costeado

 

IPCA projeta-se do Avepark à Cruz de Pedra

Também o IPCA encontra “muitas vantagens” no preçário da Guimabus: o serviço facilita a circulação de estudantes entre a cidade ou a vila de Caldas das Taipas e os cursos técnicos superiores profissionais instalados no Avepark. “Temos lá 400 estudantes”, diz ao Jornal de Guimarães o presidente da Escola Técnica Superior Profissional (ETESP), quando já há luz verde para uma residência estudantil de 160 camas naquele parque onde também sobressai o grupo de investigação 3B’s, ligado à UMinho. A dezena de cursos ali instalada, de design ou de tecnologia, e os subsequentes estágios profissionais têm aproximado o politécnico do tecido empresarial local. “Temos estudantes espalhados pelas seis localidades com TESP. Muitos deles fazem estágios em Guimarães, em empresas de cutelaria, em empresas têxteis. Temos neste momento uma colaboração forte com a Jordão, de refrigeração”, descreve.

Os olhos da ETESP também se dirigem para a cidade e para a “estratégia desportiva” do município. O Multiusos acolhe 22 estudantes do curso de Gestão de Instalações Desportivas e Desporto e pode receber um segundo TESP de desporto para o ano, refere Filipe Chaves. Perspetiva-se assim uma “sinergia” com a Escola Superior de Hotelaria e Turismo, na Casa do Costeado, à espera da adjudicação desde agosto de 2021, quando foi lançado o primeiro concurso. “Será importante para toda a região do Cávado e do Ave. A ideia é criar ali um campus do IPCA”, declara.

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