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É uma “Escola com Pedalada”: as bicicletas entraram na Martins Sarmento

Pedro C. Esteves
Ambiente \ quinta-feira, janeiro 05, 2023
© Direitos reservados
Um projeto dinamizado pelo professor Ricardo Lopes ensina, lima e incentiva o uso da bicicleta, que já ganhou espaço na escola. Luta-se pelo “direito de pedalar”

Já ganhou espaço nas agendas: às quartas-feiras, pelas 14h30, a aula é de bicicleta. Sabrina inclina-se sobre o pneu da frente. “Está bom”, mas não lhe faria mal um pouco de ar. Não há problema: está uma bomba de pé por perto no espaço que alberga 15 bicicletas. Letícia encaixa o capacete: “Está muito apertado?”, pergunta o professor Ricardo Lopes. Está tudo certo e não falta nada. Tem sido esta a dinâmica naquela sala da Escola Secundária Martins Sarmento nos últimos tempos. De onde saem Sabrina e Letícia para 45 minutos a pedalar têm saído muitos mais. É que nesta escola há um projeto transdisciplinar que promove o ensino da bicicleta aos alunos – e o “pelotão” vai crescendo –, ao mesmo tempo que quer incutir o hábito de pedalar e caminhar de casa para a escola.

“Cuidado com o quadro, pedal para cima… isso. Vamos dar umas voltas à pista”. Já rolam. A ‘sala de aula’ é, para já, o asfalto da escola. Sabrina e Letícia, ambas do 10.º ano, integram o grupo de iniciação e aprendem desde o início do 1.º período. Já sabem que na primeira aula de janeiro vão levar a companheira de duas rodas para o parque da cidade. Antes de partir para contexto urbano, Ricardo Lopes, professor que dinamiza o projeto “Escola com Pedalada”, ensina o mais básico: como manipular as mudanças ou sinalizar manobras de mudança de direção. Mas no âmago está sempre “uma lógica de inclusão e integração”.

“O desporto fomenta uma resposta inclusiva. O objetivo é sempre integrar. Tenho neste momento dois grupos: para além deste, da Sabrina e da Letícia, outro com seis ou sete alunos em que já saímos para o exterior. Mesmo nas visitas de estudo, às vezes levo alunos comigo e vamos de bicicleta. Também acaba por ser uma forma de mostrar à comunidade que há mais alternativa para fazer estes percursos”, explica Ricardo Lopes.

O bicicletário à porta da Martins Sarmento já vai recebendo visitas de duas ou três bicicletas num país em que, segundo dados do Governo, a percentagem de alunos que se desloca para a escola de bicicleta é inferior a 1%. Dentro da escola, no ano passado, o clube “Escola com Pedalada” sondou 86 alunos e descobriu que, apesar de considerarem a bicicleta uma forma de deslocação válida (93%) e gostarem de o fazer (79%), a maioria (74%) não perspetiva a sua efetivação por motivos de distância do percurso (extensão do trajeto) e falta de condições/segurança (trânsito e falta de ciclovias).

Para já, Ricardo Lopes gostava de ver mais alunos a aparecer nestas atividades e, assim, acabarem por ampliar para a resposta individual o uso da bicicleta nas deslocações. Vê muitas vezes os mais novos com “reticência” em dar a primeira pedalada – há alguns que nunca aprenderam e, com 16 anos, há o receio da exposição. “Mas depois vejo em alunos que saíram para Erasmus, por exemplo, que veem com outros olhos e entendem que a bicicleta pode ser uma resposta válida. É uma questão de pegar moda, o potencial está cá todo”. É o potencial de ver o mundo devagar.

 

Pedro C. Esteves/JDG

Pedro C. Esteves/JDG

 

É o que fazem Letícia e Sabrina no recinto desportivo ao livre da Martins Sarmento. O sol raia, o vento que sopra ajuda e não atrasa. Apesar de terem começado as aulas no início do ano letivo, o corpo de duas rodas não lhes era estranho. “Eu já tinha aprendido praticamente tudo na minha escola”, atira Sabrina Yamagishi. Veio de Moreira de Cónegos, onde as bicicletas também entravam no recinto escolar. Letícia Castelo tinha “12 ou 13 anos” quando dominou o jogo de equilíbrio sobre os pedais. Agora estão a aprofundar. Aproveitam uma pequena pausa para perguntar: “Que horas são?”. Faltam dez minutos para as 15h00 e há mais meia hora de pedalada. Um pequeno declive perto da zona frontal da escola ainda não é de escalada fácil por Sabrina. Sem medo, parte para o desafio – e supera-o.

No fundo, como escreveu no jornal escolar “O Pregão”, Ricardo Lopes, o cenário é o ideal para “reconhecer a importância e o direito de pedalar em segurança como componente integrante de uma cidadania responsável”: “É entender a escola enquanto instituição saudável, feliz e socialmente inclusiva”.

 

Um prólogo-passeio de Braga a Guimarães

 

O “Escola com Pedalada” nem começou com este objetivo, mas foi-se adaptando. Ricardo Lopes fala num projeto ampliado e ramificado com atividades recreativas e não tão competitivas. É por isso que o clube escolar propõe aos alunos uma forma de abanar a monotonia das viagens casa-escola – e o exemplo até vem dos professores. Juntamente com os docentes Carlos Félix e Luís Barata, Ricardo Lopes faz o percurso entre Braga e Guimarães de bicicleta – e qualquer aluno que more no trajeto pode juntar-se às sextas-feiras.

Dentro da escola, a bicicleta também aparece para se mostrar e dizer: “Estou aqui”. Não raras vezes saem do repositório para serem usadas em aulas de educação física. Há cerca de dois anos que tem sido introduzida como uma opção para os alunos se porem a mexer. A presença da máquina é também uma extensão do legado de Orlando Lemos, antigo professor da escola, mentor do projeto e criador da ERDAL – Escola Referência Desportos Ar Livre, formada no ano letivo 2002/2003 com a criação de um grupo Equipa de BTT de Desporto Escolar.

E se até 2024 todas as escolas públicas com 2.º ciclo (5º e 6º ano) do ensino básico vão receber kits de bicicletas e capacetes, no âmbito do programa Desporto Escolar sobre Rodas, na Martins Sarmento já estão aparcadas há mais tempo. Resultam de uma candidatura ao Orçamento Participativo Escolas. Chegaram dez numa primeira fase e depois mais cinco. Duas delas estão a chegar agora. São as de Letícia e Sabrina: “Foi rápido, oh, professor”. “Vamos ter muito para pedalar no 2.º período”, responde Ricardo. Voltam em janeiro para deixar os portões da escola para trás e pedalar rumo ao parque da cidade.

 

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