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“Que o Arquinho seja contributo para viver a cidade em contexto de ciência”

Tiago Mendes Dias
Ciência & Tecnologia \ sexta-feira, setembro 30, 2022
© Direitos reservados
Reconduzido sexta-feira como presidente da Escola de Engenharia da Universidade do Minho (EEUM), Pedro Arezes refere ainda que a unidade deve avaliar os cursos que “podem cair” e que “devem surgir”.

O processo está a avançar “de forma mais rápida” que o previsto: a licenciatura em Engenharia Aeroespacial, prevista para arrancar em 2023 ou 2024, já funciona no campus de Azurém, e o projeto de arquitetura para a fábrica do Arquinho já foi a concurso. Ainda assim é “urgente” transformar a antiga têxtil numa instalação com laboratórios, a utilizar sobretudo a partir do terceiro ano, por gente da Universidade do Minho e por gente de fora. Essa mistura é, aliás, desejável num “espaço muito urbano”, algo cada vez mais “atrativo”, refere Pedro Arezes. Em vias de ser reconduzido para um segundo triénio, o docente do Departamento de Produção e Sistemas quer manter o elevado grau de empregabilidade dos cursos e avaliar que mudanças há a fazer na oferta educativa.

 

As licenciaturas em Engenharia Aeroespacial, da Escola de Engenharia da Universidade do Minho, e Ciência de Dados, da Escola de Ciências (ECUM), em parceria com a EEUM, já arrancaram, tendo gerado muita procura – a Engenharia Aeroespacial apresentou a nota mínima de entrada mais elevada em toda a universidade. É a prova de que a aposta valeu a pena?

Penso que sim. Era importante dar a conhecer os cursos e torná-los atrativos. Conseguimos em ambos, com a última nota dos classificados muito boa. Mas é importante não deixar cair as expetativas destes alunos e conferir-lhes uma formação de base boa. Vamos ter alguns dos melhores alunos a nível nacional. Portanto, convém cumprir este contrato de lhes fazer uma formação de alto nível.

 

A Engenharia Aeroespacial surge num tempo em que se fala cada vez mais das potencialidades do espaço. Mas há outras dimensões em que um especialista na área pode atuar…

A engenharia aeroespacial inclui o espaço, mas também a aeronáutica. Dentro dessa área, temos um curso orientado para a tecnologia mais recente. Não têm necessariamente de trabalhar no espaço ou na indústria aeronáutica, embora a maior parte queira fazê-lo. Podem também trabalhar noutras áreas que trabalham no limite da tecnologia.

 

O que acrescenta a formação em ciência de dados a quem se interessa por sistemas de informação ou estatística? Em que é que difere a nova licenciatura?

O curso de Ciência de Dados faz a união entre vários domínios. É um curso oferecido pela ECUM, onde está a matemática e a estatística, e a EEUM, onde está a informática e os sistemas de informação. Enquanto a estatística aplicada tem muito a ver com os próprios dados, como tratá-los e analisá-los, na Ciência dos Dados queremos desenvolver as ferramentas para trabalhar esses dados e obter os resultados que queremos. Não passa só por saber colher dados, o que passa desde logo por sensorização e pela recolha dos dados, mas também por ferramentas, sobretudo informáticas e de inteligência artificial, que permitam trabalhar massas enormes de dados para tirarem dados ou resultados importantes.

 

Docente do Departamento de Produção e Sistemas é especialista em ergonomia

Docente do Departamento de Produção e Sistemas é especialista em ergonomia

 

O curso de Engenharia Aeroespacial estará ligado à antiga fábrica do Arquinho, num projeto anunciado em 2019. A ideia já era congeminada antes de ter assumido a presidência da EEUM? Ou surgiu depois da tomada de posse?

Surgiu uns dias depois. Tomei posse a 02 de outubro de 2019, e tivemos, a 14 de outubro, um workshop com uns parceiros do Brasil, do Instituto de Tecnologia Aeronáutica, um dos grandes parceiros deste curso. Aí foi criada a semente para este curso, que era suposto avançar de forma muito gradual. Os nossos planos originais apontavam para que o curso fosse lançado a quatro ou cinco anos a partir dessa data: significaria no próximo ano ou até em 2024. As coisas avançaram de forma mais rápida: em contacto com a Câmara Municipal de Guimarães, o senhor presidente deu nota à Universidade do Minho que havia um espaço no centro de Guimarães para a investigação e para a ciência. Foi um encontro muito oportuno, porque andávamos à procura não de um local para lecionar a engenharia aeroespacial, porque será lecionada no campus, mas para os laboratórios, porque não tínhamos espaço para eles. A configuração e a volumetria da fábrica do Arquinho adequavam-se ao que andávamos à procura. Neste momento, está em concurso o projeto de arquitetura. Da nossa parte, é urgente a obra avançar o mais rapidamente possível, porque começamos a ter alunos. Já temos esses laboratórios algures no campus. A ideia é pegar em parte do equipamento e transferi-lo para o Arquinho.

 

Sempre pensaram num novo edifício para essa área mais prática da engenharia? Não pensaram numa solução para Azurém? Haverá esta circulação entre Azurém e Couros, área que suscita alguns lamentos pelo distanciamento face à maioria dos alunos universitários…

A experiência com Couros tem sido positiva, mas há problemas, nomeadamente logísticos. Levar para lá alunos acarreta questões críticas de se resolverem, como o simples acesso a um café ou à própria wi-fi, que, no campus, estão garantidos, e fora é sempre um problema. As aulas serão no campus. O Arquinho será sobretudo espaço de investigação: terá auditórios, open space para pessoas trabalharem lá e investigarem, mas não queríamos este movimento de os alunos terem aulas num sítio e depois voltarem ao campus. Todas as atividades de investigação e eventualmente aulas práticas decorrem aí, mas já não temos aquela massa de alunos no centro histórico. A configuração do espaço é diferente. Queremos que a fábrica do Arquinho esteja sempre cheia de gente a trabalhar: alunos, alunos de pós-graduação, investigadores ou os nossos próprios docentes.

