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Gatos, empatia, educação: cabe tudo no Gatil Simãozinho — até um prémio

Pedro C. Esteves
Educação \ quarta-feira, outubro 20, 2021
© Direitos reservados
Projeto pioneiro está de pé há 12 anos e mostra "a importância de dar um bocadinho aos outros". Uma comunidade cuida de quase 50 gatos dentro da escola, mas precisa de ajuda para continuar a ajudar.

Nesta escola vimaranense, há felinos que partilham e palmilham um espaço espigado e acolhedor com desenvoltura. Lançam sons dissimulados e achegam-se, em jeito de quem busca amparo, a pernas conhecidas. Procuram “amor e carinho” (e recebem-no); ao mesmo tempo, ajudam alunos a adquirir “uma multiplicidade de atitudes louváveis” de empatia e respeito. É assim há 12 anos: o Gatil Simãozinho, projeto pioneiro que nasceu na antiga Escola Secundária da Veiga e perdura na Escola Básica e Secundária Santos Simões alberga, agora, 45 gatos. Estão ao cuidado de uma comunidade que “abraçou” estes animais com um intuito: cuidar. O esforço e sacrifício, marcas indissociáveis de um projeto que foi ganhando embalo, está materializado numa distinção plasmada na entrada da escola. É que o estabelecimento de ensino foi galardoado com o Prémio Gandhi de Educação para a Cidadania atribuído pelo Governo.

Lara, aluna e voluntária, é visita recorrente ao gatil. Sente-se “feliz” quando contribui com tempo e carícias: “É como se pudesse desabafar com eles”. Anseios e frustrações que entram porta metálica adentro acabam por ser mitigados através do contacto com os patudos. O apego ao projeto fez com que a estudante, na companhia da mentora do Gatil Simãozinho, Luísa Veiga, se deslocasse a Lisboa para ouvir elogios do primeiro-ministro e trazer para Guimarães o Selo “Escola Gandhi”, com a validade de um ano.

 

E a aluna não esquece quando António Costa levantou, no final do discurso de reconhecimento, uma foto de um dos “hóspedes” de quatro patas que vagueia pelo gatil. Riscado, aspeto arguto, o gato Gandhi é exemplo da atenção e afeição com que, por ali, se lida com os gatos – todos vacinados, com chip e, quando necessário, medicados.

O que está a acontecer neste momento é que já temos 12 anos, temos gatinhos desde o início, temos uma grande população sénior. Se em alguns gatis, a esperança de vida de um gato é de um ano e meio, aqui isso não acontece, estão muito bem cuidados”. A explicação é de Luísa Veiga, que, num tom cândido, decorre facilmente sobre a “casa” que ajudou a erguer. Num esforço que se estende pelos “365 dias do ano”, a professora e mentora organizou ações de sensibilização, campanhas para aproximar a comunidade local e angariações de fundos – sempre com a ajuda da comunidade escolar e dos mais pequenos.

Costumo dizer que já é quase uma mini-empresa, com alguns custos associados. Nunca pensei que isto ia ter a projeção que teve, que ia envolver tanto os meninos, que ia ser a imagem da nossa escola: uma escola de família, de proteção”, sintetiza. Mas para o gatil continuar a funcionar e ajudar patudos, o auxílio da comunidade é cada vez mais premente. A coordenadora explica: “Como temos gatos envelhecidos, as despesas já começam a ser maiores. Começam a aparecer as estomatites crónicas, calicivírus, e fica caro. Apesar da ajuda do veterinário, a conta continua a crescer”.

 

O apelo é claro e qualquer ajuda “é bem-vinda” para que o gatil continue a crescer e a dar respostas – a forma mais fácil é através do MB Way, pelo número 960 291 123, e toda a ajuda é útil para cobrir despesas de um “trabalho diário que não se deixa à sexta-feira”. “São 365 dias sobre 365 dias, não há fins de semana, é preciso estarmos sempre atentos e nisso já temos ajuda de pessoas que têm a mesma sensibilidade que eu e já se apercebem quando há alguma situação debilitada de saúde. É uma dedicação total”.

 

“Estamos mesmo no céu”

Cristina Silva, Luísa Milheiro e Paula Pinto partilham essa abnegação com Luísa. Articulam férias para que os os gatos tenham sempre uma mão amiga por perto. Até porque o espaço pode converte-se facilmente num autêntico “mini-hospital” de felinos. “Acontece, por vezes, que há cinco animais que precisam de medicação e tudo isso requer tempo, paciência, requer estar com eles. Os meninos nos intervalos vêm para aqui, vão para a rede, encostam, é um atrativo”, diz Luísa Milheiro.É um escape”. Opinião corroborada por Cristina Silva. Na ótica da assistente operacional, a ida ao gatil para cuidar é também um momento “para aliviar a tensão e a pressão” do sempre atarefado dia-a-dia na escola. Os gatinhos conseguem dar bastante energia. Eles sentem quando estamos mais agitados, começam a rodear-nos, transmite muita tranquilidade. Saímos muitas vezes daqui e parece que estamos mesmo no céu”.

 

Estes alunos saem da escola “diferentes”

E se a pergunta for o que é que estes 45 gatos podem fazer pelos alunos de uma escola, a coordenadora explica: “No fundo, é importante dar um bocadinho de nós aos outros – e os gatinhos estão a fazer isso”.

 

“O maior objetivo deste projeto foi criar uma geração de cidadãos bons, com valores e respeito, quer pelas pessoas, quer pelos animais que aqui estão. Este projeto já tem 12 anos e temos situações de alunos, alguns já licenciados, que são totalmente diferentes do que quando aqui chegaram. Nota-se que ficou alguma coisa da transmissão de valores que fizemos. E há uma grande satisfação em ver isso”, salienta.

A índole pedagógica do projeto é enaltecida pelo diretor do Agrupamento de Escolas Santos Simões, Benjamim Sampaio. O gatil tem “tudo a ver com o projeto educativo” que chega aos cerca de 1500 alunos das seis escolas do agrupamento. Estão naqueles metros quadrados vedados “valores humanistas”. “Para nós, o mais importante do que o currículo ou os alunos serem os melhores biólogos ou matemáticos, é formar as pessoas. É o que diz um documento essencial, que é o do perfil do aluno à saída da escolaridade obrigatória. E para fazer essa formação é preciso que haja respeito, falamos da construção global da pessoa”, explica o diretor.

O prémio ganho em Lisboa dá (ainda mais) alento para os desafios que se aproximam: há planos para ampliar a estrutura. Mas também é uma oportunidade para, segundo Benjamim Sampaio, agradecer a parceiros e, entre outros, à ex-vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Guimarães, Francisca Abreu, que faleceu em 2020.

 

“Estamos a trabalhar para o futuro”

Mas sem a “determinação e ajuda” da comunidade escolar “era impossível”, diz o diretor, manter de pé o que começou por ser um gesto solidário para com “uma meia dúzia de gatos” que circundavam a antiga Secundária da Veiga.

Sentada num beiral do gatil, Luísa Veiga personifica essa “determinação”. A coordenadora acredita que “fica sempre alguma coisinha” nos alunos do contacto com os animais. E se não bastasse o aconchego e empatia dos “amigo” felinos, continua a fervilhar um sentido de missão: “Estamos a prestar um serviço à comunidade local e depois estamos felizes e orgulhosos pela índole pedagógica deste projeto e porque de facto estamos a trabalhar para o futuro”.

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