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LASI junta investigadores para “grandes projetos” na “fronteira da ciência”

Tiago Mendes Dias
Ciência & Tecnologia \ terça-feira, outubro 17, 2023
© Direitos reservados
Sede do Laboratório Associado de Referência em Inteligência Artificial e Ciência de Dados em Portugal (LASI), é inaugurada na quinta-feira - dia 19 de outubro - em Guimarães.

Com 500 investigadores e 13 centros associados, o Laboratório Associado de Sistemas Inteligentes quer agregar conhecimento e aceder a financiamento que permita a Portugal “jogar na Liga dos Campeões” da inteligência artificial, tecnologia que tanto pode apoiar as decisões humanas, mas requer precaução. O antigo Cybercentro é a sua sede e 19 de outubro a data da inauguração.

Quando o Laboratório Associado de Sistemas Inteligentes (LASI) espera ainda pelo descerramento da placa – 19 de outubro é a data da inauguração -, as conexões entre os seus 13 centros de investigação e mais de 500 investigadores estão em pleno processamento. Um dos mais recentes projetos destina-se a Guimarães.

Os dados de satélites, de qualidade do ar, de mobilidade, quer de pessoas, quer de transportes, são matéria-prima para modelos de previsão com ações que reduzam as emissões de carbono; uma delas foi a redução do tempo de abertura ou fecho de semáforos em 15 a 20 segundos. Auxiliado por inteligência artificial (IA), o projeto enquadra-se na iniciativa Greening Cities, associada à União Europeia. “Queremos produzir tecnologia para nos ajudar a reduzir a pegada de carbono. Queremos que a cidade de Guimarães funcione como pioneira para replicar todas essas características noutras cidades", adianta Manuel Rodrigues, investigador principal do LASI.

Referência para a inteligência artificial e para a ciência dos dados em Portugal, a estrutura foi aprovada há dois anos e meio pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), com sede em Guimarães. O espaço definido para a acolher é o do antigo Cybercentro, no Complexo Multifuncional de Couros. Mais do que receber equipamento, aquele lugar vai ser ponto de encontro e de circulação para investigadores “A ideia é ligar o LASI à comunidade empresarial e ao local onde está inserido. Em termos de processamento, temos a vantagem de ter perto o supercomputador Deucalion. Precisamos de grande poder computacional e seria impraticável tê-lo aqui”, complementa o investigador vinculado ao Centro ALGORITMI, unidade de investigação da Escola de Engenharia da Universidade do Minho (EEUM) que coordena o laboratório de sistemas inteligentes.

“Precisamos de ferramentas que olhem para um emaranhado de dados e digam: o caminho é por aqui", Paulo Novais, coordenador do LASI

Os investigadores passam por ali, mas continuam sobretudo a trabalhar nos respetivos centros de investigação, desde o Instituto Politécnico do Cávado e do Ave (IPCA), a norte, à Universidade Nova de Lisboa, a sul, realça o coordenador do LASI, ao lado. "Não queremos uma estrutura pesada. É fundamental uma estrutura ágil e dinâmica que se adapte ao projeto. Este equipamento serve como sede e vamos utilizar as salas para demonstrações das soluções que temos. É a porta de entrada do mundo LASI”, vinca Paulo Novais.

A estrutura está assim vocacionada para grandes projetos e para sinergias entre investigadores dos vários centros, consoante a sua especialidade: enquanto o Instituto Politécnico do Porto está mais vocacionado para decisões nas áreas da energia e da sustentabilidade e a Universidade de Coimbra para a criatividade computacional, a UMinho está habituada à interface com várias indústrias, descreve o investigador.

Para o vimaranense, o LASI dará a Portugal a “capacidade de jogar a Liga dos Campeões” da inteligência artificial. Os cerca de 500 investigadores associados a instituições lusas formam uma “excelente comunidade”, mas pequena a nível internacional. Precisam, por isso, de se congregar em torno de financiamento para projetos maiores. “Dá-nos a capacidade de ir a jogo. A qualidade advém da quantidade. Precisamos de nos juntar para aspirar a voos mais altos e projetos mais ambiciosos”, crê. "No LASI, trabalhamos na fronteira da ciência e da engenharia”, acrescenta.

 

IA: “Um binóculo que ajuda a ver na complexidade”

A ligação de Guimarães à investigação em IA precede o LASI. “Há dois ou três anos já se discutia coisas como o ChatGPT em Guimarães”, recorda Paulo Novais, a propósito das várias conferências realizadas na cidade-berço, a última das quais entre 12 e 14 de julho deste ano, com mais de 300 investigadores de 40 países.

Mas as ramificações desse corpo de conhecimento associado às entidades inteligentes - um software, uma máquina, um robô mais ou menos humanoide” – sentem-se noutras camadas: no desenvolvimento de têxteis ou polímeros inteligentes, em pareceria com o Instituto de Polímeros e Compósitos, a outra entidade da UMinho associada ao LASI, a plataforma Fibrenamics, por exemplo, ou nas entranhas do dia a dia: nas interações com sistemas inteligentes, como o ChatGPT, mas também nas ferramentas geradoras de ideias para ações de marketing, nas simulações bancárias ou nos vales de compras em hipermercados, com dados do cliente já embutidos.

Por norma, qualquer iniciativa para criar inovação e valor está associada à inteligência artificial, resposta para um mundo em que as decisões têm cada vez mais variáveis em jogo - humanas, económicas, estratégicas -, realça Paulo Novais. “Nós, humanos, não conseguimos pensar em mais do que duas ou três variáveis ao mesmo tempo. A IA é como um estetoscópio ou um binóculo que ajuda a ver na complexidade. Precisamos de ferramentas que olhem para um emaranhado de dados e digam: o caminho é por aqui", descreve.

 

Ver a “última fronteira” como extensão da inteligência humana

Confrontado com os receios da humanidade face aos efeitos da IA, o coordenador do LASI reconhece o “potencial de ser usada para fins indevidos”, enquanto “tecnologia que lida com uma matéria sensível”: “Os nossos dados”, aponta.

Para Paulo Novais, a IA deve ser olhada como “uma extensão da inteligência humana”, ajudando as pessoas a “serem muito mais eficientes” e a se “libertarem para outro tipo de performance”, mesmo com os distúrbios que vai causar. O desafio, a seu ver, é o de “não deixar ninguém para trás”, “formando, ensinando e dando a todos a oportunidade de perceber” uma tecnologia em que, “mais do que calcular o resultado”, é “importante dominar e interpretar o processo”.

O investigador reconhece, aliás, que a ciência pode estar perante uma “última fronteira” do conhecimento humano. “A IA trabalha com aquilo que faz de nós humanos, a inteligência e o conhecimento que geramos. Esta é a última fronteira. A partir daqui, tudo o que se possa fazer são coisas que eventualmente nos ultrapassam”, antecipa.

[ndr] artigo originalmente publicado na edição de outubro do Jornal de Guimarães. 

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