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Romarias estão de volta: há braços a segurar o património imaterial

Bruno José Ferreira
Cultura \ sábado, maio 14, 2022
© Direitos reservados
Entre mais uma voltinha nos carroceis, para lá da festa ficam horas de trabalho voluntário em prol das tradições. As romarias estão de volta e há braços que vão segurando o património imaterial.

Montam-se as barraquinhas; acendem-se as luzes. Abre-se o postigo das farturas e os carroceis marcam o compasso dos sorrisos das crianças. Os arcos dão vida à festa, monta-se o palco. Depois de semanas de burburinho, mais um ano da festa da freguesia. Umas maiores, outras mais pequenas, com mais ou menos gente, uma vez por ano, as romarias - sempre alicerçadas na religião e com um rasto de tradição - estão de volta.

Porventura, no bolso ainda sobram umas ‘fichas dos carrinhos’ no ano passado. Se bem guardadas, talvez venham a ser utilizadas para quando voltarem os filhos da terra para aquela época especial em que as famílias se reúnem para exaltar o santo padroeiro ou outro costume enraizado na comunidade, que trespassa de geração em geração e faz parte da identidade daquele lugar.

Após dois anos sem festividades, por força da pandemia, é tempo de tirar o pó dos artefactos necessários, recorrer ao fundo do baú e redobrar energias para voltar ao ciclo de sempre daquele legado que é deixado, que é transmitido umbilicalmente e que é para dar seguimento, mesmo contrariando a força da mudança dos tempos.

Por trás das luzes, das ruas apinhadas de gente, do rebuliço, há braços que seguram o património imaterial da tradição, braços que seguram a própria tradição; braços que carregam história, que ajudam a construir a história em pequenos fragmentos, para que se possa incluir esses mesmos fragmentos na história de cada festa ou romaria. E quando esses braços deixarem de carregar a tradição? Começa a perguntar-se em surdina.

A casa azul para “tirar as medidas em” Creixomil

Reza a lenda que a capela de Nossa Senhora da Luz, em Creixomil, foi mandada edificar por D. Afonso Henriques, por mais uma hora de luz concedida para permitir que o primeiro rei de Portugal saísse vencedor da Batalha de São Mamede. No Monte da Senhora da Luz, junto da pequena capela, com oito cruzeiros nas imediações, o fim-de-semana a seguir à Páscoa, já se sabe, é de festa numa das várias romarias do concelho. E há décadas anos que a casa azul do número 1978 da Rua dos Cutileiros faz parte da tradição. Várias gerações subiram as escadas para “tirar as medidas”.

Inocência Fernandes, com três quartos de século, é quem desde 1975 abraça a tarefa de “tirar as medidas das crianças que se inscrevem para ir de figurantes”, os ‘anjinhos’ da procissão. Começou por ajudar a mãe e a professora mais velha de Creixomil, Dona Maria Amélia Maia, responsáveis por organizar a procissão de domingo de manhã. “Copiava o que elas faziam e aprendi”, suspira. Filha de um dos mais antigos ‘irmãos’ da Irmandade de Nossa Senhora da Luz, e um dos responsáveis pelo restauro da capela, não tinha como não seguir a tradição.

“No dia, oriento as pessoas e crianças ao vestir e nas posições na procissão”, deixa sair com entusiasmo, acrescentando que “a grande novidade foi o conjunto que abriu a procissão: cinco meninas vestidas de amarelo e azul – cores da Ucrânia – para «pedir a paz»”. Este ano foi ligeiramente diferente. Depois de dois anos sem procissão, e com a idade a avançar, ficou-se pela varanda da casa azul. Com hora marcada junto à capela, quatro dias Inocência Fernandes esteve disponível para tratar dos anjinhos.

Inocência Fernandes, a prenseciar a passagem da procissão a partir do número 1978 da Rua dos Cutileiros. ©Nuno Machado Mendes

“Ninguém fica de fora caso queira ir. Basta aparecer e arranja-se vestido”, é certo. Sempre foi dado um jeito. “Já fiz procissões com 25 crianças, mas também já levei mais de 100 “anjinhos”, atira Inocência Fernandes. Apesar da experiência, ano após ano não há maneira de ver a procissão sem o “nervoso miudinho quando está mau tempo”. “Custa-me que as crianças se molhem ou fico com medo que a procissão não saia. Mas há sempre uma aberta na hora de sair, Nossa Senhora concede sempre um bocadinho de sol”, diz, com uma convicção inabalável.

Para trás fica o rasto dos estrugidos queimados; “a qualquer hora, lá ia à porta”, pontua com um sorriso que desculpa a gralha pelo espírito de missão que permite as “semanas a correr para a porta sem hora marcada ou aviso prévia”. Inocência está convencida que “é preciso sangue novo” para alimentar as tradições, mas essa consciência esbarra na realidade que diz que “infelizmente” o envolvimento e a participação “tem vindo a diminuir muito”, numa tendência reforçada pela pandemia.

Esta é, no entender de Inocência Fernandes, “uma tradição bonita” que “precisa de cada vez mais envolvimento dos mais novos”. “Tenho esperança que os avós contem aos netos e os motivem a ir de “anjinho” e que os casais que foram saindo da freguesia, se lembrem de regressar neste fim de semana com os filhos para cumprir a tradição”, sublinha, em jeito de formulação de desejo.

