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“Seta-cegonha”: teatro em trânsito equaciona futuros para lá do auditório

Tiago Mendes Dias
Cultura \ segunda-feira, agosto 31, 2026
© Direitos reservados
Estreada no final de julho, a peça desenrola-se entre Guimarães e Matosinhos, em dois carros que viajam em sentidos opostos, cruzando-se algures a meio. Os bancos de trás constituem a plateia.

Concebida como obra intermédia de uma trilogia de criações de Bruno dos Reis enquanto diretor do Teatro Oficina, “Seta-cegonha” levanta questões mesmo antes de começar e ainda mais quando termina, após duas horas de viagem, nas quais se desenrola a dramaturgia e a encenação.

Quando se pensa em teatro, pensa-se em palco, em cenografia, em sistema de iluminação, em auditório. Essa malha mental desfaz-se de pronto quando o espetador é convidado a entrar para o automóvel – o que parte de Guimarães ou o de Matosinhos. Na sessão a que o Jornal de Guimarães, o carro que tornar-se-ia palco em movimento estava estacionado na Avenida D. Afonso Henriques, entre o Centro Cultural Vila Flor e o Teatro Jordão, onde muita representação acontece, enquanto os figurantes transitavam absortos nas suas vidas, alheios ao que estava prestes a acontecer.

De repente, as colunas do automóvel, o autorrádio, a caixa de velocidades, o abrir e fechar dos vidros tornavam-se adereços de uma encenação sem encenador a assistir, o que esbatia naturalmente a hierarquia entre quem cria e quem representa. "A encenação não tem a possibilidade de ver os espetáculos todos os dias. Não sabe se correu de certa maneira. Isto levanta a questão de como é que estará o espetáculo após 30 sessões. O texto ainda estará da mesma maneira?”, começa por dizer Bruno dos Reis, dramaturgo e encenador do espetáculo em coautoria com Gaya de Medeiros.

Assim que a ignição se liga e o automóvel segue o seu caminho, o teatro acontece. Num dos veículos, Ricardo Pinho e Francisca Sobrinho debatem-se com a busca de um desígnio comum a partir de visões e sensibilidades diferentes, entre reflexões sobre linguagem ou filosofia e referências nostálgicas a marcos do imaginário cultural e televisivo português dos anos 90 e 2000. Essa nostalgia sobressai nas chamadas telefónicas com Nuno Preto, o ator que conduz o outro bólide, palco do seu monólogo sobre passado, futuro e acaso, vertido sobretudo nas múltiplas referências ao ato de jogar.

Enquanto viajam, os atores contracenam com a paisagem noturna em redor e com os carros que os ultrapassam, estando sujeitos à possibilidade de não apresentarem a criação nas duas horas programadas. O imprevisto é uma das circunstâncias mais gratificantes numa experiência nova para Nuno Preto, pese os seus anos de experiência no teatro, no cinema e na televisão.

“Partilhamos isto com este carro de limpeza que está a passar ao nosso lado, o que traz uma dimensão muito curiosa ao que é o teatro e o teatrinho. O teatrinho está escrito e depois há o teatro que realmente acontece, fruto do acaso, enquanto órgão vivo. Para mim, uma das coisas mais importantes num espetáculo é o órgão vivo que vai para uma autoestrada e contracena com obras e contracena com carros, com pessoas com as quais na bomba de gasolina falamos”, realça, ao descrever a sua experiência.

