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Jorge Araújo: “Teremos de recolher roupa estragada", separá-la e valorizar

Tiago Mendes Dias
Ciência & Tecnologia \ quarta-feira, julho 20, 2022
© Direitos reservados
Por ocasião dos 20 anos do Centro de Valorização de Resíduos, o seu diretor executivo enumera os biorresíduos ou os têxteis como áreas de presente e futuro num país com “muito caminho a fazer”.

A partir do seu gabinete em pleno campus de Azurém da Universidade do Minho, com vista para o Castelo de Guimarães e para muito do tecido verde que cobre os interstícios da cidade-berço, Jorge Araújo exibe um saco de ganga que chegou ao fim do seu uso; é um dos exemplos de vestuário pós-consumo passível de valorização para se devolver à sociedade como recurso, ainda para mais num tempo em que a separação quer de resíduos têxteis, quer de biorresíduos, outro dos tópicos de investigação em voga, estão prestes a entrar em vigor.

Com formação de base em engenharia biológica e um MBA em gestão do meio ambiente em curso, o hoje diretor executivo do Centro para a Valorização de Resíduos fala da expansão ocorrida em 20 anos, de um perfil de investigação que começou pela construção civil, transformando-se entretanto, e da escassa taxa de circularidade na sociedade portuguesa, em entrevista ao Jornal de Guimarães.

 

Qual é o panorama de Portugal quanto à valorização de resíduos, nomeadamente em comparação com a Europa?

Nestes 20 anos, Portugal tem melhorado imenso. O nosso país produz entre 0,5 e 1% do total dos resíduos na Europa e temos cerca de 2% da população. Não somos um país com grande produção de resíduos, em comparação com uma Alemanha ou uma Dinamarca, os países per capita que mais produzem resíduos e também os que mais reciclam. Aí é que estamos pior. Daí ter surgido o Centro para a Valorização de Resíduos (CVR) para se aproveitar os resíduos – aquilo que vai para aterro sanitário ou para incinerar. Aí Portugal já está mais atrasado; a média europeia de reciclagem está nos 39 a 40% de resíduos. Portugal está a reciclar 48%. Países como a Bélgica, os Países Baixos, e a Itália têm taxas de reciclagem acima dos 80%. Portugal tem um caminho muito grande para fazer, apesar de tudo o que de bom já fez. Achamos que estamos sempre muito mal. Não estamos, mas temos muito caminho para fazer. Isso vê-se não só nos indicadores de reciclagem e de deposição em aterro, como no da circularidade. Aproveitamos muito pouco. Portugal aproveita cerca de 2% dos materiais que consome todos os anos. Há materiais que, ano após ano, vão ficando incorporados na atividade do país, mas a circularidade no nosso país é muito baixa.

 

O CVR é parte desse processo há 20 anos. Em que contexto surgiu?

Na Universidade do Minho (UMinho), já havia investigação em reciclagem de resíduos – subprodutos da indústria. Como já havia projetos nacionais e projetos europeus dentro da UMinho, concretamente no departamento de Engenharia Mecânica, percebeu-se que faria sentido criar um centro tecnológico para trabalhar isto de forma profissional e organizada, fora da órbita interna de uma universidade. Era preciso estar mais perto das indústrias e dos serviços, mas com uma ligação muito forte à academia. A maioria do capital do CVR é detida pela UMinho.

Os associados fundadores foram a UMinho, a TecMinho, outro centro de interface da universidade, a Associação Portuguesa de Fundição, porque as indústrias de fundição tinham grandes quantidades de resíduo, em volume e em peso. Ainda somos um país com muita fundição, sobretudo para a indústria automóvel, para a ferrovia e para a construção civil: fabricamos muitos produtos metálicos para esses setores. quem fabrica muito tem resíduos. Por isso, associou-se como fundadora. Além disso, estava ainda a extinta Associação Industrial do Minho, agora Associação Empresarial do Minho.