“Já me vem no sangue, lembro-me de ir nos carros com sete anos”

As emoções da Senhora da Luz já se ultrapassaram, assim como outras festas e romarias, havendo outras prestes a entrar no tal período de ebulição, como é o caso da Romaria Grande de São Torcato. Em 1852 fez-se a trasladação do corpo de São Torcato para o santuário, agora basílica, e desde então vários párocos mobilizaram-se com um grande número de romeiros.

A tradição ganhou cada vez mais força e perdura, também graças a braços que a vão sustentando. É o caso de Maria Rosa Gonçalves, que desde 1986 é a responsável pelo asseio dos dois carros alegóricos e dos três andores “muito grandes”, que exigem mais de um mês de trabalho para que tudo esteja pronto no primeiro fim-de-semana de julho. “Agora é mais rápido, temos mais gente a ajudar”, destaca Maria Gonçalves.

Ajuda na romaria desde que se lembra, também por influência do seu pai. “Antigamente o meu pai ia a pé de Guimarães para São Torcato, não havia transportes, ele ia a pé e passava lá quinze dias. Não era longe, mas ir e vir a pé, não dava então ele ficava lá quinze dias”, conta. Por isso, não é de estranhar que Maria Rosa Gonçalves se lembre de desde sempre marcar presença na romaria. “Já me vem no sangue desde pequena, lembro-me de ir sentada nos carros com sete ou oito anos, ou até com menos”, comprova.

Imagem da Romaria Grande São Torcato.

A meias com a felicidade por ser a “sua” Funerário Passos a ter a tradição de assear os baluartes da romaria, Maria Rosa Gonçalves, natural e São Sebastião com 70 anos, lamenta ao mesmo tempo o alheamento das gentes mais novas. “Não tinham ninguém que fizesse isto, se não fossemos nós. Não digo isto por dizer, é a realidade; não vejo estas e outras atividades como estas, tradições, a ter seguimento”, lamenta.

Depois e dois anos sem procissão, Maria Rosa Gonçalves está a postos para orientar a saída dos carros e o cortejo. Sabe que ainda há “algum receio das pessoas”, mas acredita que se irá deparar com uma multidão. “Penso que vamos ter muita gente. Houve recentemente em Gominhães uma procissão que fomos nós que tirámos e havia lá muita gente. Esperemos que seja assim também”, diz, prometendo, enquanto for possível continuar a ajudar.

“Andamos meio ano a construir e meio ano a alagar, é assim a marcha”

Um mês depois da Romaria Grande de São Torcato abre-se palco para as festas da cidade, as Gualterianas. Não sendo uma romaria propriamente dita, a Marcha Gualteriana faz-se sentir na primeira segunda-feira de agosto há mais de cem anos, ilustrando as principais festas do concelho. Um cortejo alegórico que junta milhares e milhares de pessoas que, durante um par de horas, contemplam carros, vestes e outras formas de entretenimento.

Para esse momento, que se esfuma em poucas horas, há sensivelmente meio ano de trabalho de mãos como a de João Nobre, conhecido como senhor Nobre, que desde que se conhece faz “pintura, colagem, tirar pregos; o que for preciso”. Aos 86 anos encontramo-lo na casa da marcha. Fala ao Jornal de Guimarães de forma apressada, não deixando de colar os fragmentos de cartão à madeira.


João Nobre, conhecido como senhor Nobre, em mais um dia de trabalho na casa da marcha.

“Agora só venho de tarde, à noite já não tenho vindo: a idade já não dá para isso. Já passei aqui milhares de horas até lhe perdi a conta. No inverno tem de se alagar tudo. Andamos meio ano a construir, a preparar a marcha e meio ano a alagar o que estava feito do ano anterior”, explica. Recorda-se de chegar pela primeira vez à casa da marcha quando andava na escola. Já lá vãos uns valentes anos. Por isso, a família nem reclama das horas passadas fora. “A minha mulher quando casou comigo eu já fazia isto. Os meus filhos quando nasceram eu já cá andava, por isso é natural, habituaram-se”, diz com um misto de orgulho com um ar de lamento pelas “muitas horas perdidas”.

Quando se pergunta a razão pela qual se entregou a esta causa, a resposta sai rapidamente e quase que sem perceber o sentido da questão. “É a minha terra, Guimarães! Faço isto por tudo: pela minha terra, por Guimarães, pela amizade. Fiz aqui muitas amizades”, realça. Ultimamente já não tem acompanhado o percurso a marcha, ã idade também já não dá para grandes aventuras. Fecha a porte e fica a aguardar pelo regresso.

Os lamentos são os mesmos de Inocência Fernandes e Maria Rosa Gonçalves. “Cada vez nota-se que falta mais gente”, ainda que, para já, “os poucos que aparecem vão dando conta do recado”. Atualmente o senhor Nobre trata dos bonecos: “Eletrificar, pôr a dar luz, pôr direitinhos com os cintos para a malta os levar. Em quinze dias antes põe-se pronto a sair na marcha. Estão ali pendurados, no dia tira-se para baixo. Põe-se as pilhas e pronto”, diz enquanto olha para os bonecos. Recorda que já foram 600, atualmente há dificuldades em fazer sair os trinta que existem.

Sinais dos tempos. Há menos gente as romarias, mas ainda há braços a segurar o património imaterial e as tradições.

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