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“Não podemos abdicar do português como língua de ciência e conhecimento”

Tiago Mendes Dias
Cultura \ quarta-feira, maio 05, 2021
© Direitos reservados
Ideia foi vincada no seminário do Dia Mundial da Língua Portuguesa, a decorrer no Vila Flor. Também se falou de inclusão acerca de um idioma que, no fim do século, deverá ter 500 milhões de falantes.

A Câmara Municipal de Guimarães decidiu assinalar o Dia Mundial da Língua Portuguesa com um seminário no Centro Cultural Vila Flor (CCVF) e uma das ideias que norteou a sessão de abertura foi a necessidade de se proteger um idioma com 260 milhões de falantes nos campos da ciência e do conhecimento, pelos papéis que têm no “desenvolvimento e no bem-estar das comunidades”, como se tem visto durante a pandemia de covid-19, frisou o embaixador de Portugal na UNESCO, António Sampaio da Nóvoa.

“Não podemos abdicar do português como língua de ciência e conhecimento”, vincou, numa declaração emitida por vídeo. “Claro que o inglês tem o seu papel como língua franca e de contacto, mas isso não significa que não devamos proteger as outras línguas. É uma tarefa central para nós, na qual as universidades têm tarefa decisiva, mas não só elas”.

Agradado pelo facto de a data instituída em 2019 colocar na “praça pública nacional e internacional” os “debates, controvérsias e discussões” em torno da língua portuguesa, Sampaio da Nóvoa defendeu que tanto a educação básica como a educação superior são “essenciais” na afirmação deste idioma, que, a seu ver, deve ter “presença acrescida no debate sobre a ciência aberta e o acesso livre a um conjunto de avanços da humanidade”.

Para o ex-candidato à Presidência da República, nas eleições de 2016, a discussão do português também deve ser a discussão da criatividade e da cooperação. Desde que assente na “diversidade de pontos de vista”, a cooperação deve ser a palavra de ordem na Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) para se “pensar e cuidar” da língua portuguesa.

Quanto à criatividade, Sampaio da Nóvoa lembrou que a humanidade só progrediu graças à capacidade de criar nos campos científico, artístico e literário; essa capacidade de criar, porém, não ocorre fora das possibilidades da língua, disse, citando o escritor Vergílio Ferreira. “Ao alargarmos as possibilidades da língua portuguesa, estamos a alargar as possibilidades de sermos criativos”, defendeu.

Também por videoconferência, o secretário executivo da CPLP, Francisco Ribeiro Telles, realçou que a organização, no ano do seu 25.º aniversário, se deve “transformar numa comunidade de povos”, que se constitua como “espaço de cidadania” para uma “maior circulação de cultura”. “Devemos olhar para a cultura e a língua como um ativo geoestratégico e económico de maior importância”, disse.

Para o responsável, a defesa da língua portuguesa implica ainda o combate ao analfabetismo e ao trabalho infantil, bem como o acesso à “educação universal de qualidade”. Só assim, crê Francisco Ribeiro Telles, o idioma poderá ser partilhado por todos os falantes, que, segundo estimativas, podem ser 500 milhões no final do século XXI. E essa partilha poderá fazer “pontes num mundo marcado por fraturas”, criando “diálogo e paz”.

Já o reitor da Universidade do Minho, presente no CCVF, vincou que as instituições de ensino superior têm a difusão de conhecimento como missão genérica, a partir da qual se desdobram outras missões. “Da universidade, espera-se que assegure a formação das pessoas ao nível superior, seja ética, científica, cultural, artística ou técnica, para um exercício de cidadania ativa e responsável”, disse Rui Vieira de Castro.

Enquanto “universidade aberta à pluralidade de línguas e culturas”, à “inclusão”, à “inovação” e à “construção de uma região de conhecimento e de cultura”, a academia minhota pode, no seu entender, avançar com medidas de divulgação da língua portuguesa, acrescentou.

 

Um caso de inclusão em Guimarães

Além de mencionar o papel de Guimarães na fundação de um país que, mais tarde, disseminou a sua língua de forma a ser falada por centenas de milhares de pessoas, a vice-presidente da câmara municipal avisou que é preciso trabalhar para a língua portuguesa se “manter viva”.

Alguns dos mecanismos para o fazer no caso das cidades portuguesas, referiu, é alimentar a relação com a diáspora ou as geminações com cidades estrangeiras. “Temos este plano estratégico que algumas destas cidades mantenham uma relação forte com Guimarães. Estamos completamente disponíveis para cooperar na cultura, na educação e noutras dimensões”, referiu Adelina Paula Pinto.

Mas a língua portuguesa deve ser também cultivada desde “tenra idade”, pela influência que pode ter no sucesso escolar desde quando se é criança. “Um dos preditores de insucesso de uma criança que entra no 1.º ciclo é o número de vocábulos que conhece. Se tiver um número de vocábulos maior, terá mais possibilidades de sucesso. O empoderamento da língua é feito através da educação, da escola e da comunidade”, explicou.

A vereadora com os pelouros da Educação e da Cultura realçou ainda o trabalho de inclusão realizado pela autarquia junto das comunidades do Nepal e do Bangladesh que se fixaram em Moreira de Cónegos. As escolas disponibilizam informação nas línguas nativas, mas também querem fazer um esforço para que os migrantes possam falar português.

Convicta de que os “sons das palavras” da língua de Camões são fatores de união entre os povos que a falam, Adelina Paulo Pinto realçou o compromisso de que, a partir de Guimarães, a “língua continue a ser identidade, espaço de união, de inclusão, de cooperação e de paz”.

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