Na universidade, os departamentos de Engenharia Mecânica, de Engenharia Biológica e de Engenharia Civil participaram ativamente no ato da escritura pública do CVR, com valorização de resíduos nessas áreas. A partir daí, fomos alargando o nosso trabalho; depois da fase de criação, surgiu a fase de expansão e agora estamos na maturidade. Já há uns 10 anos que o CVR está numa situação madura, de consolidação. Fazemos coisas novas e deixámos de fazer outras de investigação aplicada. Fomos os primeiros em Portugal a fazer biocombustíveis a partir de óleos alimentares usados. Mas isso já acabou.

 

Além dos óleos alimentares, lembra-se de outros resíduos que foram os primeiros a serem aproveitados?

Nos primeiros trabalhos, pegávamos em areias de fundição e aplicávamos na construção de uma estrada, em vez de material virgem. Já não precisávamos de ir às pedreiras. Usávamos ainda os resíduos da fundição e da metalomecânica para se fazerem materiais para a indústria cerâmica: barro vermelho. Também fizemos projetos para tijolos, para argila expandida. Alguns desses primeiros trabalhos já entraram em velocidade cruzeiro. Utilizámos outra vez resíduos de fundição e outros resíduos inertes para novos produtos incorporados em argamassas de betão e de cimento. A indústria cimenteira utiliza muitos resíduos inertes que vieram destes estudos. Esse já é um trabalho normal: com estes resíduos, evitam extrair recursos virgens dos montes.

 

“No Ecoprolive [projeto financiado pelo Horizonte 2020], projeto de dois milhões de euros, o objetivo é um lagar de azeite 100% ecológico. Todos os resíduos eram aproveitados: conseguimos fazer pão, bolachas com resíduos do lagar do azeite”

 

Como se deu a expansão do CVR para outras áreas?

Depois desta primeira área, que tinha a ver com a incorporação desta fileira na construção civil – cerâmicos, cimentícios, betuminosos e argamassas – e com os metais retirados de lamas, quer os tóxicos, que são tratados e têm muitas vezes como destino o aterro, quer os de valor como níquel, ferro, ou alumínio -, expandimos para os biocombustíveis. Cada vez mais estamos na bioeconomia, no têxtil, porque teremos a obrigatoriedade de recolher roupa estragada e de a deitar ao nosso caixote do lixo para a separar e a valorizar. A União Europeia já diz que os países vão ter de recolher seletivamente da mesma maneira que recolhem o plástico e o metal, o papel e o cartão, e o vidro. A seguir aos biorresíduos, vêm o têxtil e os resíduos perigosos. Já estamos a antecipar essas mudanças.

 

Que projetos vê como marcantes no seio da instituição?

Temos projetos diretamente financiados por Bruxelas, a partir do Horizonte 2020, como o Ecoprolive e o BBTwins, que envolvem consórcios muito grandes, com parceiros europeus muito à frente na investigação tecnológica. No Ecoprolive, projeto de dois milhões de euros, o objetivo é um lagar de azeite 100% ecológico. Todos os resíduos eram aproveitados: conseguimos fazer pão, bolachas com resíduos do lagar do azeite. O pouco que sobrava do processo ainda vai para valorização energética. O consórcio trabalhou também a extração do azeite, não por processos mecânicos, mas com tecnologias de extração de fluidos, que retiram muito mais azeite e são mais amigas do ambiente. Depois de retirada a azeitona do olival, aproveitamo-la a 100%. O Ecoprolive tem produtos com a marca Ecoprolive, que estão a ser comercializados pelo promotor do projeto, uma empresa espanhola que montou o lagar de azeite em Pamplona, que nem é a zona de mais azeite. Mas isso tem a ver com a tecnologia.

 

Quanto ao BBTwins, o que oferece?