 

Duas viagens, duas possibilidades de futuro no “aparelho teatral”

Embora já tivesse a ideia de criar uma peça de teatro em movimento há alguns anos, Bruno dos Reis defende que um espetáculo assim tornar-se-ia estranho se se fizesse apenas “pelo seu exotismo”. Era preciso um “sentido maior”, que começou a entrever durante a criação de “Tudo em Avignon e eu aqui”, a primeira peça da trilogia ao leme do Teatro Oficina. Como a peça evocava alguém que foi motorista da cooperativa A Oficina por vários anos, o dramaturgo entendeu que o automóvel era “uma sequência natural” para o propósito deste trio de criações: afastar os atores e o público cada vez mais do equipamento teatral convencional,

"Com Tudo em Avignon e eu aqui, houve tempo para pensar se o teatro ainda era um lugar para a imaginação. Neste caso, no automóvel, com o risco e o acaso sempre muito presentes. Estamos a falar, por exemplo, do ato de um automóvel se atrasar e o outro já não chegar ao mesmo tempo. Aqui, o tempo pode vencer o espetáculo", frisa.

Ciente do ensaio “O mundo do wrestling”, publicado pelo filósofo francês Roland Barthes em 1957, onde emerge a ideia de que o futuro do teatro pode ficar limitado ao que propõe essa encenação de luta, com um guião onde sobressai a clareza moral da trama, em que “toda a gente sabe o que vai acontecer”, inclusivamente o público, Bruno dos Reis explora as hipóteses de futuro do teatro com base em duas perspetivas: daí deriva a opção de dois automóveis que se cruzam a meio.

“Uma delas é, de facto, este fator do risco, do imprevisível, do acaso, mais presente na viagem do Nuno Preto. E a outra viagem aproxima-se da leitura do [filósofo] Alain Badiou do teatro: para Badiou, a maravilha do teatro e do amor é quando duas pessoas completamente diferentes conseguem acreditar na mesma coisa, ver uma coisa que não estava lá à partida”, expõe.

O diretor artístico do Teatro Oficina frisa ainda que o convite a Gaya de Medeiros, bailarina, coreógrafa e dramaturga que já passou pelo GUIdance, visou dar espaço a “uma voz nova”, para “não se verter tudo da mesma cabeça e da mesma dramaturgia”, e à descoberta de um lugar novo.

Além da desconstrução do teatro como lugar fixo, há uma outra característica que sobressai num teatro em que os atores dão boleia aos espetadores: a proximidade entre os viajantes. "Levamos o teatro nas mãos. De repente, o teatro é muito próximo, com uma intimidade que é única, olhos nos olhos com o próprio público. A experiência é totalmente partilhada”, salienta Nuno Preto.

 

Terceira peça da trilogia deve estrear em setembro de 2027

Aberta a dois espetadores por sessão, a obra “Seta-cegonha”, cujo título deriva de referências no início e no final do espetáculo, será exibida diariamente a partir desta segunda-feira, 31 de agosto, até 29 de setembro, à exceção dos fins de semana de 5 e 6 e de 19 e 20 de setembro e dos domingos de 13 e 27, sempre com início às 22h00.

Os bilhetes têm um custo unitário de 7,5 euros e já se encontram esgotados para todas as sessões com partida de Guimarães, havendo alguns (raros) bilhetes ainda disponíveis para sessões com partida desde Matosinhos.

Após uma semana de testes no final de julho, esta peça que, ocasionalmente, toca o cinema – há cenas no exterior a que assistimos através do para-brisas, como se fosse uma tela –, propõe um afastamento do equipamento teatral convencional que será definitivamente consumado em “Não é uma rave, é apenas lounge”, a terceira peça desta trilogia sobe os limites do teatro, com uma fábrica abandonada de Guimarães a servir de palco para uma experiência que espera esbater ainda mais as fronteiras entre atores e público.

“Será um lugar onde através da música e da dança, a participação do público pode ser plena de uma forma diferente do auditório, em que existe um aparelho que diz que tu és aqui, tu és acolá, aqui está o lugar do poder - da representação, do autor, dos encenadores, dos intérpretes - e aqui está o lugar de escuta, da plateia”, afirmou, vincando que o espetáculo deve estrear-se em setembro de 2027. Entretanto, Bruno dos Reis espera repor “Seta-Cegonha” durante o próximo ano.

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