 

O objetivo é então transformar o Arquinho num hub (esse termo muito em voga) de investigação aeroespacial?

Procuro evitar os termos em inglês, mas queremos esse hub, essa plataforma de investigação aeroespacial, atrativa para colegas do estrangeiro virem ter connosco e não se sentirem desligados do campus, porque não estão. A ideia é também dar-lhes a experiência de estarem inseridos na cidade. Depois esperamos ter investigadores que trabalham connosco e até professores. Para as novas gerações, é muito atrativo trabalhar num espaço muito urbano. Em vez de estarem longe das cidades, num sítio com muito espaço, ficam num contexto urbano onde depois tomam um café, passeiam no centro, enfim fazem a vida normal muito perto do sítio onde trabalham. Por isso, vemos o regresso de famílias mais novas aos centros históricos, mesmo à custa de alguma perda de mobilidade. Queremos que o Arquinho seja um contributo para se viver a cidade num contexto de ciência.

“Queremos discutir o que estamos a fazer, o que estamos a ensinar, o que estamos a investigar e o que queremos fazer daqui a 10 anos. Queremos eventualmente perceber se há áreas que temos de deixar cair”

 

 

Como vê o desempenho dos cursos da EEUM, quanto à formação e à empregabilidade? Há cursos com menor interesse de momento, até por causa da conjuntura económica, como aconteceu no passado com a Engenharia Têxtil ou a Engenharia Civil?

Há áreas que têm ligação aos ciclos económicos e outras com ciclos mais difíceis de perceber, ciclos mais sociológicos. Há a ideia nas famílias, sobretudo as famílias com alunos a concorrer com ao ensino superior, que um determinado curso é atraente e que determinado curso não tem futuro, o que afeta muito as médias. A Engenharia Civil e a Engenharia Têxtil foram sinais disso. Mesmo quando a indústria têxtil dá sinais de recuperação e de bom desempenho, continua a haver a ideia de que é um setor pouco atrativo. Por isso, continuamos a lidar com a dificuldade em captar alunos para a engenharia têxtil e para a engenharia de polímeros, o que pode estar ligado a esta componente ambiental que as novas gerações abraçam. Os alunos desses cursos estão empregados, com bons salários, mas isso não chega para mudar a visão da sociedade. Muitas vezes o nosso papel é ir às escolas, um papel de proximidade, para mostrar aos alunos que não é a imagem que associam. Mas preocupar-nos-ia mais termos uma área em que os alunos ficassem sistematicamente no desemprego. Essas são bandeiras de alerta muito importantes, porque não podemos estar a formar pessoas para engrossar números de desemprego.

 

Decidiu recandidatar-se a um segundo mandato como presidente da EEUM. O que espera ver concretizado para os próximos três anos?

Vou-me recandidatar, embora com uma equipa diferente para a presidência, constituída por três vice-presidentes. Temos vários objetivos inscritos para várias áreas: recursos humanos, qualidade dos campi, a internacionalização, a educação, a avaliação de qualidade, a ética. Aquelas ações são muito mais ambiciosas do que o que podemos fazer em três anos, mas inscrevemo-las à mesma. No mandato anterior, a maior parte dos objetivos foi conseguida, mesmo com uma pandemia que incapacitou ações físicas e ditou a prioridades a nível financeiro. O dinheiro já não foi utilizado para outras coisas. De resto, propomos continuidade da estratégia, mas desde já com um exercício estratégico entre os nove departamentos.

 

O que significa concretamente esse exercício estratégico?

Queremos discutir o que estamos a fazer, o que estamos a ensinar, o que estamos a investigar e o que queremos fazer daqui a 10 anos. Queremos eventualmente perceber se há áreas que temos de deixar cair. Temos de reconhecer se as áreas têm viabilidade ou não. E de perceber se outras, que não estamos a atacar, merece esforço. Nesta área da engenharia aeroespacial, íamos trabalhando, mas não de forma intensiva.

 

A abertura de novos cursos faria sentido. Como falou das alterações climáticas, o ambiente pode ser tido em conta?

Não digo que se possa traduzir imediatamente num curso, mas a engenharia de polímeros, a engenharia de materiais, a engenharia química e a engenharia biológica devem trabalhar a sustentabilidade.

 

A nível de inovação, consegue-me elencar algumas das mais notórias da escola de engenharia?

Tenho sempre dificuldade em fazer isso. Sou docente da Escola de Engenharia há mais de 30 anos, mas tenho nove departamentos e nove centros de investigação com atividade de relevo e descobertas importantes. A EEUM é relevante não só no contexto nacional, como no mundial. Basta ver os prémios que os nossos investigadores recebem, os artigos em revistas onde publicam, que são cada vez mais. Agora há trabalhos com mais exposição mediática do que outros. Durante algum tempo, trabalhei numa área que envolvia os fatos espaciais. Esse meu trabalho, nem pior, nem melhor do que outros que fiz, tem muita exposição mediática porque chama a atenção e faz parte do imaginário. Há outros trabalhos com igual valor, mas muito mais low profile.

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