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GUIdance: aos 15 anos, um festival que se move para lá do palco

Tiago Mendes Dias
Cultura \ quarta-feira, janeiro 14, 2026
© Direitos reservados
Além dos oito espetáculos, que incluem três estreias absolutas e três nacionais, o festival vai às escolas, debate, procura fazer as pessoas saírem de casa para mexerem os corpos. Afaga o território.

Passados 15 anos da sua fundação, o GUIdance é um festival de dança contemporânea que recusa ter o palco como limite para as suas coreografias.

Além do rol de nove espetáculos no Centro Cultural Vila Flor, no Teatro Jordão e na black box do Centro Internacional das Artes José de Guimarães (CIAJG), que começa com “O salvado”, coreografia a solo de Olga Roriz, a 5 de fevereiro, e encerra com “Chotto desh”, a peça com maior circulação a nível mundial da britânica Akram Khan Company, a 14 de fevereiro, perante um Grande Auditório Francisca Abreu praticamente lotado, passando por “Ocelo”, um espetáculo de Daniela Cruz destinado a crianças e famílias, marcado para domingo à tarde, 9 de fevereiro, o GUIdance 2026 oferece um amplo programa de intervenção no território.

O programa da 15.ª edição inclui masterclasses, dois debates no CIAJG, duas sessões de cinema no Teatro Jordão em parceria com o Cineclube, a continuação da iniciativa “Embaixadas da dança”, com visitas dos coreógrafos a cada uma das escolas secundárias do concelho de Guimarães – Martins Sarmento, Francisco de Holanda, Santos Simões e Caldas das Taipas – e convites a mover os corpos, na Casa da Memória, através do “Bailar em casa”, iniciativa promovida todas as semanas por Yineth Jaramillo na Casa da Memória, e do “Bailar fora de casa”, na sede dos 20 Arautos, em pleno centro histórico, sob orientação de Cátia Esteves. Pelo segundo ano consecutivo, o festival volta a reunir o Impulso, um grupo de pensamento sobre dança que analisa o festival de um ponto de vista externo à Oficina.

“Estes criadores que se movem em palco fazem mover uma constelação de sentimentos, emoções e afetos que ficam. Essa pertença faz com que façamos estas experiências de ampliação do festival (…). No ano passado, o Bailar Fora de Casa reuniu 70 pessoas. Qualquer pessoa pode aparecer. Não precisa de saber dançar”, realçou Francisco Neves, diretor da equipa de Educação e Mediação Cultural d’A Oficina, durante a conferência de imprensa de apresentação do festival.

O responsável chamou a atenção para a iniciativa “Embaixadas da Dança”, notando a diferença entre as visitas às escolas decorreram antes ou depois dos espetáculos. “Queremos proporcionar experiências para além da dança. Podemos proporcionar a jovens caminhos que desconheciam. Não sabemos qual o impacto no futuro da vida deles. É muito importante estes alunos estarem com artistas (…) É muito interessante perceber as duas dinâmicas: irem antes e depois do espetáculo. Uma abre apetite para ver o espetáculo. E outra depois do espetáculo, em que a conversa tem mais profundidade”, salientou.

O presidente da cooperativa municipal, Esser Jorge Silva, enalteceu o “entusiasmo muito grande” da equipa d’A Oficina em torno do GUIdance, um festival que versa sobre o “diálogo do corpo com o espaço, o movimento gracioso, de harmonia e de rotura, expressando todas as hipóteses de liberdade” à mercê do ser humano, e vincou que as iniciativas educativas procuram dotar o território de maior sensibilidade artística.

“O objetivo não é doutrinar, mas fazer com que os artistas que nos visitam participem nessa capacitação do nosso território, afaguem os membros da nossa comunidade e que esse afagar tenha um contributo para a capacitação cultural e artística. Não quer dizer que vamos produzir artistas e executantes, mas vamos dotar o nosso território de maior compreensão da sensibilidade artística. Esse objetivo será reforçado nos próximos anos. É esse o nosso caminho”, descreveu.

 

“Celebração das relações”

Uma outra iniciativa prevista é a do ensaio aberto às escolas. Na edição de 2026, Olga Roriz é a protagonista desse ensaio, que, em 2025, reuniu 120 alunos no CCVF. De regresso ao GUIdance após a participação na edição inaugural, em 2011, a coreógrafa e bailarina natural de Viana do Castelo, homenageada por várias vezes em Portugal, apresenta um espetáculo sobre o próprio fenómeno da criação, a partir das suas vivências e referências, que coloca em causa o princípio de que é necessário “um corpo atlético, jovem e virtuoso” para ser parte da dança contemporânea.

“A juventude do corpo não é o essencial. É quando tem de ser. Neste caso, não é”, referiu, numa declaração por videoconferência. Após um “ano muito bonito de residências” por todo o país e também em Londres, que serviu para apreender as sensações de espaço e tempo, a coreógrafa de 70 anos chamou a atenção para a necessidade de não ser tudo igual na dança contemporânea.

“É essencial a individualidade da escolha de cada artista, de maneira a que isto não fique tudo igual. Às vezes, ouço o público da dança contemporânea dizer que é tudo igual. Há muita coisa a ver. Há muita visão global em relação à escolha de artistas com recursos muito específicos”, realçou.

Já Nico Ricchini, bailarino da Akram Khan Company, vincou que “Chotto Desh” é uma peça sobre encontrar um lugar no mundo, compreender qual o meio a que se pertence, tendo traçado um paralelo com o seu trajeto de vida, tendo nascido nas Filipinas e crescido em França, antes de se fixar em Barcelona há 17 anos.

O diretor d’A Oficina para as artes performativas, Rui Torrinha, enalteceu o facto de ser “muito pouco usual uma cidade com a escala de Guimarães manter um festival com esta consistência”, que é “cada vez mais do público”, como mostra a procura crescente por ingressos face ao ano passado, e disse olhar o GUIdance como “uma celebração das relações” através de “um dos gestos mais ancestrais do ser humano”.

Salientou ainda o facto de Guimarães, pese as apresentações anteriores de Victor Hugo Pontes, ser origem de criação nesta edição – a coreografia “Tender Riot”, em estreia absoluta, no dia 7 de fevereiro, conta com a criação de Ana Rita Xavier, coreógrafa nascida em Guimarães que se radicou entre o Porto e Berlim nos últimos 15 anos, e de querer sempre “elevar a fasquia” em relação a edições anteriores.

“Digo que Guimarães sabe sempre subir a fasquia. O teatro e a música estão mais enraizados, mas o país surpreende-se com esta pujança. O festival não é só sobre tecnalidade, mas sobre mover o corpo. Quando me perguntam porque devemos ir a um festival de dança, digo que devemos ir porque todos temos um corpo e nos movemos”, argumentou, a propósito de um festival cujo orçamento global é de 130 mil euros, semelhante a anos anteriores.

 

15.ª edição do GUIdance - programa

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