Westway LAB: de Candoso ao Vila Flor, música com liberdade e partilha
Libertada quase toda a energia de um concerto que entrelaçou sensibilidades pop e jazz, Fenne Scholte anunciou a última canção da performance exibiu-se no café-concerto do Centro Cultural Vila Flor, apropriadamente intitulada “Roll credits”. Detentora de uma voz límpida, a neerlandesa cantou temas compostos ao longo de uma semana, no Centro de Criação de Candoso (CCC), em partilha com a dupla portuguesa Tomás & Francisco e com o baixista sueco Isak Nygren.
O quarteto encerrou o dia inaugural da 13.ª edição do Westway LAB – quarta-feira, 8 de abril -, marcado pela apresentação inédita de “Tédio”, por Carlos Maria Trindade, na igreja de São Francisco, e pelos outros dois concertos oriundos do CCC: a checa Never Sol com a dupla portuguesa Malva e a ucraniana NFNR com a portuguesa Sofia Leão.
“Foi um abrir de olhos, porque vim de um período muito extenuante, e foi realmente libertador poder apenas criar. Estávamos ali só para criar. Foi realmente agradável. Tínhamos muita liberdade. Isso fez com que a experiência fosse frutífera. Criámos muito num reduzido intervalo de tempo. Não esperava que criássemos tanto”, diz Fenne Scholte ao Jornal de Guimarães, após o concerto.
Prestes a lançar um álbum, Fenne realça que os primeiros três dias na antiga escola de São Martinho de Candoso foram “realmente loucos”, pela rapidez com que os músicos se entenderam, num processo em que a criatividade pode fluir. “Fomos uma espécie de vasos sanguíneos para esta criatividade fluir através de nós. Foi um processo muito orgânico. Funcionámos bem a nível musical e a nível pessoa”, acrescenta, vincando também as amizades que estabeleceu, cenário que torna a vida “um lugar mais seguro para criar”.
Ao lado, Francisco Carneiro, que também integra os Ocenpsiea, confessou que a experiência de uma semana em Candoso, desde o início do mês, foi “bastante surpreendente”, pelo fenómeno de praticamente se criar um ritual de grupo, não para propósitos religiosos ou sociais, mas apenas para fazer música, com os egos a ficarem de fora. “Houve muita humildade entre nós os quatro. O fluxo estava lá e mantivemo-lo. Divertimo-nos no concerto”, descreve o pianista e compositor.
Também ligado aos Ocenpsiea, o baterista Tomás Alvarenga assumiu ter sido um privilégio viver “uma semana mágica” em Candoso, a fazer música com pessoas que têm o mesmo interesse. “Podia fazer isto para sempre. Tínhamos tudo o que precisávamos. Tivemos espaço para ensaiar, música, instrumentos, comida, bom tempo”, ri-se.
Agradado com todo o processo criativo, Isak Nygren vinca que a residência permitiu aos músicos viverem a experiência de “crianças na loja de guloseimas”, escolhendo “as ideias musicais que mais lhes agradavam no momento”. "Explorámos vários géneros de música. O Francisco tem muita força de ideias e energia. Foi espantoso experimentar as várias ideias", realça, elogiando o músico com quem partilhou residência artística.
Never Sol e Malva © Paulo Pacheco
“Dois planetas diferentes num mesmo universo”
O cartaz de quarta-feira à noite abriu com o concerto da dupla portuguesa Malva – formada por Beatriz Madruga e Carolina Viana – e de Never Sol, nome artístico da checa Sára Vondrásková. O que se viu no CCVF foi um cruzamento entre a eletrónica de Never Sol, repleta de sintetizadores e reverberação, e o som assente na formação clássica e jazzística de Beatriz e nas experiências poéticas de Carolina. “A Carolina, de um momento para o outro, avisa-me que tem uma canção que é apenas dois acordes, e construímos algo à volta disso. São dois planetas diferentes num mesmo universo”, realça Beatriz, ao Jornal de Guimarães.
Tais contrastes guiaram um processo criativo que envolveu som, mas também poesia e experiências de vida, para se criar um repertório musical que só funcionaria em concerto se todas as artistas estivessem conectadas. “O que apresentámos não é uma progressão de quatro acordes, que repetimos sucessivamente. Neste tipo de música, ou há ligação ou não. E as coisas não acontecem se não nos ouvirmos. Foi um imenso desafio”, acrescenta.
Ao lado, Carolina Viana testemunha “uma semana perfeita” para as três artistas, que souberam conjugar os seus estilos e sentimentos para criar. “No primeiro dia, soubemos logo que iria acontecer algo de bom no concerto. Para nós, foi um encontro perfeito. Foi importante para nós as três”, assinala.
NFNR e Sofia Leão © Paulo Pacheco
“Uma lufada de ar fresco”
Rosto do projeto NFNR, radicado em Kiev, Olesia Onykiienko já participara em várias residências artísticas, mas nunca numa em que os artistas são deixados completamente sós, a criar, sem qualquer interferência de quem dirige. “Nos outros casos, havia sempre alguém entre os curadores a acompanhar-nos. Estarmos sós numa casa grande, naquela dinâmica de comida e música, comida e música, comida e música, foi o melhor que podíamos esperar para colaborarmos e ter inspiração”, começa por dizer ao Jornal de Guimarães.
Grata pela abertura de Sofia Leão para saber sempre mais sobre os vários detalhes da música eletrónica que cria, Olesia relata um “trabalho bastante ambicioso” ao longo da semana, ao combinar piano, vozes e eletrónica, algo “difícil tecnicamente”. “Tivemos de ajustar imensas coisas. Estivemos sempre a trabalhar. Gostei imenso das harmonias, das vozes e de como trabalhámos. Foi muito inspirador começar as jams. Foi um tempo muito agradável", salienta.
A trabalhar a solo ainda nem há um ano, Sofia enalteceu a “boa tempestade de ideias” com que Olesia a confrontou para sair da “zona de conforto”, numa semana em que as coisas começaram a funcionar ao terceiro dia, após vários obstáculos nos dois primeiros dias. “Foi bastante difícil. Tínhamos ideias, mas esta residência foi algo completamente diferente do que tinha feito antes. A Olesia ajudou-me imenso a entender coisas em que tinha pensado, em alguns ajustes. Tudo é possível na música. Testei diferentes ritmos, diferentes harmonias, que nunca tinha experimentado”, descreve.
Para Olesia, a experiência foi também um recarregar de baterias para voltar à Ucrânia com mais energia. "Como venho da Ucrânia, foi uma lufada de ar fresco. Estou muito grata por ter estado aqui. Também celebrámos a Páscoa. Esta semana deu-me imensa energia para voltar para a Ucrânia e seguir em frente. Inspirou-me imenso", confessa.