Festivais Gil Vicente diversificam palcos e ligam criadores do território
Os 12 espetáculos que se vão realizar entre 4 e 13 de junho distribuem-se por uma variedade de palcos: além da caixa-palco do Grande Auditório do Centro Cultural Vila Flor (CCVF), utilizado para a reposição de “Tudo em Avignon e eu aqui”, criação do Teatro Oficina que volta ao palco na reta final do festival, o Teatro Jordão, os jardins e o café-concerto do CCVF, o Círculo de Arte e Recreio e o Convívio serão anfiteatros para as peças em exibição, muitas delas expressão de expetativas futuras das personagens ou da busca de um passado em que essas expetativas se consumavam em escolhas definidoras de futuros, não só individuais, mas também institucionais, numa alusão ao passado e ao presente das práticas culturais enraizadas em Guimarães.
Diretor artístico do Teatro Oficina, Bruno dos Reis vincou que a programação marca “o retorno a uma experimentação de horários”, com um espetáculo à tarde no jardim, por exemplo, mas também um “gesto de aproximação a uma nova tecedura criativa da cidade.
“Os festivais abrem com uma peça que reúne 12 jovens que estão em Guimarães, ou a estudar ou a jogar no Vitória, por exemplo. O festival procura pensar o imaginário destes jovens. O gesto da herança está implicado em todo o festival. Estes festivais são-nos legados. Há uma ideia de passagem de testemunho. Este é um gesto que interessa abordar de forma coletiva – seja a herança familiar ou a herança traumática”, disse.
No entender de Bruno dos Reis, os Festivais Gil Vicente tentam convocar “novos olhares” no sentido de evocar “o gesto pós-dramático” vicentino, que, em 1502, “estava muito à frente do seu tempo”. "Há um diálogo através de um olhar presente. Às vezes, ou prestamos atenção a uma história cristalizada ou a uma história que se está a formar sem prestar atenção. Isso é perigoso. É possível fazer a ligação entre as duas coisas", sugeriu.
Um dos espetáculos envolve o Teatro de Ensaio Raul Brandão, fundado por Santos Simões no âmbito do CAR. O espetáculo “Pela boca morre” será apresentado duas vezes nos Festivais, a primeira delas na sala Santos Simões, e parte de uma atividade do CAR, o quiz mensal, para criar “um diálogo existencial na forma como é digerida a informação que é passada”.
"O Santos Simões lançou o TRRB nesta casa, foi precursor dos Festivais Gil Vicente. Com o passar do tempo e com o crescimento de outras entidades municipais, os Festivais acabaram por se diluir do CAR. Este ano isso muda. É uma emoção que nos deixa muito contentes. Voltamos à ancestralidade dos festivais. Incorporar o TRRB neste espetáculo é mais significativo por estar por dentro dos Festivais Gil Vicente. Este espetáculo é um retrato de atividades que vão acontecendo na nossa casa. Estamos muito contentes por receber o espetáculo e por ser parceiros efetivos dos Festivais Gil Vicente", vincou a presidente da associação, Filipa Pereira.
Câmara equaciona Plano Municipal das Artes
Também presentes na sessão de apresentação dos Festivais Gil Vicente, decorrida no CAR, o presidente d’A Oficina e a vereadora para a cultura da Câmara Municipal de Guimarães salientaram a importância de estreitar a ligação entre a cooperativa municipal, a comunidade que a envolve e as escolas. Isabel Ferreira salientou o objetivo de concretizar o Plano Nacional das Artes, em vigor até 2029, e de criar um Plano Municipal das Artes para preparar as escolas para o que virá após 2029. “As escolas têm de ser espaços em que os alunos vejam condições para o crescimento e desenvolvimento de emoções para o cidadão, para lidarmos com a realidade. Queremos que a escola seja um espaço onde existe esta oportunidade", vinca.
Esser Jorge Silva vincou, por seu turno, que A Oficina quer “interligar-se com as outras associações espalhadas pelo concelho de Guimarães e dar espaço ao aparecimento de novas linguagens”, contrariando a ideia de que a cooperativa possa ser “uma entidade fechada”. “Queremos ser uma organização aberta à colaboração de todas as associações e indivíduos que se queiram associar”, referiu.
O responsável defendeu também A Oficina produz emoções que são irreplicáveis através da tecnologia que hoje “captura a atenção” de muitos jovens, removendo-os de si próprios e envolvendo-os “num deserto em que a existência se desfaz”, naquilo a que se chamava de alienação noutro tempo.
“Fornecemos e trabalhamos emoções. O teatro convoca as emoções. Nos próximos anos, quando tivermos a ajuda da tecnologia para nos libertar para o tempo livre, iremos produzir emoção. Trabalhamos arte, cultura e emoções”, sintetizou.