O BBTwins tem a ver com a economia circular e com a indústria 4.0. Visam o aproveitamento total do porco e da fruta. Na indústria ligada ao gado suíno, digitalizamos todos os processos, desde que o porco anda no campo até que os produtos estão nas prateleiras. O CVR faz muito a parte de avaliação de ciclo de vida, do processo e de olhar para os resíduos produzidos nas várias etapas. Com as tecnologias disponíveis, procura fazer a valorização dos vários resíduos. O BBTwins pretende digitalizar aquilo para ter um gémeo digital da cadeia de valor. Se eu disser que vou aumentar a ração do porco ao nível da proteína ou se disser que quero outros produtos do porco que não o presunto, eu posso digitalmente fazer todas as simulações para ver o impacto que isso tem na minha atividade.

 

Também há ganhos ambientais nesse processo?

Sim, porque não preciso de andar a fazer experiências na própria cadeia, porque as estou a fazer no computador. Se uma experiência não resultar, eu não levo aquilo para o terreno. Se resultar, vou experimentar no terreno. O gémeo digital passa por ter no computador tudo digitalizado para alterar variáveis e ver o resultado.

 

 

Um dos projetos mais mediáticos do CVR foi o da transformação de beatas de cigarro em tijolos. Na altura, o projeto contou também com o Laboratório da Paisagem, entidade ligada não só à UMinho, como à Câmara Municipal de Guimarães. A colaboração com autarquias é parte do dia a dia do centro?

Essa colaboração tem surgido ao longo do tempo. O município de Guimarães tem-nos apoiado muito, é associado do CVR e está no nosso conselho de administração. A UMinho preside e a Câmara é associada. Temos 86 associados, de todas as tipologias, mas sobretudo de indústrias que produzem os resíduos e de serviços que tratam os resíduos, públicos ou privados. A Câmara tem estado connosco e agora mais ainda, porque a gestão de resíduos toca aos municípios. Temos trabalhado em parceria. O projeto da valorização das beatas de cigarro teve depois um eco muito maior porque fomos abordados pelo Instituto de Soldadura e Qualidade, sediado em Lisboa, e por uma pessoa que viu que era possível fazer tijolos com beatas. Eles viram que o CVR estava a fazer um projeto com a Câmara, chamado “Guimarães for Circular Economy”. Uma das áreas em que já estávamos a trabalhar era a de pegar em pontas de cigarros para fazer barro vermelho. Fizemos a argila expandida, porque o cigarro, quando vai a alta temperatura, tem poder calorífico. Diminuo o custo que tenho com o forno de cozimento da argila, porque o cigarro misturado serve de combustível. Essa foi a nossa primeira opção. Fizemos ainda uns cubos cerâmicos com as beatas de cigarro. Depois, com o ISQ, fizemos um tijolo decorativo, sem função estrutural, mas com grande impacto. Tiram-se as beatas das ruas e poupa-se no cozimento. Para funções mais decorativas, de gabinete de arquitetura, tem todo o interesse.

 

Face à proximidade, como avalia a atuação de Guimarães na área dos resíduos? Está nesses estudos recentes?

Guimarães não está nesses estudos. O município já tem esses dados. Antes, já tínhamos feito outros trabalhos para o município; temos caracterizado os resíduos de Guimarães. Sabemos que cerca de 50% são resíduos orgânicos. De três em três anos, temos feito a caracterização física dos resíduos de Guimarães, nas freguesias rurais, nas freguesias de interface rural e urbano e nas freguesias urbanas. Essa caracterização é muito importante para o município tomar decisões.

 

A imensa presença têxtil no território vimaranense e concelhos envolventes pode dar ainda mais visibilidade à importância da gestão dos resíduos?

Há duas coisas: os resíduos domésticos são da responsabilidade do município e os resíduos industriais são da responsabilidade do industrial. Em Portugal, utiliza-se o princípio da responsabilidade alargada ao produtor. O produtor tem essa responsabilidade, que, no caso deste território, delega muitas vezes na Resinorte, na estação de Riba d’Ave. No “Guimarães for Circular Economy”, trabalhámos por exemplo nos resíduos de jardins. Fizemos trabalhos para ver qual o potencial de compostagem desses resíduos, o potencial calorífico. Há um processo em Guimarães muito bem aplicado, que deveria ser replicado por todos os municípios: muitas das podas quer dos jardins, quer das ruas, quer dos parques estão a ser utilizadas nas escolas primárias para aquecerem as salas de aula. Eles entregam esses subprodutos de podas para as salamandras das escolas.

 

O CVR trabalha com municípios a norte a sul do país. E tem ainda alcance internacional. Fruto da atividade que tem, perguntava quantos projetos o CVR tem por ano? O volume de negócios gerado chega para os custos das investigações em curso ou o centro depende sobretudo do financiamento de Bruxelas?

O ideal é que o centro tenha atividades diretamente pagas por empresas industriais, empresas de serviços ou pelos municípios, que também ajudem a levar os projetos financiados para a frente. A maior parte dos projetos financiados não é a 100%. São a 75 ou 85% a fundo perdido. Para cobrirmos os 25% não financiados, o CVR precisa de atividade geradora de lucro, com laboratórios necessários para a comunidade. Temos os dois únicos laboratórios acreditados, quer para a caracterização de resíduos, quer para a caracterização de emissões gasosas na região de Guimarães. Não há outros. Quando as empresas de Guimarães querem monitorizar o que emitem das chaminés, pedem ao CVR. Fora de Guimarães, as empresas já só encontram laboratórios no Porto. Têm de pagar os custos da deslocação. É uma grande mais-valia haver aqui dois laboratórios mundialmente acreditados. As águas residuais das indústrias e os seus resíduos têm de ser caracterizados antes de serem descarregados no coletor ou no rio, se tiver ETAR completa. Isso decorre periodicamente: pode ser com regularidade mensal, bimensal, trimensal. A legislação obriga a que a caracterização dos resíduos que vão parar a aterro sanitário ou a águas residuais seja em laboratórios acreditados por peritos externos, de Lisboa, do Instituto Português de Acreditação. Eles veem por exemplo se os nossos equipamentos estão calibrados ou se os nossos técnicos têm competência para as análises laboratoriais. Têm de ser certificados para os ensaios. Há também o cuidado com a fiabilidade dos resultados: por cada resultado produzido, tem de ser possível rastreá-lo até ao momento da recolha da amostra.

 

O número de investigadores tem aumentado?

Há investigadores a termo certo e, a maioria, a termo incerto, com licenciaturas e mestrados em engenharia. Temos ido por patamares. O CVR começou com duas administrativas em 2002. Eu fui o primeiro com qualificações técnicas a entrar, em 2003. Temos três doutorados nos quadros da CVR, em áreas como engenharia civil ou bioquímica. Depois há mestres em engenharia mecânica ou em engenharia biológica. Com as crescentes menções à circularidade, o CVR tem por onde crescer.

 

Que futuro vislumbra para o CVR. Como projeta os próximos 10 anos?

Nos últimos cinco a 10 anos, o CVR tem alargado a atuação para a bioeconomia circular. Queremos que tudo seja aproveitado dentro da área da bioeconomia; os biorresíduos são um tema quente. Teremos de fazer recolha seletiva nas nossas casas; correspondem a cerca de 50% da matéria orgânica que deitamos ao lixo. Como os têxteis em 2025, um ano antes os biorresíduos têm de ser separados. Por isso, já muitos municípios têm projetos-piloto em freguesias ou localidades onde separam os biorresíduos: há os contentores amarelo, verde, azul, preto e castanho [biorresíduos]. Será obrigatório. Depois ainda haverá o têxtil e os perigosos. No CVR, já temos feito estudos para sistemas municipais e multimunicipais sobre como se pode fazer uma melhor recolha e valorização desses biorresíduos, a nível de rotas e de equipamentos.

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